 O diálogo entre as artes em Virginia Woolf Por Neurivaldo Campos Pedroso Junior
"Virginia Woolf explicita a discrepância entre o tempo presente e o tempo da consciência; observamos, assim, que a consciência liberta-se do rígido avanço do relógio."
Em 2008, assistimos, felizes, à reedição, pela Nova Fronteira, dos dois primeiros romances da escritora inglesa Virginia Woolf. A publicação dos livros traz, novamente, para o cenário editorial e literário um dos nomes mais significativos do Modernismo inglês. Uma intelectual, genuína lady, que, no intervalo entre um chá e outro, envolta em pérolas e diante de mais uma Grande Guerra (a segunda que enfrentaria) opta pelo suicídio, colocando, dessa forma, um ponto final em um dos mais produtivos projetos da literatura mundial, tanto no âmbito literário, quanto nas áreas da crítica e do ensaio.
A Virginia Woolf que, em 28 de março de 1941, enfeitiçada pelo canto das sereias, enche de pedras os bolsos do pesado casaco e atende ao apelo das águas, numa atitude que pode ser vista como uma simbologia da tentativa de voltar ao colo da mãe, morta quando a escritora tinha apenas 13 anos, já havia escrito nove romances, sete volumes de ensaios, duas biografias e vários contos.
Outro aspecto importante com relação à escritora inglesa é que, ao longo de quase toda a sua vida, incentivada, principalmente, pelas frequentes e profundas crises mentais que teve que enfrentar desde a morte da mãe, ela manteve o hábito de escrever diários.
Tais escritos, quando de sua morte, em 1941, já somavam um total de vinte e sete volumes e podem ser considerados um dos grandes diários literários que conhecemos, pois nele lemos não apenas o registro da vida social de Virginia Woolf, suas observações, seus sentimentos e suas leituras, mas vemos, também, um admirável registro de sua composição literária, com valiosas indicações sobre a elaboração de suas obras.
O nascimento de uma escritora
Adeline Virginia Stephen nasceu em 25 de janeiro de 1882, no número 22 de Hyde Park Gate. Filha de Julia e Leslie Stephen, sua família era constituída por vários escritores e advogados, pelo lado paterno, e por aristocratas, sendo alguns franceses, pelo lado materno.
Apesar de ter tido uma infância e adolescência marcada por sucessivos lutos (a morte da mãe, Julia Stephen, em 1895; da meio-irmã, Stella Duckworth, em 1897; e do pai, Leslie Stephen, em 1904), o que acarretou inúmeras crises de depressão, pode-se dizer que o ambiente literário no qual a jovem Stephen foi educada contribuiu de forma decisiva em sua carreira de escritora, pois seu pai - ilustre homem de letras e primeiro editor do The Dictionary of National Biography - além de possuir uma ampla e importante biblioteca, procurava orientar cuidadosamente o apetite voraz de Virginia pela leitura.
Num mundo convencional, regido pelos homens, a Virginia Woolf foi negado o direito de frequentar escolas, tendo sua educação sido realizada em casa, sob a supervisão de seus pais.
A escritora nunca se conformou com esse fato, uma vez que seu irmão Thoby Stephen, pôde, simplesmente por ser homem, gozar de todas as vantagens de uma educação em Cambridge . Contudo, muito mais importante do que uma educação em Cambridge, a principal influência na formação e no desenvolvimento intelectual de Virginia Woolf foi a educação liberal que ela recebeu, já que, ao chegar à adolescência, foi-lhe permitido o livre acesso à biblioteca de seu pai, algo que lhe proporcionou, em princípio um amplo conhecimento da literatura inglesa e, mais tarde, com o auxílio de Janet Case e Clara Pater (irmã de Walter Pater), um aprofundamento em latim e grego.
Apesar da importância do papel desempenhado por Leslie Stephen na educação e formação intelectual de sua filha, muitos anos após a morte do pai, Virginia Woolf escreveu em seu diário: "A vida dele teria acabado completamente com a minha. Que teria então acontecido? Eu não teria escrito; não haveria livros; - inconcebível."
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