Mitologia viking em Harry Potter

Por Ana Carolina Galvão* e Ana Carolina Nazaro** | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Antoine Lavoisier é o francês considerado o pai da química moderna. Entre seus vários estudos que o levaram a tal título, disse uma das frases mais célebres de todos os tempos, e também muito conhecida: “Nada se cria; tudo se transforma.” Lavoisier certamente não se referia à literatura, mas essa citação pode ser considerada uma verdade universal, tanto que se aplica nessa área também. O fato é que nunca se é cem por cento original; mesmo sem saber, e mesmo não querendo, autores buscam referências e teorias de outros autores, outras histórias e outras culturas.

 

É o caso do fenômeno literário Harry Potter. A autora, mesmo que não tenha estudado, conhecido ou mesmo procurado, fez analogias à cultura escandinava em sua série de livros. Vários aspectos da mitologia Viking são evidenciados durante a leitura dos textos, alguns de forma mais direta e outros de modo mais sutil.

 

Antoine Lavoisier | Foto: Wikipedia

 

É dessa relação surpreendente que este texto trata. Surpreendente porque, historicamente falando, as mitologias grega e romana são mais fáceis de serem percebidas e utilizadas na literatura, enquanto a cultura nórdica, muitas vezes, acaba sendo esquecida. Procuramos então trazê-la de forma a mostrar como ainda está presente na literatura, mesmo em menor número e não tão reconhecida.

 

 

Os Vikings

A cultura Viking não é novidade para o mundo da literatura, cinema e HQs. O povo nórdico e seus deuses têm tomado cada vez mais espaço no ocidente, sendo  difundidos em releituras, pesquisas e afins. Geograficamente falando, grande parte desse grupo, conhecido como bárbaro e saqueador, viveu na Escandinávia, formada por ilhas da Dinamarca e por uma península onde ficam a Suécia e a Noruega. Tinham como característica histórica inicial o deslocamento de acordo com as estações, sobrevivendo sempre da caça e da pesca.

 

Os povos que foram se distanciando acabaram desenvolvendo características culturais e linguísticas próprias, como os indo-europeus que começaram a se espalhar para o leste da Europa. A organização das tribos era feita com a união dos clãs e das famílias, conduzidas pelos chefes e guerreiros. A sociedade tinha uma divisão de castas, e os deuses e seres da natureza recebiam oferendas, pois os povos acreditavam que eles lhe dariam proteção.

 

A mitologia nórdica (que inclui germânicos,  escandinavos e islandeses) formou-se entre 1000 a.C. e 1000 d.C., baseada na cultura indo-europeia e xamânica. No fim do período Neolítico (aproximadamente quatro mil a.C.), os indo-europeus e os nativos já haviam se fundido, criado comunidades estáveis em vez de nômades e começado a cultivar a terra e criar animais. Os povos começaram a cultuar seres da natureza e espíritos elementais, já que deles dependiam as dádivas e mudanças naturais. Foram criados templos e celebrações e, aos poucos, os clãs se uniram sob a soberania dos reis por conta das trocas comerciais.

 

Os Vikings ganharam ainda mais fama quando resolveram viajar a oeste, atracando em Lindisfarne e saqueando o  monastério cristão dessa ilha, na Inglaterra, levando os povos europeus a temerem os aventureiros e mercenários.

 

 

Os mitos

Os mitos são histórias de deuses e heróis divinos que contam o começo da criação humana, bem como a sua destruição, além de aventuras das divindades. “Mito” vem do grego muthos, que significa fábula ou história. Para Mircea Eliade (1907 – 1986) os mitos são a forma mais geral, além de eficaz, de perpetuar a consciência de um outro mundo, seja ele divino ou dos antepassados. Podemos achar um mito em cada parte do mundo e onde quer que as pessoas tenham vivido em conjunto foram criando e repassando essas histórias de geração em geração. Joseph Campbell (1904 – 1987), estudioso de mitologia, afirma que os nossos próprios sonhos surgem do círculo básico e mágico do mito.

 

 

Os mais conhecidos no Ocidente são os greco-romanos, até porque quem nunca ouviu falar de Zeus, Poseidon ou Vênus? Atualmente, a literatura contemporânea tem ajudado a disseminar ainda mais essas histórias datadas ainda antes de Cristo, como algumas séries do autor norte-americano Rick Riordan, Percy Jackson e os Olimpianos, que traz para os dias atuais a mitologia grega, e As Crônicas dos Kane, que conta a aventura de dois jovens que descobrem ser descendentes de faraós, pesquisando assim a mitologia egípcia. Em outubro de 2015, o autor lançou o primeiro volume de uma trilogia baseada na mitologia nórdica chamada Magnus Chase e os Deuses de Asgard.

 

Joseph Campbell | Foto: Wikipedia

 

Nomes como Thor, Odin e Loki podem já não ser mais novidade para os dias atuais. Em 2011 a Paramount Pictures lançou o filme Thor, baseado nas HQs da Marvel Comics que leva o mesmo título. Mais uma vez, a mitologia esbarra nos dias atuais,quando Odin, pai de todos, envia seu filho Thor para a terra como mortal e sem nenhum poder divino, a fim de castigá-lo por sua desobediência. Pode-se listar várias obras que possuem referência direta com a mitologia nórdica, mas há outras em que essas alusões estão mais enraizadas, como no caso da história do bruxinho que sobreviveu, Harry Potter.

 

 

Harry Potter

O sucesso literário do final do século XX e início do XXI conta a história de um menino órfão que, após a morte violenta dos pais, vive com seus tios e seu primo Duda, quem realiza muito bem o trabalho de infernizar ainda mais a vida de Harry durante a história. A série, que já vendeu mais de 400 milhões de exemplares em todo o mundo, é composta por sete livros e leva a autoria da britânica J.K. Rowling.

 

Joanne Rowling nasceu em julho de 1965 na Inglaterra, onde passou a infância em Chepstow, Gwent, e estudou na Wyedean School. Ela deixou Chepstow para estudar na Exeter University, onde obteve um diploma de Francês e Línguas Clássicas; seu curso incluiu a experiência de um ano em Paris. Após a graduação, ela se mudou para Londres e trabalhou como pesquisadora da Anistia Internacional, entre outros empregos.

 

Foto: Divulgação Bloomsbury Publishing

 

Os ingleses possuem fama de serem pontuais, mas foi graças ao atraso de uma viagem de trem entre Manchester e King’s Cross que Rowling teve a ideia base para a série Harry Potter. Durante os cinco anos seguintes, ela delineou os enredos para cada livro e começou a escrever o primeiro. Em seguida, mudou-se para o norte de Portugal, onde foi professora de inglês como língua estrangeira. Lá se casou em outubro de 1992 com um português e teve uma filha em 1993. Quando o casamento acabou, a filha Jessica e ela retornaram ao Reino Unido para morar em Edimburgo, onde o livro “Harry Potter e a Pedra Filosofal” foi finalmente concluído. A obra foi publicada pela primeira vez pela Bloomsbury Children’s Books em junho de 1997, sob o nome de J.K. Rowling. O “K”, de Kathleen, nome de sua avó paterna, foi acrescentado a pedido de sua editora, que pensou que o nome de uma mulher não seria atrativo para o público-alvo de garotos.

 

O segundo título da série, “Harry Potter e a Câmara Secreta”, foi publicado em julho de 1998 e chegou ao topo das paradas dos livros adultos mais vendidos um mês após a sua publicação. A partir daí já se pode imaginar o sucesso dos próximos livros da série: “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (1999) passou quatro semanas como o mais vendido entre os livros adultos no Reino Unido, “Harry Potter e o Cálice de Fogo” (2000) foi publicado com primeira tiragem de um milhão de cópias, quebrando todos os recordes de maior número de livros vendidos no primeiro dia de publicação no país. Consequentemente, o quinto livro “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (2003) e o sexto “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” (2005) continuaram o legado de fama, tornando o sétimo e último livro da série, “Harry Potter e as Relíquias da Morte” (2007) um dos livros mais aguardados da década.

 

Além de ter sido nomeada com a OBE (Ordem do Império Britânico) por serviços à literatura infantil, J.K. Rowling recebeu diversos prêmios e honrarias, incluindo o Prêmio Príncipe das Astúrias para a Concórdia, a Legião da Honra da França, o Prêmio de Literatura Hans Christian Andersen e fez discursos de formatura na Universidade de Harvard, nos EUA. Ela apoia um grande número de causas beneficentes, além de ser fundadora da Lumos, uma instituição de caridade que trabalha para transformar a vida das crianças desfavorecidas.

 

 

Mitologia nórdica e Harry Potter

A saga aclamada por crianças, jovens e adultos possui muitas referências mitológicas, além de percorrer a jornada do herói, explicada por Joseph Campbell (1904 – 1987), onde Harry se vê frente à morte, mas supera cada tarefa com a ajuda dos seus amigos. Sobre as referências mitológicas, podemos citar uma bem conhecida do cosmos grego, o Cérbero. No primeiro volume, Potter conhece essa figura pelo nome de Fofo, um dos excêntricos animais de estimação de Hagrid. Normalmente, algumas alusões mitológicas são bem fáceis de serem percebidas, enquanto outras já se encontram mais enraizadas, como é caso da presente pesquisa.

 

Procurando focar apenas na mitologia Viking, já é possível apontar algumas semelhanças, como a habilidade das personagens de se transformarem em animais. J. K. deu o nome de animagos para esses bruxos, mas para os pagãos nórdicos apenas os deuses tinham essa capacidade. Odin, em sua iniciação, transformou-se em serpente para mergulhar na habitação da giganta Gunnloh, pois somente nessa forma ele poderia passar pelas cavernas apertadas e escuras daquele mundo. Ao chegar lá, conseguiu roubar o hidromel, tomando-o todo em um único sorvo. Essa bebida é mais uma referência que surge no mundo dos bruxos. Harry aparece degustando a especiaria ao lado do seu diretor Alvo Dumbledore, além de salvar seu melhor amigo, Rony, de um hidromel envenenado no quinto livro.

 

Foto: Divulgação Bloomsbury Publishing

 

Os Vikings, bem como outros povos antigos, também deixaram sua marca por meio de inscrições rupestres – a mais longa e completa inscrição é datada do século IX, que pesa quatro toneladas e se chama Rökstenen; mas ela é apenas uma das 2 mil ou mais pedras rúnicas encontradas na Suécia. Sua inscrição revela detalhes literários da época de sua gravação, como a narrativa métrica e o estilo poético. Outras pedras trazem desenhos e ilustrações de poemas. Ora, não é essa uma das disciplinas estudadas por Hermione? A melhor amiga de Harry Potter participa das aulas de Estudo das Runas Antigas, que estuda escritas rúnicas, hieróglifos e traduções.

 

Outro ser mitológico que aparece muito nas obras de Rowling são os dragões. Já no livro “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, Hagrid aparece todo pomposo com um ovo de dragão vindo da Noruega, e resolve chamar o “animal de estimação” de Norberto. O filhote acaba gerando algumas confusões que Harry, inclusive, ajuda a resolvê-las. Essa figura vai aparecer também no quarto livro, em uma das provas do torneio tribruxo e nas Relíquias da Morte, em que o trio de amigos consegue sair de uma emboscada com a ajuda dessa criatura mágica. Os Vikings eram conhecidos como bons velejadores, e percorriam as longas distâncias em seus Drakars (dragões), barcos rápidos que possibilitavam a navegação tanto em águas rasas, como em alto mar. As figuras dos dragões eram esculpidas na frente desses barcos, o que levou o povo de Lindisfarne a acreditar na profecia de que o apocalipse haveria chegado através dos nórdicos.

 

 

No último livro da série, “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, Harry encontra uma pedra dentro do pomo de ouro que lhe foi dado de presente – a pedra da ressurreição, capaz de trazer à vida qualquer um que já tivesse partido deste mundo. Na mitologia nórdica, maçãs douradas garantem a vida eterna e juventude permanente para os deuses, e são cultivadas pela deusa Iduna. Mas essa história das maçãs da juventude quase acaba mal! Loki, em uma de suas viagens com Odin, acaba sendo capturado pelo gigante Thiassi – que estava em forma de águia – e disse que só o libertaria se ele trouxesse a deusa Idun e suas tão famosas maçãs da juventude. Ele voltou a Asgard e pregou uma peça na deusa, atraindo-a para uma armadilha. Sem as maçãs, os deuses começaram a ficar grisalhos e velhos, então cobraram de Loki o resgate da deusa, usando a forma de falcão da deusa Freya. No fim, ele conseguiu salvar Idun, mas gerou uma baita confusão nas terras de Asgard.

 

Loki, conhecido como o deus da trapaça, é meio gigante e tem uma grande capacidade de se meter em problemas, e de sair deles com esperteza. Mas isso também significa que ninguém se sente seguro quando ele está por perto. Vemos aqui uma semelhança com Hagrid, o guarda-caça de Hogwarts, que também é meio gigante e tem uma facilidade enorme em se meter em confusão, mas é salvo, na maioria das vezes pelo diretor da escola Alvo Dumbledore. É importante ressaltar que, ao contrário de Loki, que é visto como um símbolo de maldade, Hagrid possui um coração altruísta e carinhoso.

 

Drakar

 

Também a pedido de Loki, os filhos do anão Ívaldi, Brokkr e Sindri, construíram o navio Skidbladnir para presentear Freyr, o deus da prosperidade, do tempo e da fertilidade. O meio de locomoção é mágico a ponto de abrigar todos os deuses em seu interior, mas quando não usado pode ser dobrado e guardado nos bolsos. Harry nunca se cansa de surpreender-se com esse tipo de magia, seja nos carros do ministério que levam ele e a família Weasley em segurança, na barraca utilizada na Copa Mundial de Quadribol ou na bolsinha de contas da Hermione Granger.

 

Os últimos livros da saga vão apresentar as relíquias da morte, que são três objetos mágicos poderosos: a varinha das varinhas, que promete glória e vitória sobre qualquer outra; a pedra da ressurreição, capaz de trazer as pessoas de volta à vida; e a capa da invisibilidade, que torna invisível qualquer um que se esconda debaixo dela, afastando-o até mesmo da morte. As três juntas formam um símbolo: um triângulo cortado por uma linha com um círculo no meio. Aqui é possível ver outra referência importante à mitologia nórdica por meio do símbolo conhecido como Valknut, que compõe o entrelaçamento de três triângulos. Para os Vikings, representa o Nó dos Enforcados, ou dos Escolhidos, em referência a Odin. O principal deus do clã dos Aesir, buscando sabedoria plena, enforcou-se durante nove dias na árvore Yggdrasil, conhecida como o eixo do mundo, ligando os nove mundos presentes na cosmologia.

 

Odin também era conhecido como o Senhor da Guerra, que, junto das suas filhas, as Valquírias, vêm buscar os mortos em batalha. Há semelhança também na simbologia de Rowling, em que aquele que possuir os três elementos mágicos se torna o senhor da morte.

 

Veja a análise do livro “O Hobbit”

 

As referências podem ter sido feitas propositalmente pela autora, ou não. Mas em toda a obra vimos uma forte influência do autor que também emanava amor pela Inglaterra, J.R.R. Tolkien, criador da trilogia Senhor dos Anéis. Tolkien era filólogo e estudioso das mitologias nórdica e celta, colocando em suas obras elementos importantíssimos desses dois cosmos. Assim como Tolkien, Rowling criou uma mitologia única, conquistando uma geração de jovens leitores, que durante sete anos acompanhou a história do bruxinho britânico. Harry Potter não foi apenas um marco literário de toda uma geração, mas também um grande incentivo à leitura e à escrita, afinal abriu portas para a produção de histórias muitas vezes criadas pelos próprios fãs, sendo influenciados pelo mundo de Potter, bem como por outras mitologias que mesmo tão antigas continuam a nos encantar e surpreender nos dias de hoje.

 

 

*Graduada em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Maringá, tradutora e professora de Língua Inglesa (anagaalvao@gmail.com).

**Graduada em Letras – Português e Inglês pela Universidade Regional de Blumenau e professora de Língua Inglesa (nazaro.ana@gmail.com).

Adaptado do texto “A influência da mitologia viking em Harry Potter”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 68