Machado de Assis trabalha intertextualidade com a Bíblia e a mitologia romana

Por Leo Ricino* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

No volume II das obras completas de Machado de Assis da Editora José Aguilar, Rio de Janeiro, 1962, contei exatos 124 contos. É preciso ser extremamente criativo para engendrar tantas e inquestionáveis mentiras que atuem ― e continuam atuando desde sua publicação ― como metonímia para refletir nossa verdade social; aliás, um retrato exato dela, ao captar realidades, procedimentos e atitudes individuais, de cuja soma é formada a sociedade.

 

E esses contos machadianos, tão magistralmente criados, bem como seus romances da fase realista, têm sido um reflexo atemporal de nossa essência. Todavia, ninguém, nem mesmo um Machado de Assis, cria a partir do vácuo intelectual. É preciso, além de talento e dom, muito estudo, muita análise, muita perspicácia, muito poder de observação, muita leitura. E isso nunca faltou a Machado de Assis, que leu, dissecou e digeriu os grandes clássicos, incluindo a Bíblia e muito da Mitologia. Essa gama de conhecimentos num ser profundo e criativo como Machado de Assis só podia dar no que deu: várias obras-primas, quer nos contos, quer nos romances, quer nas crônicas, quer nos poemas.

 

E uma dessas obras-primas do conto brasileiro e machadiano é Entre Santos, fina e profunda análise da essência dos devotos e, por extensão, de nós todos.

 

 

As muitas intertextualidades

Como tenho destacado nos ensaios sobre os contos machadianos publicados aqui nesta Revista, Machado de Assis usa magistralmente o recurso da intertextualidade. Seus textos permeiam relações com histórias clássicas da literatura mundial, como as de Shakespeare, Cervantes, Camões, Dante, Horácio, Virgílio, dentre tantos outros, além da Bíblia e da Mitologia.

 

O que me impressiona em Machado de Assis é a capacidade de criar histórias tão diferentes a partir de um mesmo tema ou de tema semelhante. Histórias às vezes em forma até de capítulos dos seus romances. Em Entre Santos, não há como negar a exploração de duas entidades que fazem joguete dos humanos: a avareza e a usura, modos de ser típicos do amor ao ter pelo ter, especialmente dinheiro e riquezas em geral.

 

Contos de Machado de Assis

 

Nesse curioso conto machadiano, a usura e a avareza, por se impregnarem em nossa alma, destacam-se como indissociáveis facetas da essência humana. Cada um de nós carrega consigo a sua essência, algumas delas soberbamente dominantes e perceptíveis aos outros; outras nem tanto, praticamente imperceptíveis, mas sempre essência. No entanto, sobre a avareza e a usura, volto a falar abaixo, com outros casos de autointertextualidade machadiana.

 

 

Intertextualidade mitológica

Como em muitos contos machadianos, nesse também temos uma citação mitológica. Trata-se de uma referência ao deus coxo Vulcano, na versão de Homero, que diz que Vulcano era filho de Zeus e Hera. Já o poeta Hesíodo, possivelmente contemporâneo de Homero, diz que Vulcano é concepção exclusiva de Hera, como uma espécie de vingança às constantes traições de seu marido, Zeus. E há uma versão segundo a qual Vulcano nasceu antes do casamento de seus pais.

 

Qualquer que seja a versão, o fato é que Hefestos, nome grego de Vulcano, é tido como feio, disforme e coxo. Uma versão diz que ele ficou coxo quando sua mãe, que queria gerar um ser tão belo quanto ela, ao vê-lo horrendo como era, atirou-o do monte Olimpo. Quando ele chegou ao solo, ficou gravemente ferido e coxo para sempre.

 

Outra versão afirma que quem o atirou do Olimpo foi o próprio pai, Zeus, por ele tentar defender a mãe numa das costumeiras brigas do casal, causadas pela ciúme que ela nutria pelo marido. Teria demorado um dia inteiro para atingir o solo e, à noite, caiu na ilha de Lemnos, onde foi recolhido e cuidado pelos habitantes.

 

Há várias versões e outra delas diz que, quando atirado pela mãe, caiu no mar e foi criado e educado pela nereida Tétis, filha de Nereu e Dóris, e pela sua amiga Eurínome, filha da outra Tétis e de Oceano. Eurínome, por sua vez, seria amada por Zeus e geraria as Graças — que simbolizam a beleza e o encanto — e Asopo, o deus do rio de mesmo nome.

 

O Casmurro Bentinho – Parte II

 

O fato, e que justificou a citação de Machado de Assis, é que Vulcano era coxo e despertou o riso escrachado de outros deuses, ao contrário do riso contido, “beato e católico” dos santos com a história de São Francisco de Sales. Todavia, Vulcano é o hábil deus da metalurgia, do fogo, das armas, guerreiro inteligente e imbatível. E sua feiura não o impediu de ter como esposa a bela Vênus, conseguida por uma ameaça a Zeus. Vênus, no entanto, não o amava e o traía com Marte, adultério desmascarado por Vulcano num ardil de muita inteligência, ao criar uma rede de ouro finíssimo e praticamente invisível com a qual prendeu os dois amantes na cama, expondo-os assim aos demais deuses, desmoralizando Vênus e Marte.

 

Intertextualidade cristã

Bem, a história gira em torno da conversa dos santos, o que já se configura como intertextualidade com a Igreja Católica. A própria maneira como os santos se expressam nos remete à forma bíblica. Dispenso-me, pois, de destacar maior intertextualidade cristã. No entanto, só para constar, transcrevo uma fala do narrador do conto, com outra do próprio santo, com as quais se comprova a intertextualidade cristã:

 

“…, mas São Francisco de Sales recordava-lhes o texto da Escritura: muitos são os chamados e poucos os escolhidos, significando assim que nem todos os que ali iam à igreja levavam o coração puro.”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 52

Adaptado do texto “Entre Santos”

*Leo Ricino é mestre em Comunicação e Letras – professor na Fecap – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado e instrutor da Universidade Corporativa Ernst & Young de São Paulo.