Ler para crescer

Por Josele Teixeira* e Liliane Nunes** | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O presente artigo tem por objetivo analisar a importância da literatura infantil para o desenvolvimento social, cognitivo e afetivo das crianças na primeira infância. Neste sentido, acreditamos que as histórias infantis têm suma importância para o momento de aquisição da escrita, uma vez que não há necessidade de esperar pela alfabetização formal para que as crianças se envolvam com a leitura de histórias infantis e a produção de textos.

 

Para Bakhtin (2003), a literatura infantil pode ser percebida como um instrumento motivador e desafiador, capaz de transformar o indivíduo em um sujeito ativo, responsável pela sua aprendizagem, que sabe compreender o contexto em que vive e modificá-lo de acordo com a sua necessidade.

 

Neste sentido pode-se dizer que a literatura promove uma interação verbal, uma vez que ao ouvir ou ler uma história nossos sujeitos aprendentes são capazes de comentar, refletir ou discutir sobre a mesma. Ocorre assim um “confrontamento de ideias, de pensamentos em relação aos textos que acontece sempre por meio de um caráter coletivo, social”. Por isso, a mesma não deve nunca ser reduzida a uma concepção meramente didatizante ou ao aposto disso, a uma ferramenta simplista que serve somente para acalmar a turma quando está agitada. Para tanto, importa ressaltar que a cada reconto os discentes sinalizam infinitas possibilidades de produções criativas de novos significados. Pois:

“…não são palavras que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importante ou triviais, agradáveis ou desagradáveis etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial”. (BAKHTIN, 1988 a p.95)

 

Neste contexto, hoje percebemos que o trabalho com a literatura infantil deve ampliar o viés da contação de histórias, pois existem diversas formas de se trabalhá-la, na medida em que podemos nos utilizar de diversos gêneros como filmes, dramatizações, teatros, leitura de livros de imagem, encenações, brincadeiras, manuseio de livros pelos próprios alunos etc.

 

Neste sentido, e com base nas contribuições bakhthinianas, defendemos a ideia de que a seleção do gênero não é totalmente espontânea, uma vez que considera a relação entre os envolvidos, quem está falando, para quem está falando, por que fala e sobre o que fala. Por exemplo, ao desejarmos contar sobre um episódio que ocorreu na escola, fazemos uso de gêneros narrativos, já quando instruímos alguém sobre como fazer um bolo, fazemos uso de gêneros instrucionais.

 

Interesse em aprender

Partindo dessas premissas pode-se perceber que incorporar a leitura/contação de histórias na rotina diária das turmas de Educação Infantil faz com que as crianças desenvolvam naturalmente um interesse em aprender determinadas histórias e a reproduzi-las oralmente, como se estivessem lendo.

 

Hoje, também percebemos que outra rotina de suma importância é permitir que os alunos tenham contato com o livro, desse modo, as cirandas de livro (momento em que vários livros são distribuídos aos alunos) para que estes folheiem e recontem ao amigo as histórias que estão visualizando, também são estratégias que fazem a diferença. O livro precisa estar acessível às crianças em um ambiente cujo clima favoreça a leitura, as escolhas e as interações.

 

 

 

Outro aspecto que merece destaque refere-se ao caráter didatizante que atribuímos à literatura infantil, pois é muito comum a crença de que depois que acabar a história é bom fazer algum tipo de trabalho com os alunos, como desenhos, pinturas etc. Porém, acreditamos que devemos nos atentar para tais procedimentos que podem, mesmo que de forma inconsciente tirar o encantamento da literatura infantil. Claro que recontos, desenhos, são ferramentas que podem auxiliar o professor, mas o mais importante, acreditamos, seja realizar um trabalho que faça o aluno estabelecer uma interação verbal com o texto.

 

Quanto à seleção dos livros utilizados em nossa rotina cabe assinalar que, hoje, percebemos a necessidade de levar em consideração alguns itens como a pertinência do tema, a elaboração da linguagem literária e a ilustração. Afinal, como bem destaca Andrade e Corsino (2007, p. 8):

“Uma seleção que vise a qualidade supõe algumas indagações como: que voz está se dirigindo à criança? Como se dirige? Que assuntos e temas são abordados, como são e com que objetivos? Como o texto está estruturado? Como texto, ilustração e projeto gráfico se complementam e ampliam as possibilidades de leitura? Que livros e histórias podem nutrir a criança pela vida afora? Quais os que se reduzem a meros produtos de consumo imediato?”

 

 

 

Neste sentido, cabe enfatizar que devemos romper com a concepção histórica e ainda hegemônica que privilegia temas da literatura infantil que prezem por um viés moralizante e educativo, que visa somente inculcar valores, mudar comportamentos ou informar as crianças sobre os mais diversos assuntos, através de histórias e personagens do mundo ficcional.

 

 

Olhar crítico

Temos percebido, então, por meio do olhar crítico de professores e pesquisadores que as histórias infantis não servem apenas para distrair ou acalmar uma turma, elas carregam muito mais conhecimentos do que se imagina, estando aí presentes o conhecimento da leitura e da escrita. Além da função social de comunicação da nossa língua.

Partindo desses pressupostos, repensar sobre o momento da literatura infantil nos fez recordar as palavras de Corsino e Mattos (2012) que evidenciam a necessidade de ler para as crianças, não como um mero passatempo, mas como uma ferramenta poderosa na formação humana, social e subjetiva que pode promover a criatividade e o letramento.

 

 

*Josele Teixeira é pedagoga, psicopedagoga e especialista em Alfabetização e em Administração e Supervisão Escolar, Atua como professora em Universidades Particulares do RJ, como supervisora educacional e professora da PCRJ. Autora dos livros Avaliação Escolar: da Teoria à Prática; Avaliação Inclusiva e Alfabetização: Compartilhando Teorias e Práticas.
**Liliane Nunes é pedagoga, especialista em Políticas Públicas, em Administração e Supervisão Escolar. Atualmente, é professora e coordenadora pedagógica da PCRJ. Autora dos livros Avaliação Escolar: da Teoria à Prática; Avaliação Inclusiva e Alfabetização: Compartilhando Teorias e Práticas.

Adaptado do texto “Estabelecendo reflexões sobre a importância da literatura infantil”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 63