Literatura fantástica pioneira de Jan Potocki

O que dizer desse nobre polonês que, numa vida curta e agitada, foi arqueólogo, erudito, militar, político e autor de um livro fascinante?

Por Rodrigo Ruiz* | Fotos: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

O século 19 foi pródigo em narradores do fantástico. Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne e Washington Irving, para citar apenas estes, escreveram o sobrenatural, o misterioso e ainda hoje são lembrados por sua notável capacidade de surpreender seus leitores. Mas, e Jan Potocki?

Um nobre inquieto

Passos apressados levam um homem ao recôndito de sua biblioteca. Já dentro dela a porta é trancada levemente, sem alarde. Solidão e frieza. Um rápido olhar pelos quatro cantos do ambiente, os livros, obras tantas acumuladas ao longo de anos de viagens e curiosas pesquisas, uma leve espiada por entre as cortinas da janela. Ali estava um mundo que ele sentia não mais lhe agradar. Da gaveta da escrivaninha, debaixo de papéis vários, uma pistola carregada previamente. No gabinete onde tantas leituras foram o sufrágio para uma alma sem descanso, um estampido seco quebra o silêncio. A morte será sua última façanha.

 

Assim poderia ter se desenrolado a cena final de uma vida tão excêntrica quanto aquela que viveu Jan Potocki — Jan Nepomucen Potocki de Pilawa nasceu no Castelo de Pików em 8 de março de 1761, em Podolia, mais tarde anexada à Ucrânia. Filho da nobreza austro-húngara, de judeus askenazi convertidos ao catolicismo — para melhor se relacionarem no meio ao qual viviam — como se dizia entre eles.

 

Francisco de Goya nasceu em 1746 em Aragão, província de Saragoça, filho de um dourador de estátuas e livros. Em 1770, embarcou para a Itália e inscreveu-se na Academia de Belas Artes de Parma, recebendo uma menção honrosa dos examinadores. De volta para Saragoça, pintou os afrescos nas paredes da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, decorou os muros do convento Aula Dei e executou figuras de santos na Igreja de Ramolinos. 

Potocki seguiu a carreira das armas, viajou por lugares distantes e exóticos, era de uma natureza inquieta e inquietadora, o tipo de homem que, tivesse vivido uma longa existência — morreu aos 51 anos — teria muitas e variadas histórias para contar. Mas, nenhuma delas fugiria da insuperável obra com a qual ele consagrou seu nome na Literatura Mundial e que descreve uma Espanha misteriosa, um amálgama entre as três culturas que a forjaram: a cristã, a judaica e a muçulmana. É nessa encruzilhada religiosa, étnica e cultural que surge o romance festejado de Jan Potocki, O Manuscrito de Saragoça. É fruto não só de uma imaginação fertilíssima, mas também de uma vida vivida intensamente por um homem que, saído de sua terra, sedento de aventuras, vai beber das fontes mais puras da tradição folclórica da Península Ibérica, depois de ter percorrido lugares distantes como Egito e mesmo a Mongólia. No entanto, para uns e outros, o Manuscrito é mais do que a Espanha, é a soma de muitas vidas vividas pelo nobre polonês. A obra em si é um mistério tido como cabalístico, esotérico, inexplicável. Isso pouco importa. Palpita o fantástico em cada página. O que se há de valorizar é a extravagância narrativa, a evocação das bruxas, demônios, seres encantados, mortos-vivos e a luta entre o Bem e o Mal, o erotismo e as misérias humanas, estas tão bem retratadas pelo pincel de seu contemporâneo, Francisco de Goya. Seria esse arcabouço uma parte do universo mental do militar polonês, uma translúcida representação de sua vida agitada entre viagens, aventuras e desventuras? Uma das muitas janelas que Potocki permitiu que sua alma sacudida por tanta curiosidade abrisse à posteridade?

 

Muitas vidas em uma

Seu gênio inquieto não lhe permitiu assentar-se numa vida sem o brilho da aventura, sem experiências intensas. Como homem ligado à caserna, o nobre polonês participou de campanhas militares na condição de oficial de artilharia do Império Austro-Húngaro, lutou contra piratas berberes na costa marroquina, viajou de balão sobre Varsóvia e, visitando Paris, esteve envolvido com o clube dos Jacobinos, durante a Revolução Francesa. Com eles, abraçado ao Iluminismo, Potocki lutou pela derrubada da monarquia francesa e escreveu contra ela. Ainda em Paris, vai cruzar seu caminho com os maçons, os rosacruzes e praticar a cabala. Podemos imaginá-lo deslumbrado com as vastas possibilidades de devassar um mundo novo que começa a se delinear a partir das cinzas do incêndio propagado pela França revolucionária.

 

A escrita de Jane Austen

 

Em sua passagem pela Alemanha, vai estabelecer relações de amizade com Goethe e Herder. Na corte do czar Alexandre I, será o conselheiro particular do monarca, favorecido pelo seu parentesco com um outro nobre. Não por muito tempo. O tempo era exíguo para as muitas vidas que ele desejava usufruir numa só. Após a Batalha de Austerlitz, em maio de 1805, saindo vitorioso o exército francês contra a Áustria e a Rússia, Jan posiciona-se contra Napoleão, a favor do monarca russo.

 

Dez anos depois, a derrota de Napoleão em Waterloo flagraria Potocki desiludido pelas idas e vindas da política territorial que havia extinto a Polônia, dividida entre Prússia, Rússia e Áustria. Durante o movimento polonês contra essa situação vexatória, o aventureiro se vê na contingência de voltar-se contra o czar e apoiar seus compatriotas. Isso significará um período de desprestígio para Jan Potocki que, doente e deprimido, vai dar cabo de sua própria vida, trancado em sua biblioteca, com um tiro na cabeça no dia 2 de dezembro de 1815. Um tiro bastou para cessar a busca desse polonês inquieto, mas não encerrou a trajetória de seu mais importante trabalho literário, cuja vida só estava começando.

 

Um manuscrito e sua trajetória acidentada

Em 1791, durante uma viagem à Espanha na companhia do embaixador polonês, Jan Potocki vai ouvir as narrativas eivadas daqueles elementos fantásticos tão próprios de uma terra que passara sete séculos sob domínio árabe. O contato com o embaixador do Marrocos com quem travaria conhecimento através dos círculos diplomáticos será essencial para incrementar suas ideias e influenciar sua literatura, afinal, é nas longas conversas com ele que o autor polonês irá ouvir narrativas de sabor oriental.

 

Começa, então, por volta de 1794, a escrever em francês o seu romance, deixando-o de lado alguns anos mais tarde, para retomá-lo em 1804 e, novamente interrompendo-o até 1810, quando finalmente o levará até a sua conclusão em 1815, ano em que dará cabo de sua vida.

 

Na obra, encontra-se uma mescla de relatos picarescos e assombrosos que vão se intercalando como a complementar a linha narrativa adotada pelo autor, ou seja, tudo sob a ótica da personagem de Alphonse, um oficial francês que compartilha com o leitor tudo o que viu e ouviu em seu périplo espanhol. Curiosamente, sendo Potocki um homem de ideias iluministas, cada passagem que remete ao sobrenatural encontrará na razão uma explicação plausível sem, no entanto, desprender-se daquele fio tênue entre a realidade e a imaginação.

 

O Manuscrito de Saragoça, cujos originais em francês perderam-se após a morte de seu criador, anos depois, teve uma versão circulando entre outros escritores que a teriam plagiado. Por sorte, o manuscrito já havia sido publicado — apenas a primeira parte — pelo próprio autor, por volta de 1805, numa tiragem de apenas cem exemplares, em São Petersburgo, e os plágios — principalmente aquele perpetrado por Maurice Cousin (sob pseudônimo de Conde de Couchamps) que o publicara como se fossem as memórias apócrifas do lendário Conde Cagliostro, em 1834 — seriam desmascarados.

 

A versão integral de O Manuscrito de Saragoça só seria publicada em 1847 em Leipzig, com o título definitivo de “Manuscrito encontrado em Saragoça”. Justamente esse texto traduzido para o polonês é o que sobreviveu a tanta vicissitude e que chegou até os dias atuais, situando a obra do conde Jan Potocki entre os grandes clássicos da literatura fantástica de todos os tempos, e seu autor como uma das figuras mais curiosas e intensas do mundo literário.

 

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Adaptado do texto “O inquieto Jan Potocki”

*Rodrigo Ruiz é professor de História e pesquisador, morando atualmente em Itapira, interior de São Paulo.