Meu primeiro caderno de mangá

No Japão, os mangás têm uma longa história de relação com a cultura, com a arte e, por consequência, com a educação do povo japonês

Da Redação | Adaptação web Caroline Svitras

Mangás são as histórias em quadrinhos japonesas que há várias décadas vêm sendo produzidas e impressas em massa para um público ávido por leitura e que lê compulsivamente: o japonês. Há muito, o analfabetismo foi erradicado na terra do sol nascente e a leitura tornou-se um dos alicerces da civilização daquele país com cultura e hábitos tão distintos de nós, ocidentais.

 

Perspectiva histórica

As raízes do mangá datam do Japão feudal, no século VIII d.C, durante o período Nara, o berço da tradição literária japonesa, quando surgiram os emakimonos, rolos de pinturas associadas a textos que, dessa forma, contavam histórias ilustradas. Mais adiante, no século XII, os emakimonos haviam evoluído para cenas ilustradas com muitas pinturas, deixando antever a prevalência da imagem detalhada sobre a narrativa, uma característica que o mangá iria modernamente assegurar.

Durante o período Edo (1603-1868) os rolos foram substituídos por livros, e as estampas, inicialmente, passaram a ser destinadas à ilustração de romances e poesias. Entre 1814 e 1834, Katsushika Hokusai, artista radicado em Nagoya, criou a palavra mangá – significando “desenhos irresponsáveis” – para nomear a série de caricaturas que ele produziu no decorrer daquelas duas décadas.

Para ganhar a forma definitiva, tal como é conhecido nos nossos dias, o mangá teria de esperar ainda mais um século, quando, com o final da Segunda Guerra Mundial, com o país ocupado pelas forças militares americanas, houve também uma invasão cultural – foi quando os japoneses vieram a conhecer mais profundamente o cinema americano, incluindo os desenhos animados da Disney e de outros produtores ocidentais, e os comics (revistas em quadrinhos americanas). A influência da arte popular ocidental na arte popular japonesa foi dramática. Caberia a um dos maiores e mais talentosos mangakás (autores de mangás) japoneses, Osamu Tesuka, dar o contorno definitivo ao quadrinho japonês, incorporando a estética ocidental (dos quadrinhos) à japonesa. Data dessa época o início da utilização dos mangás nas escolas japonesas como ferramenta educacional. A educação nas escolas no Japão do pós-guerra deu um salto qualitativo e modernizador, e o mangá foi de grande importância nessa revolução.

 

O mangá no Brasil

Sendo o mangá contemporâneo produzido e imerso numa cultura tão diferente da nossa, ocidental, ele haveria de ficar confinado por décadas ainda, antes de iniciar uma escalada vitoriosa pelo Ocidente, e um dos primeiros polos de produção de mangás criados fora do Japão deu-se em São Paulo, capital e interior, graças aos artistas nisseis (filhos de imigrantes japoneses) como Minami Keize, Claudio Seto e Julio Shimamoto, já a partir do final dos anos 1950. Nos anos 1970, com os primeiros sinais da globalização cultural que iria se tornar realidade, os mangás e os animes (filmes japoneses de animação para cinema e TV) foram se espalhando, penetrando pelos países das Américas e da Europa. Algum tempo depois, já havia artistas de todo mundo produzindo quadrinhos com influência dos mangás japoneses, situação que se configura na arte das histórias em quadrinhos nos dias atuais.

 

Foto: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 49

Adaptado do texto “Meu Primeiro Caderno de Mangá”