Livro promove um passeio literário por São Paulo

Por Goimar Dantas* | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Era 24 de setembro de 2007 e apesar da chuva fina e do vento excessivamente gélido para meus padrões nordestinos, mais especificamente potiguares – embora há décadas radicada no Estado de São Paulo –, eu precisava reconhecer: nem o mau tempo diminuía a beleza e o charme da pequena cidade de Stratford-upon-Avon, a cerca de duas horas de Londres, na Inglaterra. Berço do escritor William Shakespeare, o lugar recebe anualmente milhões de turistas vindos de todo o mundo. Homens e mulheres interessados em conhecer as casas, ruas, teatros e a igreja onde nasceu, viveu e foi enterrado o autor de Hamlet.

 

Tais localidades se tornaram rentáveis atrações turísticas, contribuindo sobremaneira para a economia local. Ali, em meio aos sítios onde Shakespeare cresceu, amou e escreveu numerosas obras-primas, pensei em como seria incrível se as pessoas conhecessem melhor os espaços literários da capital paulista: são bibliotecas, livrarias, sebos, museus, centros culturais, faculdades e bares onde acontecem lançamentos de livros e saraus, como é o caso, respectivamente, da Mercearia São Pedro, na Vila Madalena, e do Bar do Zé Batidão, no Jardim Guarujá, sede do Sarau da Cooperifa. A obra também traz pontos de encontro inusitados, incluindo o Cemitério da Consolação, onde estão enterrados personagens importantíssimos das letras paulistanas. Em sua maioria, esses endereços abrigaram autores e leitores, colaborando para a produção e divulgação das letras no cenário nacional. Ato contínuo, completei o raciocínio: e se eu escrevesse um livro sobre esses lugares?

 

10 curiosidades sobre William Shakespeare

 

Assim, tremendo de frio – embora devidamente enrolada em um cachecol rosa-choque que guardo até hoje –, tive a ideia de escrever o livro Rotas Literárias de São Paulo (Editora Senac São Paulo), lançado em junho do ano da graça de 2014. Entre a concepção e a publicação, foram sete anos, passando pela seleção de 21 roteiros e quase 40 entrevistados, entre os quais: a dramaturga Maria Adelaide Amaral, os escritores Anna Maria Martins e Marcelino Freire, os poetas Alice Ruiz, Frederico Barbosa, Marcelo Tápia, Mário Chamie, Paulo Bomfim e Sérgio Vaz, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão, o diretor regional do Sesc-SP, Danilo Santos de Miranda, o ex-livreiro José Luiz Goldfarb, que durante 23 anos foi curador do Prêmio Jabuti, o diretor do Museu da Língua Portuguesa, Antonio Carlos Sartini, o presidente da Academia Paulista de Letras, Antonio Penteado Mendonça, os livreiros Pedro Herz, da Livraria Cultura, Samuel Seibel, da Livraria da Vila, e o jornalista José Nêumanne Pinto.

 

 

Como não poderia deixar de ser, a obra traz informações, imagens e “causos” que tecem relações entre esses escritores, livreiros, editores, críticos, gestores culturais e os locais onde nasceram, viveram, trabalharam e se divertiram na capital paulista. Nesse percurso, foram muitos os personagens impagáveis, com trajetórias e histórias sui generis. Para além dos já citados, destaco o advogado e memorialista Armando Marcondes Machado Júnior, que presidiu o Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP) em 1952, tendo sido colega de classe da escritora Hilda Hilst.

 

Após sua aposentadoria, “Armandinho”, como é conhecido, dedicou 20 anos à reunião de um verdadeiro arsenal de informações sobre os 30 mil estudantes que, entre 1827 e 2006, se formaram nessa tradicional instituição de ensino.

 

Quem foi Hilda Hilst

 

A pesquisa se transformou numa obra com um quê de proustiana, uma vez que é constituída por sete volumes e um livro extra (!), publicado em 2007, agrupando dados biográficos, poesias e contos de dezenas de poetas e prosadores que passaram pela renomada faculdade, cuja importância para as letras paulistanas é assim descrita por Antonio Candido na página 164 de seu Literatura e Sociedade:

 

“(…) só há literatura em São Paulo depois da Independência e, notadamente, depois da Faculdade de Direito.”

 

Meses depois, realizando entrevistas em outra rota, mais precisamente na Biblioteca Monteiro Lobato, na Vila Buarque, no Centro da capital, tive a sorte de cruzar meu caminho com o de outra personagem de peso para o livro. Era dona Hilda Villela Junqueira Merz, que, em 1934, aos 11 anos, conheceu o autor de Reinações de Narizinho e se tornou sua amiga. O encontro foi providenciado por Alexandre Villela de Andrade, avô de Hilda, que conhecia o criador de Emília, Visconde de Sabugosa, Dona Benta e companhia limitada. Na ocasião, a emoção da garotinha foi tamanha, que a pequena simplesmente não conseguiu esboçar sequer um som. Ficou muda. Mas nem tudo estava perdido. Três anos depois, Lobato aceitaria convites para almoçar na casa dos avôs de Hilda, estreitando relações com os familiares da menina e elogiando muitíssimo a habilidade do cozinheiro da residência que, nas palavras do autor, era “melhor do que Tia Nastácia”.

 

No raiar de Antonio Candido

 

A cada aniversário de Lobato, Hilda costumava presenteá-lo com balas caseiras sabor caramelo, que ele adorava. Quase 80 anos depois, ela admite que gostava tanto do escritor, que chegava a ser ciumenta, não aceitando dividir sua atenção com outras crianças. Esse perfil possessivo da menina fez com que Lobato a transformasse em personagem do livro O pica-pau amarelo, como se vê no trecho a seguir:

 

“Enquanto isso, a Hilda Vilela (sic) conversava com o Burro Falante:
– Por que está assim tão tristonha, menina?, – perguntou-lhe o Conselheiro.
– É que sempre quis vir aqui sozinha e afinal vim num bando. Não gosto de bandos. Mas deixa estar que hei de aparecer eu só, agora que já aprendi o caminho.”

 

O poeta Mário Chamie durante um de seus encontros com Goimar Dantas, relatados nas páginas de ‘Rotas literárias’

Devido à diversidade das 21 rotas literárias, bem como a de seus personagens, optamos por adotar um texto de gênero híbrido, que transita entre a reportagem, o ensaio e, aqui e ali, a raras pitadas de ficção – neste caso, sempre evidenciadas ao final da redação dos parágrafos em que aparecem.

 

 

 

 

Desafios à parte, escrever este livro foi um aprendizado sem precedentes. Um mergulho intensivo na história literária dessa terra cujo brasão – criado pelo artista plástico José Wasth Rodrigues e pelo poeta, tradutor, advogado e crítico de cinema Guilherme de Almeida – traz o lema “Non ducor duco”, cuja tradução é “Não sou conduzido, conduzo”. Uma terra repleta de personagens que dedicam suas vidas à literatura, seja nos conduzindo por suas histórias, seja criando espaços que favorecem o surgimento de letras e ideias.

 

A cada depoimento, deparamos com a influência exercida por São Paulo nas vidas e obras dos profissionais com os quais conversamos, o que propicia aos leitores o acesso às memórias desses personagens essenciais à edificação de uma cidade mais lírica, composta de caminhos que levam à poesia e à prosa.

 

Com este livro, desejamos contribuir para que São Paulo possa ser vista como uma importante rota do turismo literário nacional, a exemplo do que acontece em inúmeros endereços da Europa e dos Estados Unidos. Por sua beleza, extensão territorial e grande quantidade de escritores renomados, a capital paulista merece receber um olhar mais apurado para esses espaços, capazes de impulsionar a economia e valorizar a cultura local. Mais do que um texto, este é um convite.

 

Boa leitura e ótimos passeios!

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55

Adaptado do texto “Rotas literárias de São Paulo”

*Goimar Dantas é jornalista, roteirista, escritora e mestre em comunicação e letras. É autora, em parceria com Teresa Sales, da biografia Cortez – A saga de um sonhador, finalista do Prêmio Jabuti 2011. Publicou biografias, livros-reportagem e infantojuvenis, como Estrelas são pipocas e outras descobertas (Cortez Editora/2013), a ser publicado em 2014 pelas Ediciones Octaedro, da Espanha; Minha boca está pelada! (Escrita Fina Edições/2013) e Quem tem medo de papangu? (Cortez Editora/2011). Como roteirista, escreveu mais de 80 roteiros para vídeos institucionais. Para saber mais, acesse: <http://poesia-potiguar.blogspot.com>.