Ler para ser crítico

Diga-me o que e como lês que te direi quem és

Por Cláudia S. Coelho* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Por que não levar para a sala de aula a discussão de temas relevantes da atualidade, como as manifestações que se iniciaram em junho de 2013? Por que não trabalhar temas transversais como ética, cidadania, meio ambiente, direitos e deveres? Por que não investir na formação do ser consciente e crítico?

 

Para isso, no entanto, o professor deve abrir mão de sua postura passiva de mero transmissor de conteúdos, imbuir-se de idealismo – artigo tão em falta no “mercado” de hoje em todos os níveis – e assumir o papel de formador, estimulando o aluno à reflexão por meio do hábito da leitura.

 

Uma das formas para que isso possa ser feito é trazer para a sala de aula textos relevantes sobre temas da atualidade e incitar os alunos à discussão, assumindo o papel de mediador. Não é tarefa fácil, demanda pesquisa, antes de tudo dedicação, mas é imprescindível para a formação do cidadão.

 

Poesia para quê?

 

Quanto às aulas de literatura, por que não começar falando sobre a vida de Machado de Assis, contextualizá-lo, explicando o papel relevante que teve em sua época para aproximar o leitor do escritor e só depois disso introduzir alguns de seus contos como “O Espelho”, “a Cartomante”, que são mais palatáveis para quem não tem o hábito da leitura, e discutir seu conteúdo em aula antes de pedir para os alunos lerem “Dom Casmurro”? Por que não apresentar crônicas de Ricardo Ramos, que são atemporais, textos de autores novos, literatura fantástica… o céu é o limite.

 

Nada contra estimular os alunos a ler “Dom Casmurro”, “Memórias de um Sargento de Milícias”, mas se não houver um trabalho de base, obviamente uma minoria terá a vontade e a paciência de ler esses romances até o fim. A grande maioria irá procurar no Google um resumo das obras, os quais servirão para o “trabalho escolar”.

 

Por que não levar para discussão, em classe, matérias jornalísticas que versem sobre algum assunto atual e apresentem diferentes pontos de vista, estimulando, assim, a arte do debate, tão propalada em escolas da Inglaterra? Infelizmente, de acordo com minha experiência, a diferença de opinião ainda não é vista como forma de ampliar nossa visão de mundo, mas, sim, como embate, em que um ponto de vista deve prevalecer sobre o outro. Por não ter uma resposta na “ponta da língua”, sempre fico receosa quando me perguntam qual o futuro que vislumbro para nossa educação.

 

O Casmurro Bentinho

 

 

 

Refletir sobre o conhecimento e os processos cognitivos levam à formação de um leitor que forma relações com um contexto maior, um leitor que descobre e infere informações mediante estratégias cada vez mais flexíveis e originais. Há que se ter em mente que compreender um texto escrito não é apenas um ato social, mas, sim, um diálogo entre leitor e autor.

 

Portanto, é de extrema importância, em termos educacionais, conhecer e escolher a “fonte” adequada e preparar os “depositários” para absorver o conteúdo transmitido. Caso contrário, os ditos “formadores de opinião” terão um terreno fértil no qual jogarão sua semente e esta será absorvida sem qualquer questionamento.

 

 

Caso tivesse de dar uma sugestão para as escolas estimularem o trabalho feito em sala de aula, proporia que mantivessem uma biblioteca circulante com livros para alunos de todas as idades e buscassem parcerias com editoras para oferecer aos alunos literatura de qualidade a preço acessível. Propiciar aos jovens contato com histórias como as de Monteiro Lobato, as quais incentivam a descoberta do universo mágico e desenvolvem a imaginação, deveria ser obrigação de toda escola.

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*Cláudia S. Coelho é graduada em Letras e especialista em Psicopedagogia e Tradução. Contato: claucoelho@uol.com.br

Conhecimento Prático – Literatura Ed. 53

Adaptado do texto “Desabafos de uma professora que acredita ser a leitura um dos elementos primordiais na formação do ser crítico”