Intolerância e inclusão social

O que faz com que nossa sociedade seja tão intolerante e pouco inclusiva?

Por Myriam Chinalli* | Foto: | Adaptação web Carline Svitras

 

Nos dias atuais, encontramos regularmente em nosso cotidiano algumas palavras que certamente nos provocam reações psíquicas das mais inquietantes. Tais palavras são comumente citadas nas universidades, nas escolas, na mídia impressa e na televisiva: “intolerância”, “realidade”, “inclusão”. Interessa-nos investigar aqui não o que está manifesto nas significações jurídicas, filosóficas, sociológicas desses termos, mas, sobretudo, o que está escamoteado ou denegado por eles. Neste texto, partiremos do princípio de que é necessário falar desses conteúdos do ponto de vista psíquico, ressaltando nossa condição humana de sujeitos do inconsciente.
Nos últimos anos, especificamente desde os anos 1970, temos visto o desenvolvimento de importantes projetos para o combate à intolerância: o surgimento de instituições em defesa dos direitos humanos, a implementação de cotas para negros e deficientes, a ocupação de espaços políticos por mulheres, entre outras iniciativas chamadas “inclusivas”. Alguns dados, porém, são inquietantes: no Brasil, apesar de, aparentemente, ter havido uma democratização do discurso da “tolerância”, os dados da exclusão social (sobretudo dos negros) continuam praticamente inalterados, desde a abolição da escravatura (na década de 1890), se comparados ao crescimento proporcional da população, conforme dados do Inep/MEC, citados na publicação Políticas de promoção da igualdade racial na educação, realizada pelo Centro de estudos das relações do trabalho e das desigualdades (CEERT), uma ONG que luta pela igualdade de raça e de gênero.

 

Aprender a ler e a escrever: uma possibilidade de inclusão social

Diante desses fatos, podemos pensar em textos de Freud, O mal-estar na civilização e O futuro de uma ilusão, que nos falam do pacto social necessário para a contenção de impulsos destrutivos, ligados à pulsão de morte. Estaríamos diante dos “restos do pacto”, ou seja, diante de algo que não pôde ser simbolizado e que ganha expressão pelo ato? O que impediria esse “resto” de ser simbolizável? O que faz com que nossa sociedade seja tão intolerante e tão pouco inclusiva?

 

 

Conceito realidade

“É de supor que as classes abandonadas invejarão os privilégios das classes favorecidas e farão todo o possível para libertar-se do aumento especial de privação que pesa sobre elas. Caso não o consigam surgirá na civilização correspondente um descontentamento duradouro que poderá conduzir a rebeliões perigosas. Mas quando uma civilização não consegue evitar que a satisfação de certo número de seus participantes tenha como premissa a opressão de outros, talvez da maioria – e assim sucede em todas as civilizações atuais – é compreensível que os oprimidos desenvolvam uma intensa hostilidade contra a civilização que eles mesmos sustentam com o seu trabalho, mas de cujos bens participam muito pouco… Não é demais dizer que uma cultura que deixa insatisfeito um núcleo tão considerável de seus participantes e os incita à rebelião não pode durar muito tempo e nem tampouco o merece” (Freud. O futuro de uma ilusão, p. 325).
Para pensarmos os fenômenos atuais de intolerância, pode ser de grande valia nos debruçarmos um pouco sobre o conceito de “realidade” desenvolvido por Nicholas Abraham e Maria Torok, no livro A casca e o núcleo, publicado na França em 1977 e traduzido no Brasil em 1995. De acordo com esses autores, a realidade é sempre “realidade a escamotear” (p. 237): “Realidade se define, portanto, como o que é recusado, mascarado, denegado enquanto – precisamente – ‘realidade’, como o que é, já que ele não deve ser conhecido; numa palavra, ela se define como um segredo. O conceito metapsicológico de Realidade remete, no aparelho psíquico, ao lugar em que o segredo está escondido”.

 

Psicanalista húngara, nascida em 1925, em Budapeste, que em 1947 fixou-se em Paris. É conhecida pelas suas contribuições para a teoria psicanalítica, desenvolvida primeiro por Freud, depois por Ferenczi. Torok também é conhecida pelo estudo crítico de Husserl. Morreu em Nova York, em 1998.

O trabalho desses autores baseou-se na análise do Caso do Homem dos Lobos, como representante de algo que é “inanalisável” e que, portanto, não alcançaria representação. Essa análise foi a mais longa das “cinco psicanálises” de Freud: começou em janeiro de 1910 e terminou em junho de 1914. Entre 1918 e 1919, o paciente conhecido voltou a procurar Freud, que o recebeu de bom grado. Novamente em 1926, afetado pelos mesmos sintomas, o Homem dos Lobos foi consultar novamente o psicanalista que, dessa vez, recusou-se a atendê-lo e o encaminhou a uma de suas analisandas. A partir de 1945, foi ajudado de maneira especial pelo movimento freudiano, pois encontrava-se pobre e melancólico. Comentado por diversos psicanalistas, esse caso – um “criptomodelo” – contribuiu para que Abraham e Maria desenvolvessem o conceito de “cripta”.
É como parte do “segredo” contido na “cripta” que poderíamos abordar o termo “intolerância”. Vale lembrar que a palavra “cripta” tem origem no grego kryptós e significa “escondido, oculto, secreto”. A partir do século XIX ela foi introduzida na linguagem científica internacional, muitas vezes como elemento de composição de outras palavras (críptico, criptônimo, criptograma etc.). Também se pode pensar na cripta como algo quase “inexplicável”, como dimensão do religioso, do sagrado.

 

 

 

Abertura da cripta

A oposição entre o aparente e o escondido, o manifesto e o latente, os disfarces e o desejo constitui um tema maior da Psicanálise desde o seu início. Sabemos que o interdito gera o desejo, assim como a “realidade”, no sentido metapsicológico, nasce pela exigência de permanecer escondida, vergonhosa – afirmação facilmente comprovada na clínica. Dessa forma, a realidade nasce cindida.

 

Sigmund Freud

Freud, em seu artigo Pulsões e seus destinos, nos diz que inicialmente o mundo se apresenta para a criança sem diferenciação, mas, logo, ganha matizes diferentes, dependendo das qualidades de prazer implicadas nas experiências. O sujeito introjeta os objetos que são prazerosos e afasta de si aquilo que se constitui como motivo de desprazer, mesmo aquilo que provém de seu próprio interior. O mundo exterior fica assim dividido em uma parte prazerosa, que se incorpora, e um resto que é estranho e hostil. O sentido primitivo do ódio é o da relação contra o mundo exterior, alheio ao ego. “Sentimos repulsa ao objeto desprazeroso e o odiamos. Este ódio pode intensificar-se até a tendência à agressão contra o objeto e o propósito de aniquilá-lo” (p. 147).
E Freud conclui: “O ego odeia, perturba e persegue com propósitos destrutivos a todos os objetos que chega a supor como fonte de sensações de desprazer, constituindo uma privação da satisfação sexual ou da satisfação de necessidades de conservação. Pode-se, inclusive, afirmar que o verdadeiro protótipo da relação de ódio não procede da vida sexual, mas da luta do ego por sua conservação e manutenção” (p. 147).
O de fora é o outro, o diferente, o estranho, o virtualmente inimigo, o depositário de nosso ódio. “Da estranheza ao temor, da curiosidade ao medo, do amor ao ódio, o rosto do estrangeiro nos força a manifestar a maneira secreta que temos de encarar o mundo, de nos desfigurarmos todos, até nas comunidades mais familiares, mais fechadas” (p. 149).

 


Em 1919, Freud já descrevera, no texto O estranho, a situação do “estranho familiar”, mostrando-nos que este está mais próximo de nós do que supúnhamos. Habita em nosso próprio interior e, frequentemente, se revela de forma inquietante. A Psicanálise propõe o reconhecimento desse estranho em nós mesmos; como efeito de nossa própria constituição – sujeitos divididos numa parte a que nunca temos acesso e originalmente marcados pelos enigmas de um outro, sem o qual não sobreviveríamos.
A realidade esconde um segredo, algo que gera vergonha, uma espécie de “crime”, que precisa ser mantido em sigilo. Entretanto, não há segredo que não tenha sido, na origem, partilhado. Dessa forma, o ato criminoso jamais é solitário. O crime da realidade se refere sempre a um “terceiro excluído”, colocado num lugar de gozo indevido, perverso. Não é difícil entender por que o alívio desse delito nos é negado – tanto ao paciente quanto ao analista.
Entretanto, é destino da “realidade” – enquanto crime cometido – aparecer na análise e surgir na cena pública. De acordo com Nicholas e Maria, muitas vezes ela aparecerá sob a forma de “cripta”, com uma visível fechadura, pedindo para ser aberta. Mas onde estará a chave para abri-la?
A cripta, entendida como túmulo, terá o ego como seu principal guardião. Nada deverá escapar para o mundo exterior. Ele se manterá em vigília para proibir o acesso de qualquer “curioso” ao túmulo. No entanto, esse túmulo encerra algo que foi enterrado vivo, que não pode virar pó. O túmulo encerra um passado que está sempre presente no sujeito. O conteúdo da cripta, esse segredo que encobre um crime, raramente pode se exibir sob a forma de palavras. Contudo (paradoxo!), na cripta foram enterradas palavras vivas que se desvincularam de sua função costumeiras de comunicação. Por quê? Possivelmente porque carregam um conteúdo perverso, ligado ao prazer do interdito, ao gozo (lacaniano).
Dessa forma, para realizar seu trabalho, o analista não pode se colocar no mesmo terreno do criptóforo – que congrega inúmeras criptas – que, por não conhecer outras formas de expressão, colocará o analista no lugar de juiz, procurador, advogado, acusado, corpo de delito. Caso o analista aceite esse lugar, a cripta se consolidará.
A realidade metapsicológica só poderá se transformar em desejo se o analista garantir, por diversos caminhos e desvios, mil maneiras de o analisante se simbolizar.

 

 

 

O encriptamento da intolerância

Cabe trazer aqui as características de representação do “poder” nos dias atuais, para pensarmos nos possíveis encriptamentos. Conforme Marcelo Coelho (2005), durante toda a Idade Média, o poder tinha um ar sinistro, carregado, cheio de solenidade e pompa. Passou-se à grandeza, ao luxo, no século XVIII e, depois, ao rigor depressivo e fúnebre dos estadistas vitorianos. Mais tarde, no século XX, os ditadores se cobriram de uniformes e honrarias militares: precisavam comprovar que eram ameaçadores, implacáveis, sanguinários.

 


Hoje, o poder constituído é simpático, sorridente e ostenta simplicidade. A maior parte dos protestos é organizada pelos “grupos de sempre”. A ordem é que os poderosos mostrem-se invariavelmente felizes e que não se dê muita voz aos “infelizes”. A única coisa que não se admite é o descontentamento por um sistema hegemônico – o capitalismo.
Não se trata propriamente de reprimir os descontentes, os revoltosos, os excluídos: antes de tudo, trata-se de ignorá-los ou, então, de lhes oferecer pequenos benefícios (no caso dos países desenvolvidos, seguro-desemprego, financiamento para habitações populares, assistência médica regular etc.). O importante é mantê-los fora dos sistemas de representação simbólica (das universidades, do parlamento, do sistema político-jurídico). Eles precisam ser invisíveis, inexistentes. E nisso talvez se explique a violência sem palavras, o vandalismo puro e simples de muitos movimentos de protesto nos países de primeiro mundo ou da violência nos países em desenvolvimento.
No caso de alguns atos terroristas, mais do que reivindicar alguma mudança no plano simbólico (o que possivelmente todos consideram improvável), parece que o objetivo dos participantes é apenas serem reconhecidos: a periferia quer mostrar que existe e, para afirmar-se, recorre à destruição. A exclusão sempre carrega algo de perverso e gera consequências equivalentes.

 


Na discussão sobre as cotas para negros nas universidades no Brasil, poucos políticos ou intelectuais se posicionaram. Preocuparam-se em falar sobre esse tema apenas aqueles que vislumbraram certa perda de espaço em seu campo profissional, em geral se posicionando de forma firmemente contrária à implementação das cotas.
Para finalizar esta reflexão, vale lembrar Freud, em sua luta cética pela liberdade e pela não opressão econômica e cultural, como afirmou Rouanet (2005): “Num mundo em que nem podemos aderir às antigas certezas nem resignar-nos a uma vida sem esperança, é importante seguirmos o exemplo de Freud. Ele nos permite combinar fé e dúvida, a crença na emancipação com a suspeita de que a salvação não é deste mundo”.
O entendimento dos mecanismos da intolerância e o combate a ela possivelmente abrirão possibilidades de simbolização, não apenas nos consultórios, mas nos espaços públicos e de transmissão da metapsicologia, para que não se perpetuem tantas criptas e para que seja possível decifrarem-se algumas delas.

 

*Myriam Chinalli é psicanalista, escritora e editora de livros para crianças e jovens. É co-autora da Coleção Saber Viver, publicada em São Paulo, pela Editora FTD. E-mail: chinallim@uol.com.br

Adaptado do texto “Inconsciente: A Intolerância como segredo”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 59