Literatura com Pedro Bandeira

Presença marcante na Bienal Internacional do Livro desde 1984, Pedro Bandeira não se cansa da maratona de eventos literários em diversas partes do País

Por Dario Chaves e Mariana Barros Ferreira Chaves | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

Pedro Bandeira queria se tornar ator profissional de teatro em São Paulo. Mas sem conseguir viver de teatro – o que era agravado pela censura e perseguição do regime militar –, acabou recorrendo ao seu talento para escrever. Acabou ingressando no jornalismo, que “também pagava pouco, mas pagava todo mês.” Ele fez vários comerciais para TV e chegou a participar de um programa das tardes do Canal 3 (PRF-3 TV Tupi – Difusora) “no tempo que a TV ainda era em preto e branco”. Quando lançou seu primeiro livro infantil, descobriu que tinha jeito e não parou mais. Para poder escrever com maior segurança para o público jovem, estudou psicologia da educação e hoje dá palestras sobre o assunto. Estivemos com ele no estande da editora Moderna, durante a Bienal do Livro de São Paulo 2016, onde fizemos a entrevista a seguir.

 

Plínio Marcos oi autor de diversas peças de teatro, escritas principalmente na época do regime militar. Foi também ator, diretor e jornalista. | Foto: Reprodução Internet

Literatura: Antes de se tornar escritor, você estudou Ciências Sociais, mas na área de texto começou mesmo como jornalista. Conte um pouco sobre esse período.

Pedro Bandeira: Comecei durante a época do golpe militar. Foi um momento muito difícil, com a censura à imprensa, e eu trabalhava onde tinha oportunidade, fazendo até revistas técnicas…

 

Literatura: O senhor sentiu na pele um pouco desse período de censura?

Pedro Bandeira: Muito! Quando a ditadura militar começou, eu estava iniciando a vida adulta. Quando a ditadura foi embora eu já estava ficando velho. Então, todo meu tempo de jovem adulto foi sob censura. Inclusive uma das razões pelas quais me afastei do teatro foi a censura ao teatro. Foi muito pesada. Eu era muito amigo do Plínio Marcos, e fui um dos primeiros a editar peças dele. Havia um sadismo por parte da censura, porque o censor sentava na redação do jornal e ele era a última palavra do que sairia ou não no jornal. Quando ocorreu o golpe militar, eu trabalhava no jornal “A Última Hora”, que foi fundado pelo jornalista Samuel Wainer para apoiar Getúlio Vargas. E quando veio o golpe militar, ele foi fechado. Eu estava na redação do jornal quando o CCC [Comando de Caça aos Comunistas] passou e metralhou as vidraças. Meu grande sucesso “A Droga da Obediência” é um livro que, metaforicamente, trata da censura. Quando eu o escrevi, ainda estávamos vivendo a censura [o livro foi lançado em 1983 – nota do editor].

 

Literatura: Escrever para crianças e adolescentes é diferente do que escrever para adultos. Como se consegue conversar com esse público?

Pedro Bandeira: Não é brincadeira! Literatura dirigida para leitores mais jovens é outra coisa. Porque se eu escrevo para crianças, tem a ver com educação. Se eu quero falar com alguém de oito anos, eu tenho que saber quem é esse leitor de oito anos. Qual a diferença entre ele e um menino de dez anos? Ou um menino de 14? Ou uma menina de 12 e uma menino de 12? São diferentes!! A menina amadurece antes do menino. A puberdade das meninas chega cerca de dois anos, em média, antes da dos meninos. Então tudo isso é importante saber na hora de fazer um livro. Você adapta a linguagem de acordo com seu interlocutor. Escrever para leitores dessa idade é uma delícia! Ficar inventando coisas, ficar imaginando como uma menina de 14 anos se sente ao ficar apaixonada por um menino de 15… O que passa na cabecinha dela? O que passa no coraçãozinho dela? Como eu fiz em “A hora da verdade”, que tem uma menina “mordida” de ciúmes pela colega que namora o garoto que ela gostaria de namorar… O que passa na cabeça dela? Aí você cria uma vilã! É um desafio!

 

 

 

Literatura: A internet, na sua opinião, mais ajuda ou mais atrapalha a venda de livros? Ou quanto ao hábito das pessoas de ler livros…

Pedro Bandeira: A tecnologia… as invenções humanas só surgem para melhorar a vida humana. Quando os irmãos Wright inventaram o avião – embora a gente considere que seja Santos Dumont o inventor do avião –, ele não acabou com o navio. Quando o rádio surgiu, ele não acabou com o jornal. Quando a TV surgiu, ela não acabou com o rádio. O rádio é uma coisa importantíssima. O jornal, seja na internet ou no papel, é fundamental. Eu tinha uma Enciclopédia Britânica em casa… com sei lá quantos volumes, pesando uma tonelada! E se eu quisesse saber a população da Hungria, eu encontrava um verbete que havia sido impresso há 40 anos. Agora com a internet eu consigo saber a população da Hungria na hora. Então isso que falam que a internet vai acabar com o livro… Uma coisa que não deu certo foi o e-book. Porque o leitor prefere sentar [com o livro na mão para ler]. O e-book é bom para um livro didático. Você pode ter o livro no tablet, ali, tudo atualizado. Agora um livro de ficção… Vai ler a Odisseia no tablet? Não vai… Nada vem para destruir o anterior. O único caso foi o computador, que destruiu a máquina de escrever. E a informática, que destruiu o linotipo…

 

 

Literatura: Se os pais não têm noção de dar valor ao conhecimento, como eles vão passar isso para um filho?

Pedro Bandeira: O filho vai com má vontade para a escola e esse é um grande problema. Os bons alunos são os que têm a família mais equilibrada. E os alunos com problemas são aqueles que têm a família que não são bem equilibradas. Tudo isso passa pela família. Que tem a ver com a nossa História. O Brasil foi colonizado por homens da pior qualidade da Europa, que vinham aqui sem mulher, e que então usaram as índias e as negras para produzir o povo brasileiro. Os Estados Unidos foram colonizados por famílias que tinham de fugir da Inglaterra ou da Alemanha, da Suécia… trazendo sua cultura, seus livros, seu professor, seu pároco ou pastor… com a sua cultura! Nós, não. O “piratão” que vinha para cá não trazia consigo a cultura europeia. E tinha também a questão de a coroa portuguesa ter todo o Brasil, dando grandes áreas de terra apenas para alguns, o que formou os primeiros latifúndios. E o pobre só podia trabalhar como empregado desse latifúndio. Nos EUA, não. A terra em que ele [o colonizador americano] ia trabalhar com a família era dele. A Inglaterra não estava interessada em ter a terra e sim cobrar imposto sobre o que se produzia. Então já nasceram com a ideia de produção e de liberdade. E como eram protestantes, era obrigatório ler a Bíblia, então todos lá aprendiam a ler. Aqui [no Brasil] não, o católico não tinha acesso à Bíblia, então ler para quê? São essas diferenças culturais que temos superar ainda hoje. Mas o Brasil está muito melhor agora. Se comparamos o Brasil dos anos 1940 com o Brasil de hoje, melhoramos muito.

 

Literatura: Como é, para o senhor, saber que mesmo depois de tanto tempo de publicados, seus livros ainda fazem sucesso com os jovens atuais?

Pedro Bandeira: É um prazer fantástico saber que a nova geração está tendo contato com meus livros. Isso é uma realização para mim. Quando escrevi os primeiros livros, não havia ainda o celular, não havia a internet, não havia computador. Quando os meninos precisavam telefonar [fora de casa], tinham de ir a um telefone público, com uma fichinha metálica. Hoje não existe mais isso. Mas o leitor de hoje está pouco ligando para isso [para essas evoluções] porque o texto trata de sentimentos humanos. Isso não muda. Daqui a mil anos serão os mesmos sentimentos. A Isabel sempre vai querer namorar o Cristiano [no livro “A Marca de uma Lágrima”] e ele vai sofrer com isso. E são os mesmos sentimentos de há mil anos. Essa é uma verdade humana e é isso [os sentimentos] que está nos meus livros. Hoje o livro vende mais do que quando foi lançado!

 

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