No raiar de Antonio Candido

Falece o maior crítico literário brasileiro, Antonio Candido, dono de uma obra extensa e de grande significação para a história do país e de sua literatura.

Por Roberto Sarmento Lima* | Ilustrações Alexandre Jubran | Adaptação web Caroline Svitras


O nervo da vida

Temperado com açúcar, o depoimento acima transcrito revela uma alma paciente e dócil, cujo timbre, adequado ao seu caráter, surpreende, no entanto, aquele que espera que se fale de uma literatura que se formou aos tropeços. Mas, dentro da sua tese principal, a questão do sistema literário, conceito que exige uma consideração teórico-crítica que deve passar longe do coração, avulta um complexo socialmente construído onde se admite, de acordo com a formulação desse pensador, a coexistência de autores, obras e leitores. Como conceber, ainda mais no Brasil do século XVIII mineiro, em sua fase pré-Independência, um verdadeiro paiol de pólvora, um sistema em formação? A ideia proposta não pode ser apreciada em sua visível tecnicalidade, não, de forma alguma. E, ademais, nem sabemos bem como, em contexto assim, é que autores e obras e leitores se davam — bem ou mal — e se articulavam, sobretudo em momento tão cheio de conflitos e interesses contraditórios como era aquele. O sociólogo Antonio Candido não dá peso à descrição sociológica; e tudo parece convergir, segundo sua análise, para o encontro ou consórcio entre obras, autores e público, trio necessário à formação do sistema, ainda que, no capítulo dos pressupostos da Formação, se possa ler, quase como antídoto à desconfiança que poderia um dia ser levantada em meio às afirmações do Mestre, que:

 

“A tentativa de focalizar simultaneamente a obra como realidade própria, e o contexto como sistema de obras, parecerá ambiciosa a alguns, dada a força com que se arraigou o preconceito do divórcio entre história e estética, forma e conteúdo, erudição e gosto, objetividade e apreciação.”

 

Acontece que palavras como “contexto” ou “sistema” carecem de melhor determinação, e a convivência de seus elementos constituintes precisa ser delineada em sua maior concretude e especificidade, já que, ao final de tudo, sempre resulta destacada a noção de forma literária como a noção dominante dentro do sistema, mesmo em análise que se pretende sociológica:

 

“A forma, através da qual se manifesta o conteúdo, perfazendo com ele a expressão, é uma tentativa mais ou menos feliz e duradoura de equilíbrio entre esses contrastes.”

 

Ora, que há contrastes há, sim, sem dúvida: contrastes sociais, políticos, de temperamento e ideologias, conflitos de forças várias. A literatura é, seguramente, o lugar para melhor revelá-los; e nisso é que reside a felicidade do texto literário, sua aprovação e culminação estética, motivo por que Vidas Secas, de Graciliano Ramos, não morre jamais, mas A Carne, de Júlio Ribeiro, agoniza no panteão da nossa lista de autores. O problema é que, em certos ambientes acadêmicos saturados de sociologismo, sempre se esperou de Antonio Candido (por formação universitária, um sociólogo, depois um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores) uma leitura da literatura feita de modo esfuziante, chamativo, barulhento, partidário, sectário. Mas não estamos mais no século XIX, quando fundamentos externos como a política ou a viva história prevaleciam altaneiramente sobre o elemento estético, de que nenhum crítico, naquela época, parecia dar conta. Muito pelo contrário: Candido afirmará, em obra posterior, em 1965, no livro Literatura e Sociedade, comparando o método de análise que defende em relação, por exemplo, ao de Silvio Romero, do século anterior ao dele, que “Seria o caso de dizer, com ar de paradoxo, que estamos avaliando melhor o vínculo entre a obra e o ambiente, depois de termos chegado à conclusão de que a análise estética precede considerações de outra ordem.”

 

Não faltam, pois, ao vocabulário de Antonio Candido termos como “paradoxo” e “contraditório”, já que o real não é tão simples assim, esquemático e regular. Afinal, a forma literária, o acabamento formal do texto, como ele deixa claro no capítulo “Pressupostos”, na Formação da Literatura Brasileira, “(…) mesmo quando relativamente perfeita, deixa vislumbrar a contradição e revela a fragilidade do equilíbrio. Por isso, quem quiser ver em profundidade, tem de aceitar o contraditório, nos períodos e nos autores, porque, segundo uma frase justa, ‘é o próprio nervo da vida’.”

 

Quem sabe, examinando melhor a sutileza da escrita de Antonio Candido, sejam ponderadas as acusações de que ele viu o sistema como algo meramente técnico, asséptico, livre de conflitos. Sendo ele um sociólogo acima de tudo, é um crítico literário acima de tudo. Parece contraditória a minha definição? Não é. Antonio Candido soube administrar a integração das áreas e suas disciplinas científicas, tentando ao máximo diminuir a distância entre elas, embora por vezes se sinta nele mais um scholar da crítica imanente do que, de fato, um autor que queira equalizar o social e o estético numa unidade significativa, detectado isso numa só expressão.

 

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Adaptado do texto “No raiar de Antonio Candido”

*Roberto Sarmento Lima é professor doutor da Universidade Federal de Alagoas. Autor do livro O Narrador ou o Pai Fracassado: Revisão Crítica e Modernidade em Vidas Secas, publicado em 2015 pela OmniScriptum/Novas Edições Acadêmicas, em Saarbrücken, Alemanha. (sarmentorob@uol.com.br)