Moby Dick: quando o oponente é a natureza

Na obra-prima de Herman Melville, o confronto do homem com a força titânica da natureza assume proporções épicas

Por Marcos Roberto Corrêa Alves* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Numa época em que a literatura em ambas as margens do Atlântico tendia ao “otimismo vitoriano” – uma crença de que o homem, graças à ciência moderna, acabaria por desvendar todos os segredos da natureza e até mesmo por controlá-la, colocando-a a serviço de seus próprios objetivos –, Herman Melville mostra uma atitude dúbia a esse respeito. À primeira vista, pode parecer que o foco de Moby Dick está perfeitamente de acordo com esse espírito: o livro dedica capítulos inteiros a descrições minuciosas sobre as baleias, a balearia, a vida no mar e assim por diante, demonstrando um olhar curioso que tudo observa, registra, e que, se nem sempre consegue ser objetivo, ao menos sempre tenta – uma atitude científica.

 

Por outro lado, ao longo da narrativa vai-se revelando um ponto de vista que é indissociável da visão do mundo própria do romantismo: uma convicção de que todo o poder e sabedoria que o homem acredita possuir são ilusórios; de que, no fim das contas, ele sempre estará submetido aos caprichos da natureza, que num momento pode favorecê-lo com riqueza e prosperidade, para logo em seguida esmagá-lo como a um inseto, sem aviso ou remorso. Por causa de seu tamanho, força, e da aura de mistério que a envolve, a baleia é a metáfora ideal para essa natureza indomável e impiedosa. Talvez não seja demais lembrar que tudo isso foi muito antes que se estabelecesse a cultura da preocupação ecológica que predominou durante o último quarto do século XX, como até os dias de hoje, cultura essa que já nos apresenta o conceito de “baleia”, em nossa infância, como um bicho bonzinho e indefeso, que é preciso proteger. No tempo de Herman Melville, o nome baleia evocava uma fera misteriosa e um poder selvagem. Naquele tempo, baleia dava medo.

 

Embora Melville (ou Ismael, o que dá no mesmo) se declare inimigo de alegorias, a ponto de mostrar-se preocupado com a possibilidade de que sua história seja vista como “uma fábula monstruosa, ou, ainda pior e mais detestável, uma hedionda e intolerável alegoria”, sua narrativa, por si, é suficiente para contrariar esse princípio: um sem-número de pequenas, agradáveis e certeiras alegorias estão espalhadas por todo o livro. Não há outro nome que se possa dar, por exemplo, a passagens como a do capítulo 60, na qual ele descreve o uso da arpoeira (cabo que vai amarrado ao arpão quando este é arremessado) e o perigo que ele inevitavelmente traz para os homens da tripulação de um bote baleeiro, utilizando esse detalhe da rotina dos caçadores de baleias para simbolizar os perigos a que todos os homens estão expostos. E esse é apenas um exemplo entre muitos.

 

 

E, claro, a maior e mais brilhante de todas as alegorias é o próprio Moby Dick – o representante mais surpreendente de uma espécie que é surpreendente em si mesma. Moby Dick é um gigante entre uma raça de gigantes, e sua cor incomum, mais do que apenas fazê-lo único e facilmente reconhecível, reúne toda uma gama sugestões fantasmagóricas e sobrenaturais. E o mais intimidador de tudo: sua ferocidade não é cega como a de um animal comum, mas guiada por uma diabólica inteligência. É difícil pensar em uma maneira mais impressionante de encarnar a essência grandiosa, poderosa e terrível da natureza, uma força que, de acordo com o pensamento “anacronicamente romântico” de Melville, ninguém deveria se atrever a desafiar. E, lutando contra essa força invencível, Ahab, um homem forte, mas torturado, eternamente atormentada por sua obsessão monomaníaca, encontra um final que não poderia ser mais simbólico. Tudo isso nos leva à conclusão de que Moby Dick, o romance, com sua rica mistura de ciência, aventura e drama humano, ainda tem muito a revelar, por mais que já tenha sido minuciosamente estudado e profundamente discutido, porque seus significados parecem ser infinitos – uma característica que pode ser apontada como uma das marcas de um clássico, de uma obra de arte imortal.

 

Trecho do texto “Moby Dick: quando o oponente é a natureza”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 62

*Marcos Roberto Corrêa Alves vive em São Leopoldo/RS, e é formado em Letras pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Mantém o blog Notas de Literatura (www.notasdeliteratura.blogspot.com)