Monteiro Lobato na educação

José Bento Monteiro Lobato, nascido em 18 de abril de 1882, na cidade de Taubaté — São Paulo —, filho de pai fazendeiro, ficou popularmente conhecido por Monteiro Lobato, tornando-se um contista, ensaísta e tradutor de sucesso na história da literatura infanto-juvenil brasileira.

Por Maria Helena F. F. Aguiar* e Mírian G. Freitas** | Foto: Alexandre Jubran | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Lobato é um escritor bastante popular entre as crianças, pois se dedicou a construir um estilo de linguagem coloquial, mais próxima à fala e às expressões cotidianas, mesclando assim, realidade e fantasia em um só universo literário.

 

Pode-se dizer que ele foi o precursor da literatura infantil no Brasil.

 

A educação, por Ziraldo

 

Lobato graduou-se em Direito, e exerceu por alguns anos, o cargo de promotor público. Porém, ao receber a herança deixada pelo avô, tornou-se fazendeiro e optou por um estilo de vida que estivesse relacionado com a escrita e a leitura, pois essas eram as duas coisas que mais lhe instigavam o pensamento. Por isso, iniciou a saga das publicações de seus primeiros contos em jornais e revistas, sendo que, alguns anos mais tarde, tais histórias foram reunidas no livro Urupês, considerado pela crítica como uma de  suas mais importantes obras.

 

Naquela época, era comum os livros brasileiros serem editados na Europa, em Paris ou Lisboa, que possuíam um mercado editorial muito mais desenvolvido diante do nosso, que era quase inexistente. Em face disso, Monteiro Lobato decidiu se tornar também um editor e, desde então, entrou definitivamente para o mercado editorial brasileiro, passando a editar os nossos próprios livros.

 

Foto: Acervo / Reprodução

 

Com isso, ele implantou uma série de renovações nos livros didáticos e infantis, como ilustrações mais ampliadas e capas melhor elaboradas, criando uma nova versão do livro no Brasil e do seu layout. Sua obra-prima, Urupês, reuniu 14 contos e foi publicada em 1918. Um dos textos dessa obra, cujo título dá nome ao livro (Urupês), traz sua mais famosa personagem “Jeca Tatu”, encenando a figura do caboclo em contraposição ao índio surgido no período do Romantismo que, na fase indianista, representa o ícone da brasilidade. O caboclo, ao contrário, passa a ser a figura o modelo ideal do modernismo, e não era uma figura idealizada como era o indígena nas obras dos escritores românticos. Jeca Tatu representava todo o atraso e miséria socioeconômica do país. Lobato era, antes de tudo, um homem que polemizava pelas suas ideias irreverentes e críticas que costumavam sacudir os intelectuais brasileiros numa época de reações progressistas e modernas na década de 1930. Seu artigo “Paranoia ou mistificação?”, em que faz severas críticas à exposição dos quadros da pintora futurista Anita Malfatti, em São Paulo, foi um ponto de partida para demonstrar suas concepções contrárias à arte de vanguarda que estava sendo produzida no Brasil, sob os excessos das influências de pintores e artistas europeus.
O escritor viajou para os Estados Unidos logo após o sucesso de sua carreira literária, com a publicação de Urupês, Cidades mortas e Negrinha. Lá, viveu por alguns anos e teve uma decepção após ter sido menosprezado pelo seu livro O presidente negro e o choque de raças, em que, polemicamente, narra a história de um candidato negro à presidência dos EUA. Após a frustrante experiência na América do Norte, retorna ao Brasil em 1931, e dá prosseguimento aqui à sua carreira literária.

 

Anita Malfati | Foto: Reprodução Internet

Lobato foi um dos escritores responsáveis pelo surgimento de uma nova roupagem ficcional da literatura brasileira, porque seu olhar e suas percepções sempre buscavam o progresso, a modernidade, o novo, e por isso, deixou fluir o pensamento e o estilo da criatividade livre, sem restringir-se às vanguardas europeias ou a outras influências que não fossem brasileiras.

 

 

A revolução na literatura e na pedagogia infantil

Considerado o “Pai” da literatura infantil brasileira, foi o criador de histórias que convidam as crianças a sonhar e imaginar o mundo e sua realidade. Tais histórias eram um ponto de partida para que a liberdade do pensamento reflexivo rompesse com a pedagogia tradicional da época, que era impositiva e direcionada a preceitos educacionais nem um pouco libertadores.
Lobato se preocupava muito com a formação dos leitores jovens e sempre esteve à frente das iniciativas da difusão do livro no Brasil, pois foi editor e contribuiu muito com a distribuição de livros no território nacional.

 

 

Juventude e a literatura

 
Preocupava-se em criar edições ilustradas, capas coloridas com imagens interessantes e bem desenhadas. Era comum, em seus livros, os personagens lerem e discutirem as histórias, sendo esta uma proposta do autor para retratar a prática da leitura, a consciência crítica do leitor e a troca de experiências através do texto lido. Pois, em Sítio do Pica-Pau Amarelo, Dona Benta era contadora de histórias, e Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília são ouvintes/leitores que escutavam atentos e curiosos às histórias narradas pela interlocutora e recriavam o sentido da mesma, sempre de maneira livre e criativa. Muitas vezes, até Rabicó e Quindim iam para a sala escutar as histórias lidas por Dona Benta, que era a porta-voz de Lobato, a realçar o cunho educativo das leituras e no intercâmbio de ideias e fantasias dos seus netos e demais ouvintes/leitores do sítio. Dessa forma, o autor encontrava um meio democrático para difundir a leitura por meio de seus próprios livros.

 

Sítio do Pica-pau Amarelo | Foto: Globo Produções | Divulgação

Seus personagens possuem ideias independentes e críticas, como é o caso da boneca de pano Emília. Visconde de Sabugosa é o sábio, representado por uma espiga de milho, com ideias geniais, atitudes de adulto responsável e intelectual. Tia Nastácia, a simpática cozinheira do sítio, simboliza a pedagogia do afeto, pois era protetora e falava em sua linguagem de “negra” as coisas que as crianças gostavam de ouvir. A Cuca, um jacaré, que aterrorizava de maneira cômica, a todos no sítio. Pedrinho e Narizinho eram duas crianças curiosas e questionadoras. O Saci-Pererê era a representação da alegria e da molecagem no sítio da Vovó Benta. Todos esses personagens integram a obra Sítio do Pica-Pau Amarelo, que ainda hoje é lida por muitas crianças, jovens e adultos. Essa obra foi adaptada, diversas vezes para a televisão, a partir de 1952 e traduzida na Argentina, Itália e Rússia.
O mais interessante nos episódios é que os personagens em determinados momentos da história deixam o sítio para explorar outros mundos imaginários, como o subaquático Reino das Águas Claras, a Terra do Nunca, povoada por seres da Grécia Antiga, e outros, sempre diversificando as experiências dos personagens e relacionando-os a outros mundos e realidades diferentes das que eles vivem.

 

 

Contos de fadas na formação moral humana

 

 
O fantástico é muito explorado por Lobato nas suas histórias, pois acreditava que o mundo habitado pelas crianças era lúdico e dotado de todas as possibilidades do imaginário. Através desse viés, o autor criou uma nova pedagogia infantil para nossas crianças, pautada na descentralização do poder autoritário do professor e centrada em uma nova filosofia da aprendizagem, em que as leituras devem ser compartilhadas enquanto experiências, ideias e pontos de vista, de maneira democrática, livres de pré-conceitos. Seus textos infantis são dotados de cunho ideológico, voltados para a recriação da literatura brasileira e com diálogo pertinente com a pedagogia infantil, na intenção de romper com os padrões tradicionais da educação nas primeiras décadas do século XX.

 

 

 

A intertextualidade, o diálogo com os clássicos infantis e as possibilidades do imaginário

Nas obras de Lobato percebe-se o contágio de livros lidos pelo autor e o constante diálogo com obras clássicas da literatura infantil, as quais são incorporadas em suas histórias, como é o caso de Peter Pan, Pinóquio e Dona Carochinha, que povoam seus textos rompendo as fronteiras do espaço literário e ganhando voz nas suas narrativas.
Podemos citar, também, no percurso da literatura universal, o Barão de Munchausen, Dom Quixote e o Minotauro, entre outros. Todos esses personagens representam as vozes dos intertextos que fazem parte da obra Sítio do Pica-Pau Amarelo, e são parceiros das aventuras e experiências fantásticas que os personagens do sítio vivenciam. Lobato foi tradutor dos clássicos infantis Pinóquio e Alice no país das maravilhas, e essa experiência com a tradução foi muito utilizada para dialogar com as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

 

Dona Benta e Tia Nastácia | Foto: Globo Produções | Divulgação

A literatura de Lobato proporciona um encontro muito significativo com o leitor, pois o mesmo se preocupava com a elaboração de sua escrita e com a linguagem, que era contextualizada no aspecto mais oral (língua falada) e menos formal, estruturada em múltiplos diálogos e vozes polifônicas. Além disso, havia uma complexidade no enredo, na construção cuidadosa dos personagens e na diversidade de temas.
As obras de Lobato, em sua maioria, apontam para temas humanitários, sugerindo reflexões e críticas aos sistemas político e social do Brasil. Apesar das fantasias e sonhos que o autor insere em seus textos, há amplamente o espaço para o diálogo com a realidade. As fronteiras da realidade e da ficção se entrecruzam e são vivenciadas de maneira natural, sem contrapontos diferenciados entre um e outro mundo.

 

Monteiro Lobato | Foto: Wikipedia

Em suas narrativas, os animais falam, os bonecos ganham vida, e os personagens recebem a visita de personagens de outras histórias. Tudo isto, em um percurso entre as infinitas possibilidades do imaginário infantil, onde há a subversão das regras e das verdades do mundo “normal” dos adultos. Segundo Lobato, “Um país se faz com homens e livros”, e é este legado que o autor nos deixou, porque por meio de sua obra ele pôde difundir a leitura como fonte de prazer, conhecimento e transformação. Sendo que, sua obra proporciona uma nova visão de mundo e contribui para a formação do diálogo crítico.
Lobato, pois, acreditava em um leitor imaginativo, capaz de compreender e interpretar uma mensagem, sem copiá-la ou decorá-la, por isso, suas obras infantis possuíam enredos capazes de conduzir os leitores a uma ampla esfera de questionamentos que fluem, naturalmente, em suas mentes em desenvolvimento. Graças a Lobato, a literatura infantil brasileira, hoje, tomou novos rumos e levou centenas de professores e pedagogos a refletirem sobre o verdadeiro sentido da leitura e o real papel do leitor.

 

 

*Maria Helena Farage Ferreira Aguiar é mestre em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, MG. Professora da rede municipal de ensino da cidade de Juiz de Fora.

**Mírian Gomes de Freitas é doutoranda em estudos de Literatura (UFF). Professora do Núcleo de Línguas do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia de Juiz de Fora, MG.

Adaptado do texto “Monteiro Lobato: o escritor revolucionário”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 65