Música e censura durante a ditadura

O discurso nas composições musicais nos "anos de chumbo"

Por Luzdalva Magi* | Foto: www.mariliamoscou.com.br | Adaptação web Caroline Svitras

Década de 1970, governo Ernesto Geisel, ditadura militar. Nessa época, o discurso era sutil, era “faca de dois gumes”. Para se manifestar era preciso cuidado e todo cuidado era pouco em época de governo militar. A palavra de ordem era “silêncio”, manter o silêncio para manter a distância dos corredores da tortura, dos pavilhões do terror, dos subterrâneos da morte. Todos poderiam ser arrastados, os que sabiam e também os que não sabiam. Os militares queriam culpados, precisavam de adversários subversivos para manter a suposta “ordem”, portanto, nessa época, o discurso se armava de metáforas para sobreviver.

 

Geraldo Vandré

O discurso que martelava a consciência dos brasileiros, transformado em arma pelos estudantes, professores e artistas, era entoado como o mantra da não rendição à opressão daqueles anos difíceis. Por outro lado, o discurso também era a deixa para que o regime acusasse as pessoas. Se o indivíduo possuísse um discurso engajado, não se enquadrasse nas regras impostas e fizesse o devido uso da palavra, era, então, pego por ser subversivo e ter ideias socialistas – isso foi o que ocorreu com os quatro estudantes da UFMG Gildo, Idalisio, José Carlos e Walkiria, Stuart Angel, filho de Zuzu Angel, Manuel Fiel Filho, operário torturado e morto pela ditadura, Carlos Marighella, Vladimir Herzog, o jornalista assassinado na prisão e mais uma enorme lista de vítimas.

 

Foi neste contexto triste e vexatório que nasceu uma pérola do discurso de resistência contra a falta de Liberdade: a canção intitulada: O Que Será? (À Flor da Pele), composta por Chico Buarque de Holanda e Rui Guerra, a qual veio ao mundo lançada por Chico em 1976. Parte integrante do disco Meus Caros Amigos (construção), a música – por ser uma das músicas mais instigantes do disco e possuir um título muito sugestivo para a época – carrega um ar de cumplicidade e segredo e faz a mente deslizar entre os porões da possibilidade.

 

Que palavra está subentendida na frase “Que será?”. Seria Liberdade? Derivada da adivinha popular, “o que é o que é?”, a música possui uma energia indomável na composição daquilo que com certeza não tem certeza nenhuma, que em todos os sentidos não faz nenhum sentido e por ser incerta e sem sentido, também não tem nenhum juízo. Mas o regime militar não primava por inteligência. Chico conseguiu driblar a censura várias vezes, em algumas delas usando o pseudônimo de Julinho da Adelaide – os implacáveis censores ao verem um nome diferente liberavam as músicas pensando se tratar de algum compositor menos polêmico. Por vezes, Chico compunha algo ainda mais provocativo, forçando a liberação de trabalhos anteriores que, comparados, pareciam mais leves.

 

 

 

Os autores usaram maravilhosamente artimanhas para desafiar a falta de Liberdade do regime, bradaram aos quatro ventos que não se pode evitar que um coração grite seu descontentamento, que uma garganta grite sua indignação e, de forma perspicaz, falaram do proibido, falaram do tabu, consagraram um hino ao sentimento de pura Liberdade.

 

Em tempos modernos, nos quais se pode escolher o que fazer, a letra polêmica perderia sua força. Será? Seriam as conquistas tecnológicas, de fato, um tipo de liberdade? Seria o mundo globalizado um vasto campo de possibilidades? É algo para se pensar, pois mesmo com todos esses avanços ainda se morre de fome em várias partes do mundo, ainda não se obteve cura para doenças que movimentam bilhões em laboratórios por todo o planeta, ainda se age com preconceito em relação às minorias e se empreende conflitos em nome de religiões. Com o poder das novas tecnologias o homem foi reduzido a números e estatísticas de agências governamentais, o que reina é uma liberdade vigiada, uma repressão travestida de licenciosidade e uma falta total de visão crítica em relação ao meio social. Ainda cabe essa interrogação: “O que será?”, talvez hoje mais do que nunca.

 

Pra não dizer que não falei das flores

“Caminhando e cantando e seguindo a canção…”
Geraldo Vandré

 

Após tornar-se um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar brasileira e ser cantada nas ruas, “Pra não dizer que não falei das flores” – também conhecida como “Caminhando” –, canção escrita e interpretada por Geraldo Vandré, foi censurada e teve sua execução proibida durante anos. A primeira cantora a interpretar “Caminhando” após o período em que a canção esteve censurada foi Simone, em 1979, conquistando enorme sucesso de crítica e público. A canção também foi regravada por Luiz GonzagaAna BelénZé Ramalho e Charlie Brown Jr.

 

 

Nos “anos de chumbo”, outros compositores desafiaram o regime e deixaram suas marcas artísticas, um deles, notadamente compositor de protesto, Geraldo Vandré, compunha versos cortantes e intensos como os da música “Réquiem para Matraga”, cujos versos faziam referências ao período: “Vim aqui só pra dizer/ Ninguém há de me calar/ Se alguém tem de morrer/ Que seja pra melhorar/ Tanta vida pra viver/ Tanta vida a se acabar/ Com tanto pra se fazer/ Com tanto pra se salvar/ Você que não me entendeu/ Não perde por esperar…”, versos que davam demonstração de coragem extrema, de sensibilidade total contra os desmandos dos governantes. Vandré foi tão perseguido quanto seus colegas e sua música não se valia de rodeios nem preâmbulos, atacava, sim, o poder vigente, sua voz melancólica e melodiosa imprimia um sentimento de tristeza e revolta que até o cidadão mais inocente e crédulo sentia no peito um vazio e na boca um travo amargo ao ouvi-lo. “… Fica mal com Deus/ Quem não sabe dar/Fica mal comigo/ Quem não sabe amar/ Pelo meu caminho eu vou/Vou como quem vai chegar/ Quem quiser comigo ir/ Tem que vir do amor/ Tem que ter pra dar/ Vida que não tem valor/ Homem que não sabe dar/ Deus que se descuide dele/ O jeito a gente ajeita/ Dele se acabar…”. Nos versos acima, Vandré faz referência clara ao poder militar, poder que prendia, torturava e matava, sem limites e sem compaixão, e nos versos a seguir fala da sua resistência, que também era a resistência do povo brasileiro, em sua “Cantiga Brava”. “O terreiro lá de casa / Não se varre com vassoura / Varre com ponta de sabre / E bala de metralhadora / Quem é homem vai comigo / Quem é mulher fica e chora / Estou aqui quase contente / Mas agora me vou embora / Como a noite traz o dia / Com tristeza ou com demora / Terá quem anda comigo / Sua vez e sua hora / O que sou nunca escondi / Vantagem nunca contei / Muita luta já perdi / Muita esperança gastei / Até medo já senti / E não foi pouquinho, não / Mas fugir, nunca fugi / Nunca abandonei meu chão…”. Vandré fala nessa canção de resistir e até morrer se necessário for, mas não aceitar o degredo, a expulsão para terras estrangeiras, fato que era vivido pelas pessoas durante o regime militar.

 

O disco “Canto Geral” de Geraldo Vandré é um manifesto contra a opressão do período da ditadura. O compositor se afastou do cenário artístico e atualmente leva uma vida simples e discreta na cidade de São Paulo.

 

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Fotos: Conhecimento Prático – Literatura Ed. 53

*Luzdalva S. Magi, formada em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), é professora de Língua Portuguesa, de Língua Inglesa, de Língua Francesa e suas Literaturas, de Técnicas de Redação e Análise do Discurso é também de Crítica Literária. Trabalha na Rede Particular e Municipal da cidade de Santo André, no ABC.