Reportagens

O vestuário alegórico em Gil Vicente


A roupa acompanha a humanidade desde o início de sua evolução. A veste surge na pré-história. Tal vestuário, feito de pele de animais, geralmente de urso ou rena, confeccionado manualmente, com o auxílio de agulhas de osso, pelas mulheres, tinha apenas a função prática - proteger o corpo diante da instabilidade climática


Por Érica Fernanda B. C. P. de Souza


A indumentária atinge seu apogeu na Idade Média, pois passa por inúmeras transformações, como alteração no corte, modificação no comprimento, tonalidades diversificadas. O traje medieval português é o resultado da influência de vestes de inúmeros países. No século XII, os portugueses usavam vestes amplas, como a túnica e a toga, típicas de Roma. A moda francesa esteve presente, entre os lusíadas, nos séculos XII e XIV. O vestuário inglês e italiano predominou no século XIV. As alterações da indumentária, no século XV, foram impulsionadas por Borgonha. A roupa mulçumana configurou entre os portugueses por meio de peças mouriscas e panos do Islam.

As vestes medievais eram confeccionadas manualmente, em casa. No entanto, os alfaiates eram os responsáveis pela elaboração do vestuário da aristocracia. Destarte, surge, no final da Idade Média, o conceito de moda. A indumentária passa a funcionar como um identificador social e diferenciador da individualidade.


HIERARQUIA E DEMOCRATIZAÇÃO VESTUAL
A sociedade medieval portuguesa era estratificada e a indumentária contribuía para o estabelecimento e a manutenção da hierarquia. A posição de um indivíduo expressava-se por meio de inúmeros aspectos, como a qualidade e quantidade de materiais, o modelo, o tamanho e as cores do vestuário. Os valores cívicos e morais complementavam o estilo do traje masculino e feminino.

A imutabilidade do vestuário do século XVI contrasta com as rápidas transformações vestuais do século XX, reflexo da turbulência das cidades e do anseio por mudanças.

Diferentemente do período medieval, no século XX há uma aproximação do vestuário feminino e masculino que apresentam cortes semelhantes. Tal fato ocorre por meio do reconhecimento social das mulheres, que começam a compor o mercado de trabalho. No entanto, os dois períodos remetem a um aspecto de convergência: a roupa como identificador social. Dividida em Alta Costura, confeccionada sob medida e, em Produção Industrial, elaborada em larga escala e com preços acessíveis, a indumentária do século XX expressava por meio de técnicas, cores e tecidos, assim como o vestuário medieval, a hierarquia da época.

O vestuário do século XXI compõe-se de diversas texturas, cores, cortes e estilos. Resultado da influência de diversos campos do saber, como a literatura, arquitetura, pintura e música, a roupa na atualidade estabelece uma democratização vestual.

Objeto de estudo de inúmeros pesquisadores, o traje propõe uma leitura crítica que demanda um olhar atento. Estabelece uma linguagem visual tão relevante quanto o discurso verbal. Revela informações. Exprime ideias. Representa as mudanças sociais e culturais. Permite interações entre a sociedade. Expressa identidade e comportamento.


ROUPAS NA LITERATURA
A literatura está repleta de roupas. Em Utopia (1516), de Thomas More, a indumentária complementa os ideais de uma sociedade perfeita: “Vereis agora como são necessários poucos braços para a confecção do vestuário. Em primeiro lugar, nas horas de trabalho, cobrem-se confortavelmente com couro ou peles, vestimenta que lhes chega a durar sete anos. Quando saem, cobrem-se com um casaco que lhes tapa o grosseiro vestuário do trabalho. (...) Que mais se há de desejar? Não se andaria mais bem vestido, nem mais confortavelmente protegido do frio, se mais roupas tivessem.” Em A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo, o traje constrói a caracterização das personagens e sintetiza as ideias principais do enredo: “É inútil descrever o quarto de um estudante. Aí nada se encontra de notável. Ao muito acharão uma estante, onde ele guarda os seus livros, um cabide, onde pendura a casaca, o moringue, o castiçal, a cama, uma, até duas canastras de roupa, o chapéu, a bengala (...) é pouco mais ou menos assim o quarto de Augusto”. Em Tabacaria (1928), de Álvaro de Campos, a veste possui um valor simbólico: “Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta./ Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam./ Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,/ (...) E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)” Em Uma Roupa Muito Especial (2009), de Tatiana Belinky, o vestuário impulsiona o enredo e simboliza a vaidade: “- Que história vou ouvir hoje? De gente, de bicho, ou de quê?/ - Nem de gente nem de bicho. (...) A história de hoje será de que mesmo. E o de que será... Uma roupa!”

 

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>
 
 
Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 36 - 2012
Sobre a cegueira
Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 36 - 2012
A Paideia
Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 36 - 2012
Sob o "espírito" de Hegel

Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: Reportagens :: Edição 28 - 2011
Coordenação X Subordinação


Conhecimento Prático Geografia :: 06/03/12
Xenofobia na europa: Os padrões atuais de migração internacional


Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 23 - 2010
O animal Político


Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 20 - 2009
Educar para transformar



Edição 41

Saiba antes de todos as novidades da revista




Capa
Reportagens

Assine
Anuncie
Expediente
Fale Conosco
Mande sua sugestão
Favoritos


Faça já a sua assinatura!
Conhecimento Prático Filosofia

Assine por 2 anos
10x de R$ 9,48
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Geografia

Assine por 2 anos
10x de R$ 9,48
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Língua Portuguesa

Assine por 2 anos
10x de R$ 9,48
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Literatura

Assine por 2 anos
10x de R$ 9,48
Assine!
Outras ofertas!

  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS