Literatura feita por mulheres

O engajamento ao feminismo e a renúncia à subalternidade

Por Stephanie Ambrosio* | Adaptação web Caroline Svitras

O engajamento da literatura é resultante das relações dinâmicas entre escritor e sociedade. Não há artista desvinculado à realidade em que vive, pois o processo de criação literária parte das experiências pessoais e sociais do autor que, a partir daí, recria sua realidade, transmitindo seus sentimentos e seus ideais ao mundo real.

 

A Literatura Portuguesa Contemporânea é marcada pelo sentimento de insatisfação decorrente da ditadura de Salazar, período de maio de 1926 a abril de 1974, em que a ideologia vigente era embasada em lemas como “Tudo pela Nação, nada contra a Nação” e “Deus, Pátria, Família”.

 

Durante essa época, a desigualdade entre os sexos tornou-se mais significativa, de modo que “em nome da ‘natureza’ feminina, as mulheres viram, desta forma negada pelo Salazarismo a completa igualdade com os homens […]. O Salazarismo acrescentou que deve ser uma mãe devota à pátria e ocupar-se do governo doméstico” (COVA, PINTO, 1997, p. 72).

 

António de Oliveira Salazar

Diante dessa desigualdade, a publicação de autoria feminina tornou-se significativa diferenciando-se daquilo que era anteriormente publicado (MAFRA, 2007, p.33):

 

A princípio, a literatura que caracterizava a escrita da mulher era associada à fragilidade e ao lirismo; porém, no último quarto do século XX, a literatura de autoria feminina, mais especificamente aquela que se volta à prosa de ficção, abandona o amor como tema central e passa a substituí-lo por outros, como a sondagem existencial, os questionamentos sócio-políticos e o erotismo.

 

A obra Novas Cartas Portuguesas das escritoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa cumpriu um papel importante durante a queda da ditadura de Salazar, pois foi publicada três anos antes da Revolução dos Cravos, criticando a repreensão ditatorial, o poder católico e a condição da mulher. A obra marcou o princípio de uma nova tendência literária, onde a voz feminina afirmou-se como revolucionária e transformadora, investindo contra os valores tradicionais da época como o interdito ao sexo, o horror ao corpo e a proibição do aborto.

 

Além disso, a obra inovou por sua estrutura fragmentária, apresentando uma variedade de tipologia textual como cartas, bilhetes, poemas e cantigas assinadas por diferentes vozes femininas de todas as classes e posições sociais, a estudante, a operária, a prostituta e a mulher casada, que se unem pelo mesmo propósito: libertarem-se das amarras que a sociedade patriarcal que lhes aprisionou, condenando-as à dor, à exclusão, à amargura, à violência e à desigualdade.

 

Na literatura contemporânea há a busca de identidade, de modo que o diálogo com o passado serve como uma reflexão, fazendo o leitor pensar sobre o que estava acontecendo naquele período, sobretudo o que se direcionava às mulheres.

 

Para uma análise mais crítica tomemos por base a Carta I. A autoria múltipla garantiu à obra uma força maior naquela época, de maneira que o uso da 1ª pessoa do plural representa uma voz feminina, um coro que se propõe a lutar contra tudo e todos:

 

E nós, e nós, de quem, a quem o rumo, os dizeres que nem assinados vão, o trio de mãos que mais de três não seja e anônimo o coro? Oh quanta problemática prevejo, manas, existiremos três numa só cousa e nem bem lhes sabemos disto a causa de nada e por isso as mãos nos damos e lhes damos, nos damos o redondo da mão o som agudo. (1979, p. 35)

 

Logo nas primeiras linhas é levantada uma questão de âmbito universal, em que se discute o papel da literatura e sua finalidade:

Pois que toda literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício (1979, p. 31).

 

A paixão pelo exercício da literatura é um dos motivos que une essas escritoras, estabelecendo-se uma relação entre vingança, nostalgia e a literatura, de modo que a vingança e a nostalgia tornam-se os princípios da literatura:

 

Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia, se vingança. Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. (1979, p. 31)

A mulher que escreveu a Bíblia

 

A nostalgia, tema frequente na literatura contemporânea, é um elemento significativo nas Novas Cartas Portuguesas, já que as autoras resgatam a imagem da freira Mariana, autora de cartas apaixonadas e famosas, que foi obrigada a entrar em um convento aos onze anos, mas, posteriormente, conheceu o Capitão Nöel Bouton, por quem se apaixonou e manteve cartas apaixonadas, publicadas como Cartas Portuguesas em 1669:

[…] só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um Outubro um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos? (1979, p. 31)

 

As autoras das Novas Cartas Portuguesas resgataram a imagem de Mariana como uma representação dessa nova mulher portuguesa, “[…] simboliza a busca de exemplos passados, em relação ao destino da mulher” (MAFRA, 2007, p.44). O uso da intertextualidade é outra tendência na literatura contemporânea, além das cartas de Mariana, outras fontes são resgatadas, com personagens reais ou fictícios da história e da cultura portuguesa, como Inês de Castro.

 

O livro enquadra-se em um protesto feminista, já que defende a condição da mulher colocando-a em uma posição distinta do que realmente lhe condicionam, cabe observar o que Regina Tavares afirma sobre a questão do feminismo:

 

Feminismo é, pois, tudo isto: a rejeição dos aspectos negativos do passado, a adopção de novos princípios e conceitos, a criação de novas imagens para a mulher, a conquista da igualdade de direitos e oportunidades, a participação em novos moldes na vida da família e da sociedade, o acompanhamento de um ritmo de mudança que caracteriza a vida portuguesa na época em questão. (1983, p. 889)

 

Esse sentimento feminista que vigora na literatura é decorrente da posição em que a mulher portuguesa era colocada, segundo Mafra, “[…] a mulher portuguesa foi moldando-se enquanto reprodutora biológica e reprodutora ideológica, uma vez que também transmitia à sua prole os ensinamentos que a sociedade lhe inculcava” (2007, p. 23). Sendo que, naquela época, através da literatura, a mulher portuguesa passa a questionar a condição que lhe foi relegada na sociedade patriarcal em que vivia:

 

[…] a mulher portuguesa passa a questionar o seu estar no mundo, o reinventar o feminino, a descobrir-se, a repensar condições, e a discutir diferenças e alteridade. Percebe que em uma sociedade dominada pelo homem, é ele o princípio fundamental, enquanto que ela é o lado excluído desse sistema. (MAFRA, 2007, p.7)

Quem foi Hilda Hilst

 

A questão do amar também é umas das reflexões feitas nessa primeira carta. O amor é visto como uma emoção inventada, não como um sentimento verdadeiro:

 

E se não acredito em mim o amor como sentimento totalmente verdadeiro a não ser a partir da minha imperativa necessidade em inventá-lo (logo já ele é verdadeiro mas tu não), recuso-me a negá-lo no entanto pois na realidade existe, é em si mesmo: vício, urgência, precipício, enquanto tu serves apenas de motivação, de início, de peça envolvente em que te arrasto neste meu muito maior prazer em me sentir apaixonada que em amar-te. Neste meu muito maior prazer em dizer que te amo do que na verdade em querer-te.

A visão do papel do outro em uma relação amorosa deixa de ser idealizada, de maneira que o indivíduo amado passa a ser apenas uma motivação e não mais o controlador da relação. Esse comportamento demonstra que a mulher deixou de ser subalterna ao homem. Quando a mulher perde o ser amado, ela não sofre propriamente por ele, mas sim pela falta daquela motivação do amor: “‘Sei que te perdi e me afundo, me perco também dentro da minha total ausência de poder em que me queiras’ E assim sofro, aparentemente porque te amo, mas antes porque perco o motivo de alimento da minha paixão, a quem talvez bem mais queira do que a ti.” (1979, p. 33)

 

A saudade pelo ser amado trata-se apenas de um desejo, uma necessidade do corpo e não puramente amor:

 

Do desvairo não me curo, nem da ansiosa vontade de te ver. Mas aqui por certo será já o desejo e não o amor a causa deste outro sentimento ou alimento de uma emoção que pode ser tomada apenas por amor e erradamente entendida de outra maneira que não pelo simples exercício do corpo, que realmente é.
Ao afirmarem o desejo da mulher, as autoras desafiaram os princípios de Salazar, já que durante a Ditadura a subalternidade nas mulheres foi reforçada e reafirmada como “[…] a apologia do ‘regresso ao lar’, a glorificação da ‘maternidade’ e de um certo modelo de ‘família’” (COVA, PINTO, 1997, p. 71). Este posicionamento das autoras levou-as a serem acusadas de imoralidade e de pornografia.

 

Há uma resistência à moral tradicionalista e às leis defendidas na época tanto ao que se refere à condição da mulher, quanto ao papel da literatura, conforme, Pintasilgo, “no campo político as Novas Cartas Portuguesas são mais do que um simples testemunho. São um libelo contra a sociedade que discrimina, escraviza, julga, marginaliza” (1979, p. 18). Esta opressão é identificada como ‘clausura’:

 

Há sempre uma clausura pronta a quem levanta a grimpa contra os usos:
freira não copula
mulher parida e laureada
escreve mas não pula
(e muito menos se o fizer a três)
com a Literatura,
LITERATURA, não se faz rodinhas
– porém, ledores, haveis comprado
Mariana e nós, tendo ela
montado o cavaleiro e bem
no usado para desmontar
suas / doutras razões de conventuar.

 

Enfim, as Novas Cartas Portuguesas foi uma tentativa de afirmação do feminismo e de rejeição aos princípios vigentes de uma época de opressão e de abuso do poder, conforme Pintasilgo representou um caminho para a liberdade feminina:

 

Caminho de iniciação – viagem ao centro de nós, de cada mulher, viagem ao centro do mundo e de suas circunstâncias – caminho e fazer-se simultaneamente em todos os registros: histórico, político, moral. Tentativa de resposta pessoal, sem pretensão de universalidade, a dizer o possível de cada histórica, o horizonte aberto, o marco ultrapassado. Procura de mulher a mulher, resposta de cada uma a cada uma, de todas a cada uma, à escuta da interrogação que de todos os lados surge. (1989, p. 28)

 

*Stephanie Ambrosio possui Graduação em Letras – Licenciatura Plena em Português/Inglês e Bacharelado em Edição – pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2012). Atualmente, é estudante de Educomunicação na ECA – USP e professora de Língua Portuguesa e Literatura no ensino regular.

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 70 – garanta a sua aqui.

Adaptado do texto “Marias, Marianas, mulheres e irmãs”