Meu celular e eu

Por Rita Cassia Milharci Castellucci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Pensei muito antes de iniciar este texto sobre a maneira como deveria escrever o título – o que colocar primeiro? O celular ou eu? Eu ou o celular? Pela ordem de importância, optei pela primeira. Mas vamos ao que interessa. O ser humano é um ser social e, como tal, possui a imensa necessidade de comunicar-se.

 

Desde as inscrições nas paredes das cavernas, passando pela criação do alfabeto, dos registros em pele de animais até a invenção do papel, do nascer dos livros impressos até o surgimento do computador. Tudo ficou registrado. Além disso, aprendemos a viver em grupo e a falar – nos comunicamos uns com os outros. Falamos com nossos pares e aprendemos outras línguas para podermos nos comunicar melhor com pessoas de diferentes nacionalidades. Mas, se não estivermos perto, como fazê-lo?

 

Então o homem criou meios de enviarmos mensagens, como o telégrafo sem fio. Agora, um pouco de história. Por volta de 1860, Antonio Meucci, isso mesmo, um italiano, inventou um aparelho capaz de enviar a voz humana, por meio de cabos elétricos, de um lugar a outro. Podíamos falar no bocal deste aparelho e a pessoa, em outro local, também usando um aparelho semelhante, podia ouvir o que estávamos falando e, assim, responder. É

 

bom informar que, em 15 de junho de 2002, o Congresso Americano decidiu que o inventor do telefone não foi Alexander Graham Bell e, sim, o senhor Meucci. Graham Bell comprou o invento e o patenteou. Nas voltas que o mundo dá, com a mente inquieta deste ser chamado homem, alguém teve a ideia de inventar um aparelho telefônico sem fio, daí para a criação dos aparelhos celulares foi um pulinho.

 

Celular, isso mesmo. Este aparelho que iguala todo mundo chama-se celular. Caro leitor me perguntará por que me refiro ao aparelho como algo unificador? Pois assim o é. Todo mundo tem celular – rico, pobre, classe média, burguesia, aristocratas e plebeus. Dos mais variados tamanhos, com as mais variadas potências, “smarts”, “não smarts”, “pouco smarts”. Ele serve apenas para falarmos? Não! Serve para tantas coisas que nem caberia aqui enumerá-las.

 

Não sou da geração dos pequenos aparelhos em que carregamos o mundo conosco. Também não posso tirar-lhes toda a utilidade; porém, o que chama minha atenção é o domínio que ele tem sobre os seres humanos. Para alguns, o aparelho celular tornou- se extensão do próprio corpo. Impossível separar. O que me chama muito a atenção, até por ser professora e sem entrar no mérito do caos em que se encontra a educação neste país, é a capacidade, e diria também a cara de pau de alguns alunos que simplesmente trocam sua aula por notícias, jogos, mensagens, música, etc. etc.

 

Diriam vocês, caros leitores – “ mas o uso do celular em sala de aula não é proibido por lei?” É! Tanto quanto é proibido dirigir falando ao celular. Não preciso dizer mais nada. Talvez se um dia criarem uma lei que multe quem usa o celular em sala de aula, para outros fins que não sejam fotografar, copiar ou pesquisar matérias; os alunos pensem duas vezes antes de fazerem uso dos mesmos.

 

Não percebem que estão deixando de aprender, estão trocando sabedoria por brincadeiras. Possuem celulares de última geração, mas não conseguem interpretar um texto simples, não sabem escrever corretamente, não conseguem resolver cálculos pouco complexos e muitos não escrevem corretamente nem o próprio nome. Estão de posse de um canhão; porém, mal conseguem dar tiros de espingarda.

 

Uma coisa que reparei outro dia ao caminhar por um shopping center, foi observar o grande número de pessoas com o pescoço curvado para baixo, tanto em pé ou sentadas, mexendo em seus celulares. Fiquei pensando que daqui a algum tempo – e não precisa muito – estarão recorrendo a ortopedistas por problemas na coluna cervical, além de tendinite. Outros precisarão de aparelho auditivo por causa da surdez provocada pelo costume de ouvir música em volume alto, diretamente no ouvido.

 

Chego à assustadora conclusão de que, assim como o automóvel, o celular tornou-se, além de sua utilidade, também uma arma. Muitas pessoas já morreram atropeladas devido à distração na hora de atravessar ruas movimentadas, por estarem manuseando seus aparelhos. Outras provocaram acidentes automobilísticos. Aqueles que trocam o aprendizado pelo uso deste objeto acabam cometendo um crime contra si.

 

Quem, em uma roda de conversa, isola-se, ou melhor dizendo, mostra sua falta de educação ao não resistir à tentação de dar uma olhada no aparelho, vai perder amigos e tornar-se cada vez mais rejeitado. Tanto é assim que existe uma série de regras de etiqueta orientando-nos sobre o correto uso do aparelho.

 

Não pretendo de maneira alguma fazer apologia ao não uso do mesmo, impossível imaginar a vida sem ele. Sua utilidade é indiscutível. O problema, como sempre, é que não conseguimos enxergar o limite entre o individual e o coletivo. Entre o certo e o errado. Além de pagarmos caro pelos aparelhos, pagamos caro pela nossa ignorância.

 

 

*Professora Rita Cassia Milharci Castellucci, formada em letras pela Fundação Santo André e inglês pela Cultura Inglesa e União Cultural Brasil Estados Unidos. Especialização em língua portuguesa pela UNICAMP. Professora de língua portuguesa na Rede Estadual e inglês tanto na escola pública quanto na particular. Membro da diretoria de duas ONGs para excepcionais.

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60