Invista no potencial dos alunos-problema

Por Ada Marilia Arruda* | Foto: Shutterstock

Por alguns anos dei aulas para alunos do segundo ciclo, em escola particular — hoje, estou afastada do magistério já há muito tempo, pois, por várias razões, fui assumir uma profissão que nada tem em comum com a escola. Mas quem foi professor sempre guarda algumas lembranças, além de uma certa ternura pela experiência que teve no contato com alunos.

 

Minha melhor recordação daqueles anos breves foi a lida com alunos que destoam da turma. São aqueles que parecem não gostar de nada que os cerca na sala de aula, a começar pelo professor. O aluno-problema é uma realidade e um desafio. Felizmente, me dei bem com todos, por mais complicadas que fossem nossas relações no início. Que tal tentar conversar com um aluno que sequer nos olha nos olhos, tem ar de enfado e desdém, e que age quase como um autista? É razoável achar que ele tem dificuldades em interagir com todas as pessoas, mas o professor não pode desistir dele, precisa redobrar a atenção, a paciência e o senso de compreensão, do contrário, aquele aluno pode vir a engrossar o número já dramático que registra a chamada “evasão escolar”.

 

O que eu fazia era bem simples: identificado o aluno-problema, passava a tratá-lo com a mais formal e fria simpatia, daí, aos poucos, ia passando algumas pequenas responsabilidades para ele, como fazer a chamada, distribuir e recolher provas, coisas assim; logo, ele começava a se sentir importante, e eu sabia que ele melhorava à medida que descontraía e começava a interagir com os colegas. Um ou outro até surpreendia, se colocando entre os melhores e mais disciplinados alunos da classe. Em nenhum caso, a minha relação com o aluno-problema chegou a um impasse, a uma barreira, a uma disputa azeda e sem tréguas.

 

O que faz uma criança, um adolescente virar um aluno-problema? Eu não sei, imagino que os desajustes têm origem nas relações familiares; ele é, na maioria das vezes, alguém que sente raiva e reage mal, que cultiva recalques e o simples contato com outras pessoas lhe causa mal-estar. Pela minha experiência, posso dizer que o aluno-problema quase nunca é um caso muito sério, é apenas alguém que está “pedindo socorro”, e que embora crie algumas dificuldades para a comunicação não deve ser tratado pelo professor como se fosse uma bomba-relógio. Muito menos, deve ser ignorado. A melhor atitude é respeitar sua individualidade e conversar, mantendo a distância de professor para aluno, impondo os limites. Isso feito, logo o aluno-problema será apenas mais um aluno, exatamente como os demais.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 71

Adaptado do texto “O aluno-problema”

*Ada Marilia Arruda foi professora do segundo ciclo.