Capa
Capa

Metamorfose: o mito e as fábulas de Leminski


A produção literária do escritor Paulo Leminski, embora centrada na poesia, surpreende pela diversificação. Há uma série significativa de ensaios e depoimentos críticos, traduções das mais diversas línguas de obras clássicas e modernas, um romance experimental, uma novela, letras de música.


Por Lígia Savio

Partindo das vanguardas, considerado cria dos concretos, Leminski, na verdade, tem várias filiações literárias, o que, de certo modo, garantiu sua independência e fez dele uma presença de marca inconfundível, pessoalíssima em nossa literatura. Quando começava a ser rotulado, inovava, buscava outras formas, multifacetava-se, numa atitude que talvez sua maneira de se preservar de qualquer desgaste ou cristalização. Fruto de várias raças, pôs em prática em seus escritos esta mestiçagem de que tanto se orgulhava. Leitor insaciável, deixa transparecer em sua obra, citados, digeridos ou assimilados, muitos nomes da literatura ocidental e oriental das mais diversas épocas.

 

Para melhor contextualizarmos Leminski, é preciso que nos remetamos à década de 1950. A crescente industrialização do País e o desenvolvimento urbano e tecnológico dão margem a uma euforia desenvolvimentista que privilegia o que é moderno. Nessa esteira surge, no campo da estética, o Concretismo, com o intuito de rastrear o novo, de buscar os "poetas inventores", em qualquer época da história da literatura. Quem não se encaixasse nesta característica vanguardista - inclusive os participantes do movimento modernista de 1922, com exceção, talvez, apenas de Oswald de Andrade - estava excluído do famoso paideuma poético . Apesar de dogmático, enquanto discurso, e redutor, do ponto de vista estético, o Concretismo explorou aspectos fundamentais da arte contemporânea, como a importância do visual na criação literária, a apropriação do design, da propaganda, as relações arte versus consumo.


paideuma poético
Na definição do poeta modernista norte-americano Ezra Pound (1885-1972), paideuma é a ordenação do conhecimento de modo que as próximas gerações possam achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com o obsoleto. "A poesia concreta não visava ao futuro. Como a modernidade, ela tentava prever um 'permanente presente', sobretudo no rigor e na síntese de críticas, atribuindo importância a um paideuma de autores, localizando-os sincronicamente no tempo." (André Dik)

Os concretistas também tiveram um papel importante como teóricos da literatura, já que tinham grande preocupação em legitimar seu trabalho e, na maioria das vezes, destacaram-se mais nesta atividade do que propriamente na produção poética.


Muito do que estava sendo feito seduziu o jovem curitibano Paulo Leminski, já no final da década de 1950, preocupado que estava em superar as lacunas deixadas por sua formação provinciana. Sua vantagem foram os anos passados em mosteiro beneditino, o que lhe garantiu o primeiro contato com os clássicos.


Dizendo que os concretistas não haviam começado concretos, mas ele, sim, Leminski viu essa época, mais tarde (já na década de 1980), de modo crítico, caracterizando este tempo como "um serviço militar prestado à poesia concreta". Um pouco antes, numa carta a Régis Bonvicino, afirmara que os concretistas estavam certos, mas que tinham de ser lidos num modo relativo. Isso já é o Leminski autocrítico, renovando-se continuamente.


Sua produção começou a ser divulgada a partir de 1964, com a publicação dos primeiros poemas na revista Invenção, dos concretistas paulistas. Onze anos depois, o livro Catatau revelou um escritor singular, dono de uma prosa experimental e fascinante, ainda que hermética em muitas passagens, associada a Guimarães Rosa e James Joyce. Catatau atingiu um pequeno círculo. Atualmente, mais de trinta anos após a primeira edição, com tantas transformações e ampliações no código linguístico, na literatura e na crítica, o livro começa a ser melhor compreendido. Ou, pelo menos, melhor apreciado e saboreado, ainda que não totalmente decifrado - se é isso mesmo que importa.


Catatau
O livro surgiu de uma inspiração repentina que Leminski teve enquanto dava uma aula de História. Leminski imaginou como teria sido se o francês René Descartes (1596-1650), fundador da filosofia moderna, que foi para a Holanda em 1618 para cursar escola militar, e que se alistou no exército de Maurício de Nassau, tivesse vindo para o Brasil com Nassau durante a invasão holandesa, que formou colônia no Nordeste brasileiro (1637-1640). No livro, o texto se estrutura como Descartes veria, com a metodologia cartesiana de seu pensamento, o jeito alucinado como ele enxergaria o lugar presente onde estaria vivendo. A fala do livro mescla diversas linguagens, numa tentativa de representar o que era a fala do Brasil na época, vinculando a fala de Descartes também, que era poliglota; então, temos na obra neologismos diversos, utilização direta de tupi, latim, japonês, italiano, holandês, francês, grego, espanhol, inglês e alemão. A complexidade de sua leitura legou ao livro a peja de hermético, o que fez o próprio autor comentar em uma edição crítica de Catatau, da Travessa dos Editores: "O Catatau é o fracasso da lógica cartesiana branca no calor, o fracasso do leitor em entendê-lo, emblema do fracasso do projeto batavo, branco, no trópico."

A edição crítica de Catatau, já esgotada, da Travessa dos Editores, pode ser lida no seguinte link: http://portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/
File/catatau.pdf

Em 1980 acontece a publicação do primeiro livro de poemas: Não fosse isso e era menos / Não fosse tanto e era quase.


A partir daí, dedicou-se a uma intensa atividade com música: compôs, fez parcerias importantes, teve suas músicas e/ou letras regravadas por Caetano Veloso, Cor do Som, Paulinho Boca de Cantor, Guilherme Arantes, tornando assim seu nome melhor conhecido. A revista Veja, em 13 de janeiro de 1982, numa entrevista com Leminski, afirmou que o escritor se havia tornado "uma das citações indispensáveis da temporada entre a juventude de São Paulo e do Rio de Janeiro", graças à gravação da música Verdura, por Caetano Veloso. A divulgação do nome de Leminski através da música talvez tenha contribuído também para a publicação de um outro livro de poemas, desta vez pela Editora Brasiliense, Caprichos e Relaxos, em 1983. No mesmo ano, o lançamento da biografia do poeta japonês Bashô trouxe a público seu interesse pela cultura oriental e pelo hai kai, tipo de composição poética valorizada e apontada como exemplo pelas vanguardas, desde Ezra Pound até os concretistas brasileiros.


METAMORFOSE: ECOS DE ECOS
O estudo de várias línguas e de suas culturas também foi um modo de tentar escapar do fantasma do provincianismo e sentir-se cosmopolita, atitude tão ao gosto dos vanguardas. O jogo entre o nacional e o universal está incorporado à produção de Leminski, e analisado em alguns de seus ensaios, numa busca consciente de multinacionalidade.

 

 


Anos 70, Leminski com o fotógrafo Jack Pires

O livro Fogo e água na terra dos deuses é bastante significativo neste sentido. Leminski, aí, traduz poemas egípcios, utilizando versões do francês e do inglês, mais o próprio conhecimento que tinha do egípcio antigo e de hieróglifos. No artigo Poesia a gente encontra em toda a parte, o escritor compara essas primeiras manifestações líricas do Egito com as da Índia e do México, todas elas ligadas à religião. Revela, assim, seus conhecimentos de sânscrito e náhuatl, língua dos astecas. Há uma frase interessantíssima neste estudo, que vale a pena registrar: "Todo o texto é, desde o princípio, um Osíris , um morto destinado a ressuscitar à luz do ritual de sucessivas leituras, traduções e interpretações."


Raúl Antelo, no prefácio a Desencontrários, referindo-se aos poetas ali reunidos, menciona a "fala do fora", a "escrita nômade" dos que, driblando a tradição diacrônica, surgem como "passantes arlequinais" em busca de um outro novo. Embora o mundo esteja centrado na poesia, aplica-se muito bem ao que Leminski faz em Metamorfose. Trata-se da "máscara do estrangeiro", a busca explícita da cultura antiga em livros alheios (no caso, nas Metamorfoses de Ovídio), abre caminho, dessa maneira a uma atualidade instigante.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | Próxima >>
 
 
Conhecimento Prático Geografia :: Reportagens :: Edição 53 - 2014
Socialismo venezuelano em xeque
Conhecimento Prático Geografia :: Reportagens :: Edição 53 - 2014
Gravidez na adolescência
Conhecimento Prático Geografia :: Reportagens :: Edição 53 - 2014
Pacto pela mobilidade urbana

Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 23 - 2010
Mito da Caverna:


Conhecimento Prático Literatura :: Reportagens :: Edição 37 - 2011
A importância da literatura na sala de aula


Conhecimento Prático Geografia :: 06/03/12
Xenofobia na europa: Os padrões atuais de migração internacional


Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: Ensino :: Edição 36 - 2012
Relação entre família e a escola e seus impactos na educação



Edição 49

Saiba antes de todos as novidades da revista




Capa
Reportagens

Assine
Anuncie
Expediente
Fale Conosco
Mande sua sugestão
Favoritos


Faça já a sua assinatura!
Conhecimento Prático Filosofia

Assine por 2 anos
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Geografia

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Língua Portuguesa

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Literatura

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!

  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS