Música é literatura?

Bob Dylan: menestrel, criador de novas expressões poéticas

Por René Ferri* | Foto: Reprodução Internet | Adaptação web Caroline Svitras

 

Daniel Kramer fotografou Bob Dylan durante dois anos, em meados dos anos 1960, e clicou as mais belas imagens do cantor. Tornou-se íntimo de Dylan e ele estava presente no Studio A da Columbia Records, em Nova York, em janeiro de 1965, quando Bob chegou para começar a gravar 18 músicas novas, uma série de canções escritas para o álbum Bringing It All Back Home, mas que se estendeu para o álbum seguinte, 61 Highway Revisited, ambos editados naquele ano — discos que reposicionaram Bob Dylan no cenário artístico norte-americano, e que alteraram os rumos da própria música popular americana, de forma irreversível.

 

Kramer relata em seu livro como Bob chegou seguro, consciente, já sabendo que estava para produzir uma obra-prima, reunindo pela primeira vez uma banda completa em estúdio — os quatro LPs anteriores foram gravados com Bob praticamente solitário, com uma guitarra acústica e a então inseparável gaita de boca. Ali, Kramer assistiu à construção de uma lenda que iria abranger várias gerações.

 

Foto: Daniel Kramer

 

Como Bob Dylan chegou a esse nível de qualidade musical a ponto de revolucionar a música folk da qual ele se tornou adepto e, depois, principal porta-voz? É necessário recuar no tempo até a sonolenta Duluth dos anos 1940 e 1950, cidade sede do Condado de St. Louis, localizada na parte nordeste do estado de Minnesota, onde Dylan, então chamado Robert Allen Zimmerman, nasceu em 24 de maio de 1941, e cujo pai era dono de uma loja de ferragens localizada numa das ruas principais, o que permitia à família uma vida bastante confortável.

 

Por causa dos estudos, Bob Dylan morou brevemente em Sioux Falls, Dakota do Sul, e em Gallup, Novo México, completou o ginásio em Hibbing, Minnesota, perto da fronteira do Canadá. Frequentou a universidade durante seis meses, quando rompeu com a educação formal. Musicalmente, não era diferente de outros rapazes de sua idade — na escola, para as aulas de música, optou pelo piano e formou uma banda de rock’n’roll. Começou a se interessar por blues rural e folk no final dos anos 1950, mas o que ouvia era o que tocava no rádio: música pop adulta e o então emergente rock, dirigido às plateias adolescentes.

 

FOLK MUSIC, EXPRESSÃO DA CULTURA POPULAR
Capa do LP “Bring It All Back Home”, onde registrou uma de suas músicas mais famosas, ‘Mr. Tambourine Man’ | Foto: Reprodução Internet

Todo povo tem seu conjunto de músicas folclóricas, algumas próprias e outras vindas de outras culturas, repertório transmitido oralmente, sendo o folclore musical anglo-americano o mais vasto e bem documentado. No século 18 e em diante, musicólogos americanos e ingleses recolheram todo esse material, e foi tudo transcrito para pauta e registrado. De tempos em tempos, algumas dessas canções emergem com algum sucesso, mas nunca ficam esquecidas, como acontece com as canções convencionais, escritas ao gosto popular em voga, e que quase sempre somem no esquecimento.

 

A música folk nos EUA, além daquela autenticamente folclórica (tal como foi recolhida e registrada), foi expandida em seu conceito e passou-se a considerar legitimamente como folk music compositores rústicos como Woody Guthrie (1912-1967), que não apenas cantavam as músicas ancestrais como escreviam novas canções, ampliando sobremaneira o já vasto repertório folclórico do país.

 

FOLK REVIVAL E LITERATURA BEAT
Primeira autobiografia lançada por Dylan | Foto: divulgação

Em 1960, Bob Dylan estava a um passo de se contaminar definitivamente pela música folk — havia um frenesi pelos campus universitários, além de clubes e cafés dos centros urbanos, onde a música folclórica renascia com força total, com o movimento do folk revival que vinha sendo esboçado desde meados da década anterior, com o sucesso comercial de gravações de grupos como The Weavers e The Easyriders, e de cantores como Harry Belafonte e Pete Seeger.

 

O movimento folk revival se precipitou em 1958, com a gravação do Kingston Trio de uma música de nome ‘Tom Dooley’, uma releitura de uma autêntica folk song da Carolina do Norte, que fez um sucesso gigante, chegando ao primeiro lugar na parada da Billboard. O folk revival ia além da música, possuía uma comprometimento com o esquerdismo crescente na América que acabou deflagrado na década seguinte; era uma ação social e política, com fortes conexões com o sentimento pacifista e o movimento militante pelos direitos civis e igualdade racial.

 

 

A pergunta a ser feita é: com todo seu imenso talento, Bob Dylan seria hoje um músico de sucesso, famoso e influente, caso tivesse optado por outro gênero musical que não fosse a folk music? Provavelmente, sim, mas não com o tipo de influência que a música folk proporcionou! Não chegaria a ser cogitado para prêmio literário nenhum, tal como tantos outros músicos da geração dele. A folk music nasceu e conservou um viés cultural, político e contestatório, e manteve conexões fortes com a literatura poética; poetas beat, como Gregory Corso e Allen Ginsberg, e escritores como Jack Kerouac, Neal Cassady e Michael McClure aqui e ali manifestaram interesse pelo que era produzido na folk music, além de os músicos/compositores desse estilo mostrarem um embevecimento intenso e perene pela arte da escrita.

 

MÚSICA DE PROTESTO, AS VAIAS E A ACEITAÇÃO
Foto: Daniel Kramer

Um desdobramento a se registrar foi o aparecimento da “música de protesto” — na verdade e na prática isso já existia, pois a música folclórica de caráter pacifista e com conteúdo social nunca deixou de ser “de protesto”; o que aconteceu foi uma radicalização, até como resposta à escalada americana na Guerra do Vietnã. A fase da música de protesto rolou por um período mais ou menos curto, uns dois anos, em meados dos anos 1960, e todos os expoentes do movimento tinham ligações profundas com a música folclórica — Phil Ochs, Joan Baez, Barry McGuire, P.F. Sloan, o próprio Dylan. Como fenômeno, a canção de protesto cresceu e recrudesceu em 1965/1966, e Dylan acabou cooptado, isso porque todos do movimento emprestavam seu modo de cantar e tocar, vestir e se apresentar.

 

1965 foi, também, o ano em que Dylan teve de “brigar” com seu público para impor seu estilo renovado, elétrico. O público mais velho adepto da folk music (e do folk revival, por extensão) era até então bastante conservador. Por “mais velho” entenda-se pessoas com mais de 30 anos. Dylan havia aparecido nas edições anuais anteriores e recentes do Newport Folk Festival com grande sucesso e muito aplauso. Porém, ao surgir na edição de 1965 do mesmo programa, empunhando uma guitarra elétrica e cercado por uma “banda de rock” (mais ou menos os mesmos músicos da gravação de seus discos recentes) a plateia veio abaixo numa vaia nunca vista naquele festival. No final, apresentou seu “adeus” a Newport, versões acústicas de ‘It’s All Over Now Baby Blue’ e da recém-lançada ‘Mr. Tambourine Man’, no meio de apupos e de aplausos. Dylan somente voltaria ao festival 37 anos depois.

 

No final de setembro de 1965, Dylan deu um concerto para 14 mil pessoas no Forest Hills Stadium, em Nova York; a primeira parte foi feita somente com guitarra acústica, gaita e voz, que a plateia acompanhou calma e silenciosamente; quando Dylan entrou para cumprir a segunda parte do concerto, com banda e guitarras elétricas, começou um rumor de desaprovação, e ocorreu algo estranho: durante a execução das músicas o público ouvia quieto, atenciosamente, só vaiava nos intervalos, isto é, os fãs estavam aprendendo a gostar da nova fase de seu ídolo. Um mês depois, Dylan deu um concerto no Carnegie Hall, em Nova York, com lotação esgotada. O show foi uma repetição do apresentado em Forest Hills, mas desta vez o clima era de euforia, e ficou claro que era somente uma questão de tempo para aquele tipo de som se impor — daí em diante, as ideias de Dylan ficariam sempre um pouco à frente de seu público.

 

Foto: Daniel Kramer

 

O importante foi que ele se convenceu de que estava no caminho certo, que a mistura do folk com o rock era a fórmula a ser seguida. Então, encontrou a banda de rock canadense The Hawks e saiu numa excursão americana acompanhado por ela, sua primeira “tour elétrica”.

 

 

POR QUE DYLAN RECEBEU O NOBEL
Foto: Arquivo Pessoal

Em outubro de 2016, a Academia Sueca concedeu a Bob Dylan o Prêmio Nobel de Literatura pelo “conjunto da obra”. Há vários anos Dylan vinha sendo cotado para o prêmio, mesmo assim, o anúncio causou surpresa, e até alguma indignação purista. Perguntaram: “Afinal, o que ele escreve é poesia? É literatura?”, A secretária permanente da Academia Sueca, Sara Danius, justifica de forma cabal: “Estamos premiando Bob Dylan como um grande poeta — essa é a razão pela qual lhe concedemos o Nobel. Ele é um criador de novas expressões poéticas na grande tradição inglesa, que se estende de Milton e Blake, e em diante. Ele é um tradicionalista muito interessante, de uma forma muito original. Não apenas na tradição escrita, mas também na tradição oral; na alta e na baixa literatura. É um autor original que está há mais de 50 anos inovando e se renovando. Homero e Safo escreveram textos poéticos para ser lidos em voz alta, frequentemente junto com instrumentos musicais, assim como os de Bob Dylan.”

 

No entanto, a honraria dada a Dylan surpreendeu pelo fato de o músico ter desbancado outros favoritos da crítica literária — entre eles, o escritor japonês Haruki Murakami. Para Colin Paterson, da BBC, Dylan fez com que as letras de suas músicas fossem mais importantes que a melodia, e lembra que o prêmio, em 112 anos de história, jamais foi dado a um autor de canções, e escritor de apenas três livros: “A decisão eleva letras de música a um patamar semelhante ao da literatura, poesia e dramaturgia. É um grande passo para longe do intelectualismo que se autoperpetua e o elitismo pelo qual o prêmio já foi criticado.”

 

Adaptado do texto “Bob Dylan”

Para ler na íntegra adquira a revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 69

*Redator da Criativo Mercado Editorial.