Interditos da violência brasileira em A menina morta e O som ao redor

Trata-se de um lugar-comum dizer que a matéria-prima da literatura é a palavra, a frase; assim como a do cinema é a imagem, a fotografia. Entretanto, tais diferenças não impedem tentativas de aproximação crítica entre obras pertencentes a essas distintas modalidades estéticas

Por Wiliam Almeida* | Fotos: Divulgação/Cinema Scópio Produções Cinematográfica/Vitrine Filme | Adaptação web Caroline Svitras

Toda obra artística, como afirma André Bazin, é essencialmente “impura”, no sentido de sempre estarem entrelaçadas, em constante permuta com outros gêneros e diversos campos da arte. Então, pretendo traçar aqui um breve comentário das possíveis relações formais e temáticas entre o romance A menina morta (1954) e o filme O som ao redor (2012).

 

Tanto o romance A menina morta, de Cornélio Penna, quanto o filme O som ao redor, dirigido por Kleber Mendonça Filho, são narrativas que buscam representar, por diferentes perspectivas, o retrato histórico e social das relações de classes no Brasil em suas respectivas épocas – relações estas, como veremos logo adiante, fundamentadas na opressão de raça e classe. Penna traça a narrativa do seu romance numa fazenda cafeeira do vale do Paraíba, durante a segunda metade do século XIX; já a narrativa fílmica se situa na Recife contemporânea, especificamente em um bairro de classe média da capital pernambucana. Acredito que a característica que mais aproxima entre si essas duas obras é que ambas são narrativas do interdito – ou seja, aquelas cujo conteúdo está nas entrelinhas. Nesse discurso do interdito, ambos os textos fundamentam a narrativa em um similar jogo dialético: o dito e o não dito; o poder e a ausência de poder; o pesadelo e o real; o familiar e o estranho. Corroborando o que acabei de afirmar, cito passagens das obras, iniciando pelo romance.

 

Já no primeiro capítulo, ambientado, como se disse, numa fazenda cafeicultora, podemos observar como se dá as relações entre raças e classes dentro da Casa-Grande. Em uma sala, duas mulheres costuram a mortalha para as cerimônias fúnebres da filha dos senhores, a “menina morta” do título – aliás, a menina, apesar de morta, sempre está presente, de forma quase fantasmática, nas ações e nos sentimentos dos personagens. Uma das personagens chama-se Dona Frau, senhora de pele branca e olhos claros, provavelmente de origem alemã. A outra personagem chama-se Lucinda, negra, escrava. Transcrevo abaixo a descrição, através do discurso indireto-livre, dos pensamentos de Dona Frau em relação a Lucinda:

Era simples mortalha que confeccionava ajudada pela mucama de dentro, cujo gosto e bom-senso ela confessava em seu íntimo sem nunca deixar transparecer, pois era perpétuo absurdo aquela criatura disforme, cor de chocolate, com enormes olhos coruscantes, ora acesos ora apagados, iguais aos das aves domésticas, ter critério e tato para saber o que ficava melhor e mais elegante nos trajes confeccionados por elas, para pessoas diferentes (PENNA, p.11).

A Seca de O Quinze

 

Agora, de Lucinda em relação à Dona Frau:

Nunca pudera saber bem como aquela mulher branca surgira na fazenda, e quando ouvia descrever “a terra dela” benzia-se em silêncio, pois tudo lhe parecia obra de mágica e feitiçaria naquelas montanhas brancas, onde se erguiam cidades fechadas por muros em torno de igrejas de altas torres, diferentes da capela que sempre vira (PENNA, p.12).

Nas passagens citadas, pode-se ver como ambas personagens, apesar de conviverem no mesmo local, na mesma casa, se contemplam com estranheza, de modo unfamiliar. Se de um lado Lucinda vê a alemã como um ser misterioso e exótico, Dona Frau, por outro lado, apesar de ser apenas uma empregada assalariada da casa, encara sua colega de costura, de ofício, como um ser inferior, como uma “criatura disforme”, uma “ave doméstica”, isso certamente devido à “cor de chocolate” da escrava.

 

 

No capítulo 13 é narrado, em uma cena quase onírica, fantasmagórica, os terrores noturnos do dono da fazenda, enquanto anda pelos cômodos da própria casa: este vê os móveis, os quais, à luz de velas, tomam formas assustadoras e parecem esconder vilões, assaltantes, batedores, um bando assassino; ele ouve o bater surdo de tambores, vindo das senzalas, como sinais de uma iminente insurreição de escravos:

(…), veio então, trazido pelas lufadas de vento morno do início da noite, o bater surdo de tambores, talvez de algum quilombo, onde os negros sentissem necessidades de desafiar os capitães-do-mato, indicando assim sua presença nos longínquos grotões. Imediatamente todo movimento cessou e o negrume das trevas fez-se unido, imóvel, como se tudo estivesse à escuta de algum sinal indecifrável para os brancos, transmitidos assim por aquelas batidas abafadas. (PENNA, p. 61).

 

Nas cenas citadas do romance, a opressão, a violência está presente, mas de forma subterrânea, encoberta, implícita; e de modo semelhante, é desenvolvida em O som ao redor. Aqui a violência é sentida apenas nas entrelinhas. E podemos afirmar, os eventos sócio-históricos apresentados no filme são consequências diretas da situação sócio-histórica apresentada em A menina morta – os latifúndios apenas mudaram a máscara. As diferenças são apenas aparentes, a estrutura social ainda permanece, apesar da distância cronológica: Brasil imperial/Brasil contemporâneo; dono de fazendas/dono de imóveis; escravos/subordinados-empregados.

 

Talvez a cena mais significante de violência velada e “civilizada” n’O som ao redor seja aquela da reunião de condomínio. Nela, os personagens discutem o destino do porteiro do prédio, o qual, após mais de uma década de serviços prestados, começa a fazer, segundo alguns condôminos, “corpo-mole” no serviço, para ser demitido sem justa causa e, assim, ganhar as vantagens monetárias estabelecidas pelas leis trabalhistas. Acontece que os empregadores querem demiti-lo por justa causa, evitando, deste modo, o desembolso dos valores que o porteiro teria direito.

 

O som ao redor também possui, tal como o romance do Cornélio Penna, passagens de pesadelo: em determinada cena, vemos uma garota, filha entediada de um casal entediado sonhando que está sendo desperta por estranhos barulhos vindo do pátio da casa vizinha. Este barulho é produzido por “pivetes” que, incessantemente, caem da árvore, e vão tomando conta, invadindo e ocupando completamente o local, tomando seu apartamento – são os temores, os fantasmas da classe média brasileira em ação.

 

Enfim, para concluir, ponho lado a lado esta cena citada do filme com aquela cena retirada do capítulo 13 do romance. Em ambos, o terror das classes dominantes tem origem em uma possível sublevação das classes de baixo. O medo trazido das senzalas ou das favelas é o mesmo, o horror presente em O som ao redor, portanto, é fruto da memória coletiva brasileira, nascido das experiências retratadas no Brasil de A menina morta. Aquelas fotografias que desfilam na tela durante os créditos iniciais do filme de Kleber Mendonça possuem estreitos laços com o panorama da fazenda cafeicultora registrada por Cornélio Penna.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 67

Adaptado do texto “Interditos da violência brasileira em A menina morta e O som ao redor”

*Wiliam Almeida é mestrando em Literatura e Cultura pela UFBA – Universidade Federal da Bahia. E-mail: almeida.will666@gmail.com