J. R. R. Tolkien e a Primeira Guerra

Numa trincheira na Primeira Grande Guerra nasceu um escritor

Por Pedro Matias*| Adaptação web Caroline Svitras

 

 

É pouco conhecido o lugar em que Tolkien nasceu, Bloemfontein, que hoje é a África do Sul. É certo que o problema da nacionalidade é bem mais complexo do que o local de nascimento, mas é no mínimo um fato curioso sobre o autor. Um entre tantos: falar sobre a biografia de Tolkien é quase descrever uma narrativa que poderia estar em um livro. O mais premente para nossa conversa aqui, porém, tentarei resumir neste parágrafo – e o leitor, se for daqueles que gostam de dados biográficos, poderá facilmente aprofundar-se no tema. Tolkien muito cedo foi para a Inglaterra; seu nascimento no continente africano certamente teve alguma influência sobre o imaginário do autor, mas é impossível traçar uma linha – mesmo suposições seriam arriscadas e levianas. Uma vez na Inglaterra, o autor, cujo pai já havia falecido, perdeu a mãe ainda jovem. Continuou seus estudos graças à ajuda de um padre católico, seu benfeitor Francis Morgan, até se formar em Oxford. Porém, de fato, o acontecimento mais importante em sua vida para essa argumentação é a Primeira Guerra Mundial.

 

Sempre achei contraproducente focar-se em detalhes da vida de um autor para desenvolver uma análise literária; em verdade, isso não é nenhuma novidade, pois é amplamente debatido nos campos críticos e há um movimento intenso desde a segunda metade do século XX para não enxergar a ligação vida e obra como elementos de influência direta: há uma mediação. No entanto, Tolkien é um autor que viveu a Primeira Guerra Mundial e isso é algo que não pode ser ignorado, principalmente quando sua obra mais respeitada é baseada em uma “grande guerra”. A Primeira Guerra Mundial, apesar de não ter armas de destruição em massa tão terríveis quanto a Segunda, foi o maior rompimento com uma certa percepção de mundo. Relatos de época demonstram a forma como soldados voltavam para casa, emocionalmente dilacerados, em uma espécie de estado catatônico.

 

 

Tolkien como soldado na Primeira Guerra

 

A primeira parte da guerra foi baseada na movimentação de tropas, o que, em termos gerais, apesar do horror, não representou um rompimento tão grande com a visão de mundo; mas a segunda parte foi baseada em trincheiras e é impossível imaginar o terror de estar em um buraco na terra (quase uma cova coletiva), com todos aqueles que sobreviveram com você e tornaram-se sua família, esperando que a qualquer momento sejam mortos. Caso você sobreviva, o que por vezes pode ser pior, ao seu lado estará o corpo do seu amigo (por um longo tempo), que no dia anterior foi o responsável pelos poucos momentos de alívio em meio ao terror, ao contar uma piada (se é que ele teve ânimo para isso) que por um segundo te fez esquecer de tudo. Tentei reproduzir, aqui, por meio do grotesco um pouco da impressão que tenho sobre o período. Dizer que a Primeira Guerra Mundial é um fato ignorável na análise literária de um autor que participou como soldado dela é, no mínimo, imprudente. Em um cenário como esse, qualquer válvula de escape é necessária; a necessidade por afeto se torna algo importante e um tipo de companheirismo muito singular nasce. A amizade de guerra não é uma instituição que possa ser formulada em outro espaço. É exatamente sobre esse tipo de amizade, forjada no pior momento, que o Senhor dos Anéis, obra mais aclamada de Tolkien, fala. A relação de Sam e Frodo é um exemplo disso. Lembro-me que, na época dos lançamentos da trilogia cinematográfica da obra, muitos comentários alegando que aquela relação era homossexual foram feitos sobre a amizade dos dois hobbits; no entanto, o que as pessoas não perceberam é que aquela é o tipo de relação que nasce de uma situação de guerra: uma relação mais profunda que amizade, ou família, efeito da guerra de trincheiras, que Tolkien conhecia tão bem. Os personagens Sam e Frodo são complementares e entender como os dois funcionam na narrativa ajuda a compreender seus efeitos e sua estrutura, tentando se aproximar do que sustenta, através dos tempos, a principal obra de Tolkien.

 

 

 

Monomito: lá e de volta outra vez

Que acompanha minimamente os comentários que teço nesta revista sabe que eventualmente recorro ao monomito campbelliano para explicar estruturas, principalmente de narrativas fantásticas. Minha recorrência ao monomito talvez seja por meu próprio costume de trabalhar com esse tipo de formulação narrativa; parece-me que a estrutura, que vem desde a Grécia Antiga, ainda pode explicar obras dos dias de hoje: “Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais, ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes”.

 

A teoria tecida por Campbell explica, de uma maneira geral, como funciona tanto O Senhor dos Anéis quanto O Hobbit. Mas Frodo e Sam não conseguem fazer o retorno adequado. Este representa a parte que consegue voltar e esquecer o passado, mas aquele nunca conseguirá ser o mesmo, a viagem do herói transformou Frodo tão profundamente que ele jamais poderá retornar ao Condado:

“- Mas – disse Sam, com lágrimas brotando em seus olhos – achei que o senhor também ia desfrutar o Condado, por muitos e muitos anos, depois de tudo o que fez.
– Eu também já pensei desse modo. Mas meu ferimentos foi muito profundo, Sam. Tentei salvar o Condado, e ele foi salvo, mas não para mim. Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las. Mas você é meu herdeiro: tudo o que tive e poderia ter tido lhe deixo.”

Nessa pequena troca de palavras entre os hobbits temos exemplificado meu enfoque de análise. Sam é a parte que ficará no Condado, a parte que não foi totalmente destruída pela guerra, ou seja, a porção do herói para quem o mundo ainda faz sentido, de alguma maneira. Já Frodo é o herói da Primeira Grande Guerra, o herói para quem o mundo perdeu a razão. É para Sam que ele deixa tudo, e é Sam, não Frodo, o herói que pode exercer sua função social neste mundo; aquele é o herói épico, este o herói moderno. Frodo ainda específica, na continuação, a família e os amigos que ele é incapaz de ter e que ele pede para Sam proteger e aproveitar. Para ele, a falta de sentido da guerra desorganizou o mundo: Frodo é incapaz de simplesmente retornar para o Condado, para sua vida anterior, de modo que precisa se partir entre aquele que retorna – o herói pré-primeira guerra (Sam), que é o herói do monomito –, e ele, o herói fragmentado que será sempre incapaz de lidar com o mundo organizado, em paz, um mundo ao qual ele não pertence mais.

 

 

O leitor pode, se está acompanhando meu raciocínio, questionar-me coerentemente: “Se a intenção de Tolkien era demonstrar esse herói fragmentado e moderno resultado da guerra, para que era necessário Sam?”. Apesar de a perguntar pressupor a resposta, ela é pertinente e precisa ser respondida, aqui usando as palavras de Muniz Sodré: “Hoje, como no passado, o leitor projeta-se nas aventuras heroicas, dando vazão ao seu desejo de potência, de aproximar-se dos deuses, e  de poder, como o herói, escapar as leis do cotidiano repetitivo e monótono”. 

 

Tolkien não era um narrador inocente. Se sua narrativa tivesse apenas Frodo, o herói que não tem um lugar para voltar, a sensação de não pertencimento causada ao leitor seria impossível de ser contornada. O leitor de fantasia quer ser levado ao ponto de “encostar nos deuses”, mas sem nunca deixar de ser pertencente a um espaço de conforto, um lugar para o qual ele possa voltar. O deslocamento causado pela guerra, representado por Frodo, é legítimo, mas é Sam que sobrevive e não se corrompe; é por Frodo que o leitor desenvolve os laços de construção da experiência, mas é com Sam que ele trava os laços afetivos. Em outras palavras, Frodo fica no campo do cognitivo, enquanto Sam fica no emocional. Ajudando ao leitor a lidar melhor com a incompreensão do espaço, pois é com este que ele se identifica melhor, ele ficará no Condado,enquanto absorve parte da experiência daquele que nunca poderá  voltar. Ainda concordando com Sodré, “sua [do herói] segunda e solene tarefa e façanha é, por conseguinte (como declara Toynbee e como indicam todas as mitologias da humanidade), retornar ao nosso meio, transfigurado, e ensinar a lição de vida renovada que aprendeu”.

 

 

O herói do monomito precisa voltar para contar a sua história – porém, Frodo é incapaz. Sei que me repito aqui, mas é necessário para construir o caminho para outro ponto. O herói do monomito é por excelência um narrador: contará a história que viveu, tentando transformar o mundo de onde veio, como o narrador “marinheiro comerciante” de Walter Benjamin. Acontece que Frodo está nesse estado “catatônico”, que o torna incapaz de contar sua história, pois quando contamos uma história é porque a entendemos de alguma maneira (ou a queremos entender). A própria possibilidade de entender representa um retorno àquele mundo e isso é inconcebível. O hobbit é incapaz de entender o terror de que participou, o mundo se estilhaçou de uma maneira sem volta. Ele é o homem moderno, que não tem nada para contar e cuja única saída é o silêncio. Uma vez que Frodo não pode voltar para sua terra natal como “o iluminado” que transformará o mundo, não há sentido algum no retorno, posto que ele não faz mais parte daquele mundo; assim, partirá com os elfos para o mundo “do infinito” e dele restarão as histórias e lendas que Sam contará – pois ele é capaz de fazer o retorno, ele será capaz de contara história. Campbell pontua que “por vezes, a passagem do herói mitológico pode ser por cima da terra; fundamentalmente, é uma passagem para dentro – para as camadas profundas em que são superadas obscuras resistências e onde forças esquecidas, há muito perdidas, são revitalizadas, a fim de que se tornem disponíveis para a tarefa de transfiguração do mundo”.

 

A guerra não revitalizou nada em Frodo: ele foi espatifado, sem jeito de se reformular e ser uno novamente. O personagem está perdido dentro de si e, assim, não pode transformar aqueles elementos que carrega em seu interior para que eles possam “transfigurar o mundo” – este é o ponto central do que proponho aqui.

 

 

“Não adianta escapar de você, mas estou feliz, Sam”

Tentei explicar os problemas literários que orbitam em volta da personagem de Frodo; mas e Sam, o que ele representa? Para que ele serve? É por meio de Sam que conquistamos o conforto do espaço de retorno, posto que é por meio de Frodo conquistamos as experiências da viagem. Ignorar Sam seria um erro, pois ele é indissociável de Frodo, como as duas faces de uma moeda. Tentarei esboçar, de maneira muito ensaística, o argumento que iniciei na parte anterior. Primeiro, vejamos o que diz Regina Zilberman: “A função social da arte advém da possibilidade de influenciar o destinatário,quando veicula normas ou quando as cria. No primeiro caso, pode reproduzir padrões vigentes; mas, como, ao fazê-lo, reforça-os (é o exemplo da literatura de massa), mesmo nessa circunstância ela ultrapassa a condição de reflexo”.

 

Veja a análise do livro “O Hobbit”

 
É por meio de Sam que Tolkien consegue criar a sensação de conforto, mas também é por meio dele que ele constrói valores em O Senhor dos Anéis. Sam é o mais fiel amigo, disposto a tudo para provar essa fidelidade; mais do que isso, ele não quer provar ser fiel, ele apenas o é. Sam, nem por um momento, se colocou como um dos heróis da narrativa; ele é, humildemente, o empregado de Frodo, que o acompanha, sacrifica-se, carrega o fardo para ele. Mas Sam não é o grande herói, ele não precisa sentir todo o peso da tarefa, pois está só ajudando. Todas essas qualidades são sentidas e intuídas pelo leitor, que se afeiçoa a Sam e, nesse processo, constrói um laço afetivo importante com o personagem, que o permite ficar próximo aos deuses, mas longe o suficiente do caos, para que sua consciência sobreviva à guerra e, portanto, ele possa regressar em paz ao Condado. A respeito disso, Zilberman conclui: “[…] Jauss pensa que a arte não existe para confirmar o conhecido, e sim para contrariar expectativas. Partindo deste pressuposto de procedência formalista, ele amplia uma pista deixada em aberto pelos russos: se assim é, então a literatura pode levar o leitor a uma nova percepção de seu universo”.

 


Ao construir Frodo baseado na visão de mundo pós-Primeira Guerra, ou seja, uma compreensão dilacerada do ser humano, Tolkien precisa também mostrar uma alternativa: Sam. Apesar da falta de sentido da guerra, há uma instituição que sobreviveu: a amizade. Muitos não poderão ser salvos, o amigo que não retornou ficará com a lembrança, uma história para ser contada, mas é Sam quem sobrevive, é ele que tem a capacidade de mudar o mundo, enquanto conta as histórias e cuida dos amigos e filhos, mas sem nunca perder a lealdade com companheiro que se foi.

 
O leitor participa do processo todo da posição de Sam, devido ao laço afetivo, podendo viver as experiências de maneira satisfatória. Como Antonio Candido afirma, “Assim, o leitor contempla e ao mesmo tempo vive as
possibilidades humanas que a sua vida pessoal dificilmente lhe permite viver e contemplar, visto o desenvolvimento individual se caracterizar pela crescente redução de possibilidades. De resto, quem realmente vivesse esses momentos extremos, não poderia contemplá-los por estar demasiado envolvido neles. E se os contemplasse à distância (no círculo dos conhecidos) ou através da conceituação abstrata de uma obra filosófica, não os viveria. É precisamente a ficção que possibilita viver e contemplar tais possibilidades, graças ao modo de ser irreal de suas camadas profundas, graças aos quase-juízos que fingem referir-se a realidades sem realmente se referirem a seres reais; e graças ao modo de aparecer concreto e quase-sensível deste mundo imaginário nas camadas exteriores”.

 

 

Dessa forma, o leitor pode conquistar as experiências desses personagens, da amizade tão forte que os guia, que só poderia ser conquistada na trincheira, e sobreviver a isso. Sua fragmentação não precisa ser completa, fazendo com que ele possa retornar para o seu mundo – o de fora do livro – melhor, mais preparado para a vida, de uma maneira bem abrangente. Ser a “corda” de segurança do processo de experiência formulado por esse complexo romance é a função básica de Sam, sem ele correríamos o risco de nos afundarmos na obra e não compreendermos Frodo, uma frustração se apoderaria de nós e não seríamos capazes de sentir prazer. A respeito disso, Regina Zilberman adiciona que “Jauss não acredita que o significado de uma criação artística possa ser alcançado sem ter sido vivenciado esteticamente: não há conhecimento sem prazer, nem a recíproca, levando-o a formular um par de conceitos que acompanham suas reflexões posteriores: os de fruição compreensiva [verstenhender Geniessen] e compreensão fruidora [geniessendes Verstehen], processos que ocorrem simultaneamente e indicam como só se pode gostar do que se entende e compreender o que se aprecia”.

 

 

Sam é, portanto, o elemento humanizador que sustenta a obra. Por esse ponto de vista ele é o que cola e mantém O Senhor dos Anéis costurado, permitindo que ele seja inteligível, palatável e fonte de experiência humana, uma vez que só por meio dele que podemos sentir prazer. Sam faz a ligação com o leitor, não o afundando nos conflitos de Frodo, mas sem menosprezar as experiências do jovem. Bruno Bettelheim, em A psicanálise dos contos de fada, afirma que “Para que uma história realmente prenda a atenção da criança, deve entretêla e despertar a sua curiosidade. Contudo, para enriquecer a sua vida, deve estimularlhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar em harmonia com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam. Resumindo, deve relacionar-se simultaneamente com todos os aspectos de sua personalidade – e isso sem nunca menosprezar a seriedade de suas dificuldades, mas, ao contrário, dando-lhe total crédito e, a um só tempo, promovendo a confiança da criança em si mesma e em seu futuro”.

 

 

É importante mencionar que, apesar de Bettelheim se referir apenas a crianças, creio que esse texto serve para o leitor de fantasia em geral. Frodo seria incapaz de permitir que o leitor lide com os problemas, desequilibraria o receptor da mensagem e ainda não ofereceria o conforto do final feliz. A única experiência humana que aprenderíamos de Frodo é que há dificuldades na vida, mas essa formulação precisa transcender para ter valor, e para isso ela precisa se formular em outros parâmetros. Os parâmetros em que ela se formula, então, são parâmetros positivos: Sam sempre lembra-se do Condado e planeja o que fazer quando voltar, dando-nos sua característica principal (a lealdade) somada a uma  certeza – a de que no final ele poderá retornar ao seu espaço de pertencimento, configurando a esperança como outro tema importante da obra. Importante porque é capaz de garantir experiência positiva e não apenas “deprimir” o leitor, ela transcende a condição de situação negativa, para a possibilidade de transformar isso em matéria humana, ou seja, experiência, que só pode ser absorvida na medida que há esperança. “[…] uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana – mas que, se a pessoa não se intimida e se defronta resolutamente com as provações inesperadas e muitas vezes injustas, dominará todos os obstáculos e ao fim emergirá vitoriosa”, conclui Bettelheim em sua obra.

 

É por meio de Sam que o leitor emerge vitorioso e vê consolidada  sua experiência. É ele que conquista o prêmio (Condado, família, amigos), enquanto Frodo é apenas parte da memória; necessário como experiência para sobreviver à guerra, mas incapaz de lidar com a própria vida. Não proponho aqui que essa era a visão do autor ao escrever, apenas sugiro uma chave interpretativa que me parece coerente e válida. Espero que com essa brevíssima análise de uma obra – que poderia receber um estudo detalhado – eu tenha de alguma forma valorizado Tolkien, trazendo à tona aspectos que, por vezes, possam parecer meramente temáticos. É necessário perceber que a grande obra fará uma ligação de interinfluência entre estrutura e tema, pois são, como Sam e Frodo, indissociáveis.

 

*Pedro Matias é formado em Letras pela FAPA, pós-graduado em Literatura Brasileira com Ênfase em Criação Literária pela UFRGS, mestrando em Literatura Brasileira pela
UFRGS e professor da rede estadual do RS. (pmatiass@gmail.com)