Italo Svevo, um marco da literatura italiana do início do Século XX

Psicanálise e negócios são ingredientes marcantes em A consciência de Zeno, obra-prima do escritor triestino

Por Tiago Eloy Zaidan* | Foto Shutterstock

Nascido em Trieste, cidade do nordeste italiano, às margens do mar Adriático, Italo Sve­vo (1861–1928), pseudônimo de Aron Ettore Schmitz, tornou-se uma celebridade literária tarde, já na casa dos 60 anos. Depois lhe restou pouco tempo de vida para saborear o sucesso. O êxito se deu com o lançamento da obra-prima A consciência de Zeno, publicado origi­nalmente em 1923. O sucesso do livro, todavia, não foi imediato. Depois de ser recebido com discrição na Itália, Svevo contou com a intercessão providencial de James Joyce (1882-1941), de quem era amigo, o qual arrazoou sobre obra nos círculos culturais de Paris.

A história do romance se passa no início do século XX, às raias da Primei­ra Grande Guerra Mundial e em uma época em que a psicanálise ainda era uma novidade.

Tudo começa quando um médico psi­canalista, identificado apenas por Doutor S., recomenda ao seu já idoso paciente que este escreva uma autobiografia. O velho envolve-se com o tratamento e põe-se a escrever, o que deixa o psicanalista otimista com os progressos do paciente. Este, contu­do, abandona o programa terapêutico. Dr. S., então, publica as memórias do paciente sem a sua autorização, como uma espécie de vingança. No entanto, deixa claro que está pronto a dividir com o idoso os direitos autorais da obra, contanto que ele volte ao tratamento.

É desta forma, através dos relatos me­morialísticos de um paciente, legado por seu psicanalista, que conhecemos a vida de Zeno Cosini, a qual se estende por mais de 600 páginas. Zeno, uma caricatura de burguês, tem uma vida medíocre. É vicia­do em cigarros, fuma compulsivamente, é hipocondríaco e tem medo de envelhecer e de morrer. O próprio nome da perso­nagem parece dar pistas a esse respeito, já que o sobrenome Cosini, “(…) é fone­ticamente próximo do italiano zero, e etimologicamente mais próximo ainda de Zeno, o estrangeiro, o alienígena”, explica o professor de Romance e Lite­ratura Comparada na Universidade de Princeton Victor Brombert no livro Em louvor de anti-heróis.

Com a morte do pai, Zeno herda uma fortuna, a qual, contudo, não dirige. Em testamento, o gerenciamento dos inves­timentos herdados é incumbido a Olivi, um experiente administrador. Como for­ma de driblar o tédio e a hipocondria, o anti-herói se empenha em aprender sobre comércio, pois espera tomar as rédeas dos negócios. Por este motivo, passa a fre­quentar a bolsa de valores de Triste, onde conhece aquele que viria a ser o seu sogro, o astuto sr. Malfenti, um típico capitalista bem-sucedido, o qual pensa em dinheiro todo o tempo. Com ele, recolhe lições im­portantes, tais como: “Não é preciso saber trabalhar, mas está perdido aquele que não sabe fazer com que os outros trabalhem para si”; e, não menos importante: “só há um grande remorso, o de não ter sabido agir em seu próprio interesse”.

A consciência de Zeno não é imune ao sarcasmo, sobretudo com relação à burgue­sia e as suas instituições, como o casamen­to, por exemplo. Zeno passa a frequentar a casa de Malfenti e conhece as três filhas do capitalista. Apaixona-se por Ada, quiçá a mais bela. Mas, como esta já está interessa­da em outro, investe sobre a irmã, Alberta. Recusado também por esta, pede a mão de Augusta, a sua última opção e aquela pela qual se sente menos sente atraído. Esta, por sua vez, aceita-o com ternura.

Zeno se casa sem amor, e a sua com­panheira sabe disso. Tanto que o agra­dece, emocionada, como se o esposo estivesse a fazer um favor: “Jamais me esquecerei que, mesmo sem me amar, você se casou comigo”. Para o protago­nista, aliás, o fato de não amar Augusta não representa impedimento algum à união, pois, “uma vez casados, não se discute mais sobre o amor (…)”.

Augusta é uma esposa dedicada e o ama. Zeno retribui tipicamente, mais com com­paixão e obrigação para com os seus deveres de esposo na sociedade. Tenta aventurar-se com uma amante. Porém, justiça seja feita, é embaraçado pelo remorso, e a traição nunca chega às vias de fato.

Paralelamente, toma parte em uma empreitada comercial liderada por Guido, o esposo a quem Ada escolheu. Participa como voluntário, uma vez que não perce­be remuneração. Vislumbra a atividade como uma experiência, além do fato de o escritório lhe resgatar do ócio. O negócio é completamente malfadado e definha na mesma medida que o casamento de Ada e de Guido.

O romance de Svevo é influenciado pela obra do médico neurologista Sigmund Freud (1856-1939). É pertinente lembrar que, até o ano de 1918, Triste pertenceu à Áustria, o que deve ter contribuído para reforçar as ligações entre o autor e o pai da psicanálise.

Outra influência digna de nota é o comércio. O escritor triestino foi um homem de negócios e atuou por muitos anos – como diretor comercial – na firma do sogro. Não se sabe se o sogro de Sve­vo era tão agressivo nos negócios como o era Malfenti, o qual, no leito de morte, lançou um último brado sincero a Zeno, quiçá, apontando a causa dos fracassos comerciais do protagonista no contexto da economia liberal: “Se pudesse livrar-me desta doença rogando-a a você, saiba que eu o faria sem pestanejar! Não tenho nada dos seus pruridos humanitários!”.

 

* Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco; graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas; coautor do livro “Mídia, Movimentos Sociais e Direitos Humanos (organizado por Marco Mondaini, Ed. Universitária da UFPE, 2013) e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB).

 

Revista Literatura | Ed. 67