John Green e a morte

Em uma cultura cada vez mais voltada para o imediatismo, os livros voltados para adolescentes e jovens adultos tendem a se conformar em fórmulas prontas de amores possíveis e finais óbvios, que parecem trazer a felicidade como uma receita a ser seguida. Nesse contexto, é surpreendente o quanto John Green consegue quebrar estes padrões

Por Janaina M. Cerutti* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Nos últimos anos a literatura para adolescentes e jovens adultos parece ter entrado em uma certa conformidade regrada de estrutura. Mesmo as mais surpreendentes e bem escritas obras, como, por exemplo, Jogos Vorazes, que se tornaram populares com os mais jovens, passando por aquelas extremamente populares, mesmo que sem tanto valor literário, como a trilogia Crepúsculo, encaixam-se em um padrão de tentar surpreender seu leitor com diferentes desfechos, com amores improváveis e motivações que levam o leitor e indagar qual será seu fim, curioso por saber sua resolução.

 

Lendo a obra de John Green, no entanto, nos damos conta de que nem sempre a surpresa, o plot twist, aquele momento de mistério sendo desvendado é o que nos dá prazer na leitura, ou o que torna a obra mais rica.
Ao abrirmos Looking for Alaska (Quem é Você, Alasca?, em português), ou The Fault in Our Stars (A Culpa é das Estrelas, no título brasileiro), ao conhecermos seus personagens e suas histórias, até mesmo ao lermos os nomes de seus capítulos, percebemos muito facilmente o fim, o destino de cada uma das pessoas fictícias criadas pelo autor.

 

E, ainda assim, as suas obras ainda conseguem tocar seus leitores de maneiras que muitos livros com finais surpreendentes jamais conseguirão.

 

 

Looking for (your heart in) Alaska

Looking for Alaska (Quem é você, Alasca?) é um livro que mostra a seu leitor seu fim intuitivamente desde o seu começo. Dividido de uma maneira clara em duas partes, nomeadas como Before (antes) e After (depois), e contando dias antes do acontecimento principal do livro, não nos surpreende em nada quando a personagem chamada Alaska morre exatamente no centro do livro.

Juventude e a literatura

 

Saber disso, no entanto, não modifica a estrutura do livro, ou o quanto ele toca seu leitor – pelo contrário, conforme a história se desenvolve, percebemos que a morte de Alaska é inevitável. Ela irá acontecer, e a contagem regressiva até seu acontecimento está ali, passando em cada título de capítulo, nos mostrando a maneira como certas coisas irão acontecer independentes de nossa vontade.

 

Alaska é uma adolescente conturbada – não uma criança problema, mas certamente não um modelo de comportamento, e a maneira como ela afeta a vida de seus colegas e amigos mais próximos é o que fica de sua presença na obra, mais do que ela como personagem em si.

 

Diferente da busca pelo fim, pela resolução do que irá acontecer em seguida, no mistério ou suspense da tão temida e esperada conclusão da história contada no romance, nos vemos encantados pela maneira como ela se desenrola, por cada nuance de cada parágrafo entre os acontecimentos que, contados por outros autores, seriam o clímax de suas histórias.

 

O clímax não é a morte de Alaska. Também não é a maneira como seus amigos descobrem sua morte, ou o que fazem a partir dela – a busca por Alaska e a busca por eles mesmos, pela maneira como a vida irá seguir agora que sua amiga e presença mais influente já não estará mais ali, se dá ao longo da história e não em seu desfecho, e esse sim é o clímax de sua história: o seu desenrolar, cada segundo daquilo que acontece.

 

A aula de psicologia em Divertida Mente

 

The Fault in Their Stars

The Fault in Our Stars (A Culpa é das Estrelas) conta a história de dois adolescentes com câncer – a primeira descrição da personagem principal, Hazel Grace, já é um dado sobre a sua saúde e o fato de que ela, como paciente em tratamento contra seu câncer, jamais foi outra coisa que não terminal.

 

A partir desta premissa, o final desta história não é surpreendente, nem tampouco inesperado: sabemos, ao começarmos a primeira frase da primeira página deste livro, que a tragédia está à espreita do leitor, apenas aguardando o momento em que nos atacará. Apesar disso, o fato de que sabemos que estes jovens estão, durante todo o livro, à beira da morte, não impede que a sua história seja rica, interessante e, sim, surpreendente: não em seu desfecho, mas sim na maneira como ela é conduzida.

 

The Fault in Our Stars trata do câncer de uma maneira real e quase seca: não há idealizações sobre a doença, nem amenidades sobre ela – a dor daqueles que sofrem dela é tangível e explícita, e, ainda assim, a maneira como os próprios personagens doentes tratam de sua condição é diferente. Eles vivem com o câncer dia após dia, eles não têm tempo de sentirem pena de si mesmos, ou de adiar tudo aquilo que desejam experimentar e viver.

 

A morte nos ensina a viver

 

Quando mortes de fato acontecem durante o livro, quando a tragédia realmente alcança o leitor, estamos imersos no fato de que é inevitável. Sabemos o que irá acontecer, e temos certeza de que nem todos sairão vivos dali – e mais do que isso, temos a mais absoluta certeza de que, mesmo quando o livro acabar, aqueles personagens que ainda estão vivos não têm mais muito tempo.

 

A beleza de The Fault in Our Stars está exatamente na maneira como os personagens principais, e as pessoas a seu redor, lidam com a sua própria vida e o fato de que ela será, de maneira simples, curta. Menor do que deveria, por ser tomada por uma doença devastadora e que, no caso dos personagens centrais deste livro, sem cura.

 

A morte está presente desde o primeiro momento em que lemos sobre Hazel Grace e seu grupo de apoio. Nós a aceitamos como parte do livro e de sua história, e sabemos que iremos ler sobre ela e vivenciá-la.

 

A morte é quase uma personagem de fundo, apenas esperando, e a história não acaba quando ela se concretiza. Ela acontece. E nós a aceitamos.

 

Mecanismo de fuga do sofrimento

 

 

Death and Taxes

A morte é uma constante nas obras de John Green – não de maneira dramática, que domine toda a obra, nem tampouco como o castigo que vem àqueles que a merecem por serem os vilões, pelo contrário: nas obras deste autor a morte apenas acontece. Como na vida, ela não faz parte de uma punição maior, ou de um grande esquema que nos leve à revelação da trama, ao clímax de uma história – a morte é. Inevitável, parte do todo.

 

O que realmente chama a atenção na maneira como a morte é trabalhada em tais obras é exatamente o fato de que ela está presente de maneira forte desde seu começo e, ainda assim, não domina a trama da história. Tanto em Looking for Alaska quanto em The Fault in Our Stars a morte está ali, à espreita, desde a primeira página, mas ela não impede que os personagens vivam, e sofram, e amem – ela é o fim de uma das vidas, de um dos fios da história, e os demais continuam. A inevitabilidade do sofrimento com o fim de uma vida é sentida, de maneira marcada – o autor não minimiza as perdas, nem diminui o valor da vida que foi perdida, mas ele não poupa os leitores do sofrimento de uma morte.

 

Por terem seu principal foco nos adolescentes, os acontecimentos dos livros parecem ser ainda maiores – o adolescente, como via de regra, vê-se como invencível, como imortal, e o grande choque entre essa visão que os leitores-alvo da obra têm de si mesmos e a maneira como é mostrado a eles que ninguém é imortal, e que a morte em si não é uma punição, é o que engrandece uma obra que, de outra maneira, poderia ser considerada simplória.

 

As tramas de John Green não são complexas, nem cheias de mistério. O romance está presente, mas seu desenvolvimento não é a parte essencial do que ocorre durante os livros, nem tampouco sua resolução (a aceitação ou negação de duas pessoas como um casal, o entendimento amoroso entre dois personagens) é o que torna o livro mais interessante ou rico. O que realmente toca o leitor e faz com que ele conecte-se com seus personagens é que eles são comuns, ordinários, cotidianos. Sofrem, amam, perdem e vencem, sentem medo e esperança, como o próprio leitor o faz – os adolescentes de John Green, apesar de suas perdas pessoas – ou talvez em razão delas – poderiam ser quaisquer adolescentes, em qualquer lugar.

 

A catarse encontrada nesses livros não vem necessariamente de uma experiência pela qual o leitor jamais passaria – exatamente o oposto: ela é muito próxima àquilo que os adolescentes (e adultos) passam e sentem todos os dias; os pequenos problemas, as questões que parecem sem solução, o fato de que algumas coisas simplesmente não se resolvem na vida real, algumas perguntas sempre ficam em aberto.

 

Surpreende que John Green seja popular com os mesmos jovens que leem sobre vampiros e lobisomens, sobre terras fantásticas cheias de magia e sistemas tiranos de governo em mundos distópicos imaginários: estes livros se passam em qualquer cidade, em qualquer lugar, em qualquer escola, com qualquer um. São o romance daqueles que nem sempre têm todas as respostas, que nem sempre caminham em direção ao pôr-do-sol com o amor de suas vidas, que nem sempre saem vivos de suas próprias histórias.

 

John Green nos mostra em suas obras que a vida acontece, e é exatamente por isso que ela é surpreendente: por acabar sempre no mesmo inevitável fim, e ser incrível em cada um de seus detalhes.

 

*Janaina M. Cerutti é professora de inglês e literatura.

Adaptado do texto “A beleza da inevitabilidade”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 50