Ivan Junqueira: poeta

Da Redação | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Nas palavras do escritor Hugo von Hoffmannstal, o núcleo da essência do poeta é ele se saber poeta — e Ivan Junqueira sempre teve consciência de sua condição, viveu toda a vida com a poesia, em tempo integral. Nascido no Rio de Janeiro em 3 de novembro de 1934, Ivan Junqueira realizou seus primeiros estudos no Colégio Notre Dame Ipanema, posteriormente tendo ingressado nas faculdades de Medicina e Filosofia da Universidade do Brasil, não chegando a concluí-las.

 

Boêmia literária

Na juventude, fez parte da boêmia literária carioca, em torno do Bar Jangadeiro e de outros points da intelectualidade carioca em Ipanema, ao lado dos amigos Leandro e Rodolfo Konder e Per Johns, entre outros, e ainda sem se decidir profissionalmente pela literatura, conta ele que foi “coroado poeta” por Aníbal Machado em 1957, numa época em que Aníbal abria sua casa em Ipanema aos domingos para os amigos que vinham conversar sobre literatura e apresentar seus projetos literários aos companheiros. A chamada “domingada” na casa de Aníbal Machado era um dos acontecimentos mais importantes na Ipanema provinciana e pequeno-burguesa de então. Conta Junqueira que Aníbal o constrangeu ao falar coisas maravilhosas da poesia do iniciante, tecendo os mais elevados e entusiasmados elogios ao poeta de 23 anos e ainda inédito que ele era, então, comparando-o a Rimbaud.

A lírica de Baudelaire

 

Eleito em 30 de março de 2000, como sexto ocupante da Cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de João Cabral de Melo Neto, e recebido em 7 de julho de 2000 pelo acadêmico Eduardo Portella, Ivan Junqueira iniciou-se no jornalismo em 1963, como redator da Tribuna da Imprensa, tendo atuado depois no Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo, nos quais foi redator e sub-editor até 1987.

 

 

Junqueira tradutor

Como crítico literário e ensaísta, Junqueira colaborou em todos os grandes jornais e revistas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, bem como em publicações especializadas nacionais e estrangeiras, entre elas Colóquio Letras, Revista do Brasil, Senhor, Leitura e Iberomania.

 

O trabalho literário de Ivan Junqueira é celebrado não apenas em sua obra de poeta, mas também nas aplaudidas traduções de Charles Baudelaire, T. S. Eliot, Marcel Proust e Marguerite Yourcenar. Foi chamado de “poeta do pensamento” por sua poesia ser profundamente entremeada pela dinâmica da Filosofia. Segundo o poeta e historiador e historiador Alberto Costa e Silva, “é uma poesia que faz perguntas o tempo todo, sem pontos de interrogação”.

 

Banquete dos Mendigos

Muito longe do comportamento acomodado que se credita aos escritores, Junqueira foi sempre combativo e participante do dia a dia da vida nacional, rejeitando o conforto da Academia. Em 1973, numa época de alta turbulência político-social, foi um dos principais protagonistas de um evento levado no Museu de Arte Moderna do Rio, junto de intelectuais e artistas, evento esse promovido pela Organização das Nações Unidas, comemorou-se nessa cerimônia os 25 anos da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A Junqueira, que então acumulava um cargo de assessor de Imprensa no Centro de Informações das Nações Unidas (cargo antes assumido por Mário Faustino), coube ler à plateia alguns artigos contidos na Declaração Universal. O evento cresceu, com a adesão de um grupo de artistas da MPB, liderado por Jards Macalé e engrossado por Chico Buarque de Hollanda, Gonzaguinha, Paulinho da Miola, Milton Nascimento, entre outros. A cerimônia virou um acontecimento de protesto contra a repressão e a ditadura militar até então sem precedentes, e acabou sendo editado em um álbum duplo, com o nome O Banquete dos Mendigos.

 

O escritor Chico Buarque

 

De assessor de imprensa, Junqueira tornou-se diretor do Centro de Informações da ONU, abandonando o cargo em 1977. Tornou-se mais tarde supervisor editorial da Editora Expressão e Cultura e diretor do Núcleo Editorial da UERJ, além de colaborador da Enciclopédia Barsa, Encyclopaedia Britannica, Enciclopédia Delta Larousse, Enciclopédia do Século XX, Enciclopédia Mirador Internacional e Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, este último editado pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas.

 

Anos 1980, consolidação

Nos anos 1980, Junqueira consolida sua condição de escritor, publicando, quase ininterruptamente, poesia, ensaio e tradução. Em 1984, foi escolhido como Personalidade do Ano pela UBE. Assessor da Fundação Nacional de Artes Cênicas (Fundacen) de 1987 a 1990, no ano seguinte transferiu-se para a Fundação Nacional de Arte (Funarte), onde foi editor da revista Piracema e chefe da Divisão de Texto da Coordenação de Edições, tendo se aposentado do serviço público em 1997. Foi ainda editor adjunto e depois editor executivo da revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional (1993-2002). Conferencista, Junqueira realizou palestras em todo Brasil e em Buenos Aires, Santiago do Chile, Santiago de Compostela, Madri, Roma, Póvoa de Varzim e Lisboa, onde, em 1994, abriu o Projeto Camões, patrocinado pelo Instituto Camões e a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, ocasião em que ministrou, na Biblioteca Nacional da capital portuguesa, o curso A Rainha Arcaica: uma interpretação mítico-metafórica, além de realizar recitais de poesia na Casa de Fernando Pessoa e no Palácio da Fronteira. No ano seguinte voltou a Portugal para participar do Projeto Camões, tendo proferido conferências em Coimbra, Porto, Vila Real, Lisboa e Ponte de Sor.

 

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 57

Adaptado do texto “Ivan Junqueira: poeta”

 

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