Lecionar me ensinou a ler

Por André da Cunha* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A preocupação suprema dos professores de Literatura, em especial os novos, que ainda não foram vencidos pelo cansaço, sem dúvida é colocar os livros nas cabeças de seus alunos, convencê-los de que ler é mesmo tão bom quanto prometemos. Recorremos às mais diversas metodologias e fazemos verdadeiros malabarismos para aproximar a literatura obrigatória de vestibulares da vida de alunos que normalmente não leem nada além de um status do Facebook ou uma atualização do Twitter.

 

O que venho notado, porém, é que a solução para tal empreitada pode ser muito mais simples do que pensamos: quanto mais eu tento convencer meus alunos de que ler é bom, de que ler nos permite viajar, mais fundo mergulho nos meus livros e descubro neles coisas que jamais teria notado se não tivesse que explicá-los para outras pessoas, para uma sala repleta delas. Precisar criar pontes literárias e desmontar metáforas para não apenas torná-las mais compreensíveis, mas para deixar claro o caminho que o escritor percorreu para construí-las, faz dos meus livros muito mais trabalhosos e, por isso mesmo, transforma tudo aquilo que repito aos meus alunos (“Leiam, é importante”) em verdade.

Criando aulas memoráveis

 

Eu sempre soube que ler era importante e enriquecedor. Mas agora tenho argumentos. Posso dizer que enfrentar páginas que parecem intermináveis e procurar uma maneira de explicá-las sem tirar delas a magia me faz enxergar truques antes insuspeitos. A faculdade e a prática profissional muitas vezes nos engessam, fazendo com que leiamos textos clássicos pensando em palavras-chave – como associar Machado de Assis imediatamente a ironia –, e no fim tentamos insistir que a leitura enobrece sem lembrarmos mais como é que isso acontece.

 

Ler para crescer

 

Dando aula percebi que ler é transpor caminhos e dialogar com as possibilidades do texto literário, não apenas o que parece óbvio a quem tem um grande embasamento teórico, mas de uma forma livre, desimpedida. É a liberdade e a falta de regras inerentes à literatura que atrairão jovens para o mais divertido e enriquecedor exercício que poderão praticar. E temos que perceber isso se queremos dividir o segredo com nossos alunos.

 

*André da Cunha é formado em Letras – Português e Inglês pela PUCRS e professor na rede estadual do Rio Grande do Sul.

Adaptado do texto “Ensinar literatura me ensinou a ler”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 49