Leitura e a aprendizagem de valores morais

Por Júlio Furtado* | Adaptação web Caroline Svitras

 

“Era uma vez uma cigarra que tendo somente cantado durante o verão, apavorou-se com o frio do inverno. Sem mosca ou verme para se alimentar, com fome, foi ver a formiga, sua vizinha, pedindo-lhe alguns grãos para aguentar até vir uma época mais quentinha! ‘Eu lhe pagarei’, disse ela, ‘Antes do verão, palavra de animal, os juros e também o capital’. A formiga não gosta de emprestar, é esse um de seus defeitos. ‘O que você fazia no calor de outrora?’, perguntou-lhe ela com certa esperteza. ‘Noite e dia, eu cantava no meu posto, sem querer dar-lhe desgosto’. ‘Você cantava? Que beleza! Pois, então, dance agora!”

 

A história de A cigarra e a formiga foi, dessa forma, recontada por Jean de La Fontaine (escritor francês que viveu no séc. XVII). A moral dessa história, conhecida por todos nós, é que todas as ações geram consequências. No verão, enquanto a cigarra se divertia, a formiguinha trabalhava muito. Mas, no fim, o esforço da formiga é compensado pela fartura e a cigarra, que não se preparou, ficou sem ter o que comer.

 

As fábulas, estórias em que os personagens são animais que apresentam características humanas e terminam com um ensinamento moral de caráter instrutivo conhecido como “moral da estória”, são o mais típico exemplo da leitura a serviço da aquisição de valores morais. A expressão valores morais refere-se ao conjunto de princípios necessários para que pratiquemos ações no sentido de termos uma vida social saudável. Ou seja, são os princípios que me fazem levar o outro em conta em minhas ações. Não pegar o que não me pertence sem autorização, não invadir a propriedade alheia e aguardar a vez numa fila são ações que retratam a presença de valores morais. Em oposição, temos os valores não morais, que ao contrário do que muitas pessoas pensam, não são os que desrespeitam ou não levam em consideração os direitos dos outros. Valores não morais são aqueles que não dizem respeito a princípios diretamente ligados ao nosso convívio com o outro, como andar na moda ou não repetir roupas, por exemplo.

 

Contos de fadas na formação moral humana

 

A aprendizagem de valores ainda se apresenta como um dos maiores desafios ao processo educacional e a leitura é uma fonte rica de estratégias. A Psicologia Moral nos traz algumas contribuições fundamentais nesse sentido. Já se sabe, por exemplo, que a aprendizagem de valores morais é mais eficaz através do processo vivencial e a leitura nos proporciona essa vivência emocional através das viagens imaginárias nas quais mergulhamos quando nos deixamos levar por uma história envolvente. Quantas vezes derramamos lágrimas pela experiência vivida pela personagem ou nos revoltamos com as consequências de determinada atitude. Essas vivências, mesmo que imaginárias, mobilizam nosso sistema de aprendizagem emocional ao ponto de não ser fácil distinguirmos uma experiência real de uma fantasiosa, guiada por uma boa história. Longas lições objetivas sobre como devemos nos comportar precisam ser acompanhadas, de preferência, de situações conflituosas que desenvolvam certa afetividade pelos princípios morais de forma que escolhamos nos comportar bem, mesmo “perdendo” em determinadas situações (como por exemplo, falar a verdade mesmo quando sabemos que as consequências não serão agradáveis). Esse confronto entre a lição objetiva e a situação conflituosa pode ser facilitado através da leitura.

 

A Psicologia Moral nos ensina que precisamos desenvolver um sentimento de autovalorização ao sermos fiéis aos princípios morais, mesmo que esses não nos tragam as vantagens tão apregoadas e incentivadas no mundo atual. Grosso modo, podemos dizer que valores são princípios revestidos de afetividade e consideração.

 

 

A leitura, assim como o cinema, sempre foi um ótimo caminho para a aprendizagem e para a reflexão sobre nossos valores. Na infância, histórias bem estruturadas podem servir de suporte à construção de princípios fundamentais à aprendizagem do comportamento ético. Da mesma forma, um bom livro pode desencadear uma quebra de paradigmas axiológicos que, por sua vez, pode culminar na mudança de valores.

 

As crianças e jovens precisam especialmente ser acompanhadas no percurso de suas leituras quando objetivamos o desenvolvimento de valores morais. Esse acompanhamento por parte de pais e professores deve ocorrer no sentido de potencializar os bons exemplos e levantar reflexões com relação aos maus exemplos. É preciso uma análise minuciosa do contexto e das ações dos personagens e uma reflexão constante sobre os princípios morais que as guiam.

 

Discutir as atitudes do Gato de Botas de levar vantagem em tudo e a ação de Joãozinho que, após subir o pé de feijão, invade o castelo do gigante, rouba sua galinha dos ovos de ouro e o mata no final da estória é atitude igualmente necessária para aproveitarmos ao máximo o potencial da leitura como fonte de aprendizagem e desenvolvimento de valores morais, tão necessários e urgentes nesses tempos líquidos, dinâmicos, virtuais e impessoais.

 

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Fotos: Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56

*Júlio Furtado é educador, escritor e palestrante. Autor do livro “Aprendizagem significativa modalidades de aprendizagem e o papel do professor” (Editora Mediação, 2008). Contatos pelo site: www.juliofurtado.com.br

Adaptado do texto “Leitura e a Aprendizagem de Valores Morais”