Leitura e ampliação do vocabulário

Fator Fundamental do Processo Ensino-Aprendizagem

Por Por Fabiano Fernandes Garcez* e Cláudia S. Coelho** | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A princípio, a leitura era vista, como ainda o é por grande parte dos jovens leitores, como um mero processo de captação de ideias: o texto visto como produto acabado – lógico – do pensamento do autor, cabendo ao leitor desempenhar o papel passivo de apreender as ideias do texto. Hoje, sabe-se que a compreensão de um texto é muito mais do que isso, pois envolve conhecimentos linguísticos, sociocognitivos e interacionais. E o que isso implica?

 

Para que um texto seja, de fato, assimilado, há de haver o reconhecimento do sentido das palavras e estruturas do texto. A partir de então, o leitor estará pronto para, com base em seu conhecimento de mundo, estabelecer relações, fazer inferências, comparações e elaborar hipóteses. Essa ação cria um “diálogo” entre autor e leitor, estabelecendo, por fim, a interação autor-leitor-texto. E o reconhecimento do vocabulário contribui muito para esse processo.

 

Como exemplo, podemos citar o primeiro verso da canção O Bêbado e a Equilibrista (1979), composta por João Bosco e Aldir Blanc, que foi sucesso na voz de Elis Regina:  “Caía a tarde feito um viaduto.”O que os compositores mostram era que a tarde caía abruptamente, tal qual parte do Viaduto Paulo de Frontin, que desabou no Rio de Janeiro em 1971. O leitor desavisado leria o verso acima sem entendê-lo e, sem mais, passaria para o seguinte a não ser que lhe fosse chamada atenção a tal fato.

 

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Portanto, é imprescindível que a ampliação do vocabulário do aluno faça parte do processo educativo, pois quanto maior o vocabulário, maior a possibilidade de compreensão da leitura; quanto maior o vocabulário, mais amplo o repertório de conceitos.

 

Da teoria à prática

O professor, enquanto facilitador do processo de aprendizado de vocabulário, deve contribuir para que o aluno desenvolva noções de:

  • Competência lexical, que, grosso modo, consiste no conhecimento e na capacidade de utilizar o vocabulário de um determinado idioma e compreende elementos lexicais e gramaticais, o que leva o educando a compreender que o desenvolvimento do vocabulário é um processo contínuo;
  • Processo formação de palavras: conhecer uma palavra implica conhecer suas formas subjacentes e derivações;
  • Relação de sentido entre palavras: conhecer uma palavra implica saber suas limitações de uso de acordo com sua função e comportamento sintático, valor semântico e situação de uso;
  • Relação de significado e uso das palavras: conhecer uma palavra implica saber o grau de probabilidade de encontrá-la e as formas mais prováveis de associação a outras palavras da língua, além do conhecimento da sinonímia, antonímia e polissemia.

 

Cabe suscitar em seus alunos o interesse pela etimologia: do grego étumon: ‘o verdadeiro significado da palavra segundo sua origem’, o que o levará a, além de entender o sentido subjacente dos vocábulos que compõem nossa língua, ter uma melhor compreensão do processo de formação de palavras.

 

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É importante que ele também mostre ao aluno/leitor que muitas vezes é possível determinar o significado de uma palavra desconhecida no decorrer do texto ou pelo contexto. Mas para tal, o aluno precisa ter conhecimento ou experiência prévia do assunto em questão e cabe ao professor auxiliá-lo. Para tal, proponho algumas estratégias:

 

  • Fazer um mapeamento semântico: com o propósito de ativar o conhecimento prévio do aluno sobre determinado tema;
  • Organizar diferentes conceitos em categorias e subcategorias, o que permite a visualização de relações;
  • Fazer um arranjo linear, elencar vocábulos em uma progressão crescente
    de intensidade.
  • E caso o assunto tratado no texto não faça parte do universo dos alunos, apresentar de antemão material relevante e suficiente, de forma que estes se familiarizem com o tema a ser abordado.

 

Por fim, é de suma importância que o professor/facilitador mostre aos alunos que quanto mais sentidos uma palavra tiver, menos precisa ela é. Assim, “veículo”, por exemplo, tem uma extensão grande demais de significados, porque abrange automóvel, caminhão, van, ônibus, bicicleta, velocípede, motocicleta, motoneta, lambreta, etc. Já “ônibus” tem uma compreensão maior, porque tem um sentido mais específico, menos extenso. Em outras palavras, quanto maior a compreensão de uma palavra, menor a sua extensão e vice-versa. Quem diz que uma coisa é bacana não está sendo preciso, porque bacana pode significar boa (uma ação bacana), bonita (uma mulher bacana), bem-feita ou agradável (uma casa bacana), etc. Da mesma forma, é importante usar o termo com propriedade. Um navio não tem traseira, mas popa; não tem frente, mas proa; não estaciona, mas atraca. Uma bicicleta não tem volante, mas guidom.

 

E é preciso enfatizar que o conhecimento do vocabulário adequado só é conseguido por meio da leitura. Convém acrescentar que em situações que demandem que a mensagem seja emitida de modo claro e preciso, o uso de palavras que dão margem a inúmeras interpretações deve ser restrito e que, em determinadas situações, é melhor ser redundante do que mal interpretado.

 

Apresentamos como exemplo a situação abaixo, um caso real, que vale ser citado em sala de aula:

Em uma negociação importante entre dois empresários, foi encaminhado um e-mail para uma das partes. Como a pessoa que deveria ler o e-mail em questão não se encontrava em seu escritório e fora requisitado que o recebimento das mensagens eletrônicas fosse acusado assim que estas fossem recebidas, a prestativa secretária abriu o e-mail, não leu seu teor e respondeu, “Ok”. Mal sabia ela que havia uma pergunta embutida no corpo deste. Do outro lado, compreendeu-se que este “Ok” significava dois “Oks”: um acusando o recebimento da mensagem, outro respondendo “sim” à pergunta que fora feita (à qual a resposta teria sido “não”). Esse mero “Ok”, que nesse caso não teve nada de mero, deu margem a muitas desavenças.

 

Esse caso, apesar de aparentemente não ter nada de extraordinário, pode ser usado em sala de aula para tópico de discussão de várias questões, como: Teria sido o “Ok” da secretária condizente com o contexto?, Não deveria ele ter sido substituído por um “recebido”?, Qual seria a origem da expressão “Ok” (ver hiperlink)?, Qual a importância da linguagem corporal e suas implicações culturais (a diferença de sentido entre o símbolo “OK” expresso com os dedos nos Estados Unidos e seu significado no Brasil)?, etc.

 

É óbvio que a discussão acima não pode ser usada em uma sala do Ensino Fundamental, portanto vamos apresentar uma sugestão de um modelo de aula para o 7º ano do Ensino Fundamental II, o qual pode ser adaptado a qualquer material didático:

 

O professor, primeiramente, lê em voz alta um texto como Aos vinte anos, de Aluísio Azevedo [da série Para gostar de ler – volume 10 – Contos], enquanto os alunos acompanham a leitura do texto por meio do livro. É importante que nesse momento o professor utilize recursos teatrais, como diferentes inflexões de voz, pausas de efeito, para suscitar a curiosidade do aluno e prender sua atenção.

 

Em seguida, ele pede aos alunos que grifem os vocábulos desconhecidos e, depois, que cada um “desvende” seu significado pelo contexto ou por meio de seus conhecimentos prévios. “Gaiteiro” é um dos termos cujo sentido é facilmente percebido pelo contexto. O professor, então, elenca algumas palavras do texto e pede aos alunos que as classifiquem, apresentem sinônimos, antônimos, formulem frases e, por fim, ele elabora questões voltadas à compreensão do texto, com base no vocabulário, como as do exemplo abaixo:

José Bento Furtado, marido de Ester, é assim imaginado pelo narrador-personagem antes do encontro entre eles:

“Maldito tutor dos diabos! Velho gaiteiro e libertino! Ignóbil maluco (…), monstro (…)! (…) miserável!”

Que ideia o leitor pode ter de José Bento com base nestas palavras?

O que levou o narrador-personagem a caracterizar José Bento dessa maneira?

 

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Espera-se que os alunos respondam à primeira questão levando em conta as palavras que indicam que a personagem principal é uma pessoa desprezível e sem escrúpulos. Na segunda, que os alunos percebam que o narrador-personagem sentia ódio por José Bento impedir seu amor e que esse ódio se torna claro na crescente intensidade dos termos usados pelo narrador ao se referir ao rival (Velho gaiteiro e libertino! Ignóbil maluco (…), monstro (…)! (…) miserável!).

 

A diversidade de atividades que podem ser criadas para motivar o aluno a ampliar seu vocabulário é ilimitada. Brincar com um texto, pedindo ao aluno que o reescreva em diferentes registros, imaginando, quem sabe, que ele está vivendo em outro período histórico, é um dos exemplos de exercícios que estimulam a imaginação e a criatividade dos alunos – atividades lúdicas cujos benefícios não se pode mensurar. Nosso propósito não foi apresentar receitas de bolo, mas sim despertá-lo para um universo que, em época de prevalência da tão propalada “linguagem cibernética”, se tornou nossa obrigação como educadores explorar.

 

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*Fabiano Fernandes Garcez é professor de língua portuguesa, é autor dos livros Poesia se é que há (2008), Diálogos que ainda restam (2010) e Rastros para um testamento(2012). Foi jurado pela cidade de Guarulhos da fase municipal do Mapa Cultural Paulista – Edição 2009/2010 (Poesia). Blog:http://fabianofernandesgarcez.blogspot.com.br/

**Cláudia S. Coelho é graduada em Letras e especialista em Psicopedagogia e Tradução. Blog: http://ritualdoalimento.blogspot.com.br. E-mail: claucoelho@uol.com.br

Conhecimento Prático – Literatura Ed. 54

Adaptado do texto “Leitura e ampliação do vocabulário”