Memoráveis sambas de enredo

O Samba de enredo e os múltiplos contextos

Por Wellington Kirmeliene* | Adaptação web Caroline Svitras

 

A antiga porta-bandeira lembra quando cantou “Liberdade! Liberdade! / Abra as asas sobre nós!! / E que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz!”. O senhor da velha guarda batuca na caixa de fósforo e cantarola puxando pela memória “Já raiou a liberdade / A liberdade já raiou / Essa brisa que a juventude afaga / Essa chama que o ódio não apaga pelo universo / É a evolução, em sua legítima razão!”. Só então vem o moleque de tamborim na mão batucando e entoando “Liberto permanece o pensamento / Ele foi o meu alento quando o corpo foi prisão!!”.

 

Três pessoas diferentes que lembram de três sambas de enredo de épocas diferentes. A porta-bandeira lembrou-se da obra do G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense de 1989. O senhor de cabelos brancos reviveu Silas de Oliveira e seus Heróis da Liberdade, de 1969, cantado pelo Império Serrano. Por fim, o “batuqueiro” trouxe a música do G.R.E.S. Unidos do Porto da Pedra do ano de 2007, Preto e Branco a Cores. Temáticas diferentes, tempos diversos, vivências múltiplas e um elemento em comum: a importância do discurso de cada uma das obras no contexto de suas criações.

 

A utilização do samba de enredo como fonte de pesquisa ou material de suporte para o ensino demanda de uma contextualização ampla. Segundo Monique Augras em seu Brasil do Samba-Enredo, a “fala” deste gênero musical sofre influências do momento vivido pelos compositores quando da composição. Se os homens são mais filhos do seu tempo do que de seus pais, a música também o é. Há aquilo que chamamos de contexto interno da obra e isto deve ser devidamente trabalhado pelo pesquisador ou professor.

 

 

Silas de Oliveira

 

No caso da obra de 1989 da Imperatriz Leopoldinense, o objetivo real era exaltar “o centenário em poesia” da Proclamação da República. Neste sentido, não há nenhuma crítica ou demérito acerca do processo que culmina com a falência da monarquia no Brasil e a implantação do novo regime. O único ponto de crítica repousa exatamente no que foi suplantado pelos republicanos, a realidade imperial: “um império decadente, muito rico, incoerente / era a fidalguia”.

 

A fatídica e contestada Guerra do Paraguai e seus personagens brasileiros – igualmente contestados… – não são abordados em contornos reais.

 

O conflito interamericano é citado apenas superficialmente e exalta-se Duque de Caxias, o patrono do exército brasileiro: “da guerra nunca mais / esqueceremos o patrono, duque imortal”. Para muitos historiadores como José Chiavenato, o que houve na Guerra do Paraguai foi um holocausto americano uma vez que cerca de 99% da população economicamente ativa (aquela que produz e consome) do país governado por Solano Lopez foi devastada por Brasil, Argentina e Uruguai. Duque de Caxias, ao lado de conde D´Eu, marido da Regente Princesa Isabel, são muitas vezes colocados como verdadeiros criminosos de guerra. Onde está o sangue e o lado voraz do conflito e suas personagens? Não está, afinal, trata-se de um elogio, uma exaltação à República.

 

Apesar disto, nada causou maior furor durante o desfile na avenida Marquês de Sapucaí do que o refrão que clamava, “Liberdade!! Liberdade!! / Abra as asas sobre nós / E que a voz da igualdade / Seja sempre a nossa voz!!”. Inspirado no hino republicano, os versos da escola de samba de Ramos tiveram muito de seu sucesso junto aos entusiastas ligado ao momento  histórico que o Brasil vivia. Após 25 anos de regime militar, o povo poderia eleger um presidente por meio de seu voto. Não se tratava então apenas de uma exaltação à velha República de 1889 do marechal Deodoro da Fonseca, mas uma oblação à nova República de 1989 ligada a Ulisses Guimarães e à constituição de 1988. Pelo passado falar do presente…, isso dá samba!

 

Avenida Marquês de Sapucaí

 

No caso do samba de enredo imperiano de 1969 e que chegou a levar um dos autores – Silas de Oliveira – a ter que dar explicações aos censores da época, o discurso homenageia todos aqueles que bravamente lutaram contra seus repressores na História do Brasil. Augras aponta que um dos temas recorrentes dos sambas de enredo dos anos 60 e 70 era o Brasil colonial. Realmente, há referência às revoltas coloniais no discurso de Heróis da Liberdade. Todavia, o que leva as autoridades da época a pedirem esclarecimentos a Silas de Oliveira, alteração de palavras na música – de “é a revolução em sua legitima razão” para “é a evolução em sua legítima razão” – é o fato  de que no contexto de 1968 e 1969 as manifestações populares contra o regime militar explodiam com mais força e constância. Um samba de enredo, gênero que fala às camadas mais populares, exaltando todos que lutaram contra repressores não seria prudente para o momento vivido. Mais uma vez, a intenção da obra era indicar um caminho de ação e transformação, mas o poder instituído na figura do Estado impôs apenas repressão “em sua legítima razão”.

 

Ao clamar “Liberdade pelo amor de Deus / Liberdade a este céu azul! / É minha terra, orgulho meu!! / Porto da Pedra, canta a África do Sul”, a escola de samba de São Gonçalo, em seu samba de enredo para o carnaval de 2007, incorporava a essência guerreira de Nelson Mandela e  sua luta contra o apartheid sul-africano. O regime de segregação racial que vigorou dos anos 1940 até os anos 1990 foi fruto de um simples ato: “o anjo invasor me deu a cor / mas cor não tenho / eu tenho raça!!”. Há um choque entre a ideia de ser preto e ser da raça negra, além da ideia de raça associada à galhardia e força de vontade. No entanto, o que chama atenção ao longo do discurso da obra, além de versos absolutamente ricos de sentido e emocionantes, são palavras que estão mais ligadas à realidade carioca do que à da África do Sul no contexto do apartheid. Ao citar “meu braço, meu valor / se ergueu contra o monstro da cobiça / Caveirão da injustiça, filho da segregação”, aponta para um veículo usado pelas tropas de elite (BOPE) no combate ao crime organizado nas favelas cariocas. Ainda menciona-se a favela Vermelha, sendo que tanto na África do Sul quanto no Rio de Janeiro existem complexos populacionais com este nome. No caso sul-africano, ergueu-se um memorial para que se lembre e não se repita o horror da separação racial.

 

 

Percebe-se, inclusive lendo-se a sinopse que deu origem ao samba, que a ideia é que “não haja aqui a praga do apartheid”, nas palavras do próprio carnavalesco Milton Cunha. O discurso da obra alinha-se ao da época em que muito se discutia a ação do BOPE nas comunidades do Rio de Janeiro, onde não apenas criminosos eram mortos ou feridos, mas também crianças, mulheres e idosos inocentes. Se não há apartheid racial, há um apartheid social no Brasil? O que se sabe com certeza é que este é “um canto a ser louvado”, pois nem do lado de lá do Atlântico e nem do lado de cá é fácil “ser humano ante a fome e a privação”.

 

Se é segredo, cabe então ser revelado. O discurso do samba de enredo, seja usado como fonte de pesquisa ou como recurso didático, deve ser alvo de uma interpretação contextualizada de duplo aspecto: há um contexto interno à obra – o tempo no qual se passa o que é versado pelos compositores por meio do enredo da agremiação carnavalesca – e um contexto externo – que é aquele do momento da produção da música. Há influência do momento vivido no momento cantado ou, melhor dizendo, sambado. E gira a porta-bandeira, a velha guarda se emociona e o moleque batuca sem parar. Segue o desfile…

 

 

* Wellington Kirmeliene, compositor de sambas de enredo, bacharel em História, licenciado em História e Geografia, especialista em Metodologia do Ensino de História e Geografia, professor da Rede Municipal de São Caetano do Sul.

Adaptado do texto “Que-ti-ti-ti é esse?”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 58