Infância no século XIX

O modelo familiar e social brasileiro do século XIX pouco convive com a ideia de adolescência. Mal saídos da infância, o menino e a menina já se veem envolvidos com as responsabilidades do mundo adulto. Muitas obras da literatura tratam esse período de mudanças

Por Juarez Donizete Ambires* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Na fase de transição da infância para a adolescência, as meninas casam-se muito cedo, e o rapazola é precocemente convidado a pensar nas representações do homem adulto. Ele vive, por isto, o culto ao bigode e à barba. Quanto mais rápido aparecerem estas marcas, tanto melhor. Mais fácil será o ingresso no novo mundo. A presença do buço no rosto é rito de passagem (Freyre, Gilberto. Perfil de Euclides e outros perfis. Rio de Janeiro: Editora Record, 1987). Com ele, a infância masculina está superada e os modos do homem adulto entram em voga ou começam a ser mais firmemente imitados.

 

Na cena literária, vive-se, em dada medida, a mesma negação. Um personagem como o Harold, de Byron, é um adolescente, mas sua expressão humana no poema diz o contrário. O personagem que ali se observa é um ser envelhecido precocemente. Harold carrega consigo esta contradição. Seus anos de vida são poucos, mas a vivência interior é imensa, ao menos na aparência. E o que o leva a isto, em nossa leitura, é sua grande e mesmo doentia capacidade de sentir e imaginar. Aquilo que, porém, de imediato se apresenta é o jovenzinho entre o absoluto e o arrogante, tocado pelo spleen. O fato, contudo, acoberta doses intensas de autodefesa, pois viver dói, leva à solidão e à descoberta da ausência de sentido nas coisas.

 

Foto: Divulgação

O personagem Macário, de A noite na taverna, carrega o mesmo fardo. Ele também é o adolescente angustiado que, em profunda tensão, sofre. Tocado pelo espanto e o medo, ele foi levado a uma situação de grande estranhamento. Em seu caso, entretanto, a crise é mais intensa que a de Harold. Sua aguda sensibilidade o leva à alucinação. Sem que se dê conta do seu delírio, ele vê o diabo e se torna seu interlocutor (primeiro conto). Uma noite, em uma taverna, Macário conta a ouvintes sua medonha experiência. Fora da estalagem, enquanto isto, se desenrola uma noite fantasmagórica, irmã da noite interior do personagem. Na fusão das noites, sobressai-se Macário em sua vida tecida de medos também adolescentes, mas negada enquanto adolescência.

 

No século posterior, entretanto, este padrão de comportamento social se quebra. Entre a infância e a juventude permite-se um episódio chamado adolescência. O padrão americano vai firmá-lo, particularmente após a segunda guerra. Ao cinema dos Estados Unidos cabe a exportação da ideia. Em sequência, também lhe cabe o convencimento indireto da opinião pública para sua aceitação. Em paralelo, algumas expressões que formam opinião assumem a ideia e um novo contexto social se instala. A escola e a família, que são dois exemplos fortes destas expressões, ajudam a fixar a recente construção. Com isto, uma nova faixa etária passa a habitar a cena cultural. As ciências humanas e biológicas se envolvem intensamente com o fato.

 

Lembramos na situação o Juventude transviada (Rebel without a cause). O filme da categoria “drama”, de 1955, traz James Dean no papel principal e, na película, o ator encena a vida de um adolescente rebelde do high school americano. Em cena, estabelece-se um conflito de gerações. O personagem central se põe contrário aos pais e a outras figuras de autoridade. Na estrutura social que habita, põe-se ainda em contenda com outros adolescentes. E, à medida que a história transcorre, um legado se firma: em nosso imaginário, o termo “adolescente” fica estreitamente associado à rebeldia, ao enfrentamento. Paralelamente, associa-se também à dor, ao conflito, à contestação de si mesmo, dos outros, dos valores sociais.

 

Todavia, com a aceitação positiva da adolescência em nossa cultura, tenta-se determinar para ela uma cronologia. Seu prazo de validade, no entanto, tem variado. Contemporaneamente, sua duração se estendeu. Entre nós, ela já dura até os 25 anos, e este limite pode se ampliar. A pressão capitalista das indústrias de produtos para adolescentes com certeza está por trás do fato. Em nosso tempo, crianças e adolescentes são fortes consumidores e o mercado não quer perder estes filões. Adolescentes consomem bonés, tênis, adornos, maquilagem, livros, cinema, tipos de comida e muito mais. A riqueza de uns poucos depende exclusivamente deles. Novas tendências e necessidades, por isto, são sempre pensadas para este segmento.

 

A associação, contudo, entre adolescência e vida cotidiana não é, no século XIX, algo amistoso (Em nossa leitura, o enredo de O ateneu [1888], de Raul Pompéia [1863 a 1895], é comprovação deste fato). Na centúria em questão, a infância é a faixa etária que está em destaque e a atenção que consegue oblitera outras manifestações. O universo romântico efetuou o seu resgate e concedeu-lhe lugar de honra no imaginário das classes sociais. O gesto é uma das convalidações do projeto burguês de vida que, desde o século anterior, está fixando uma nova conduta social e familiar. O modo de vida aristocrático, na sua vez, é a proposição recusada. Nele, a vida adulta é a que se destaca e, em função disto, a infância, por exemplo, está negada. Pinturas dos séculos XVI e XVII nos mostram, por isto, a criança como a representação em miniatura do adulto (Ariès, Philippe. História social da criança e da família. 2ed. Tradução de Dora Flaksman. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1981).

 

Existem referências que defendem o parecer de que há pouca proximidade entre pais e filhos na família aristocrata. Entre aristocratas ricos, a educação das crianças e adolescentes não se dá no seio familiar. Famílias de cabedal e maior estirpe costumam ter sob sua guarda filhos da aristocracia e iniciá-los no mundo das armas. Associada a essa circunstância está a equitação. Em troca, os aprendizes prestam serviços de natureza diversa. Os rapazes com frequência se tornam escudeiros dos senhores que os acolheram. A ida à instituição escolar não é obrigatória. Segundo os valores de época e classe, a boa educação se processa entre os pares, isto é, entre os iguais. Seria desonrosa, neste caso, a aprendizagem de ofícios manuais ou mecânicos.

 

A conversação elegante e outros hábitos da discrição entram em voga à medida que o aristocrata se afasta da carreira das armas (Ambires, J. D. Práticas do Antigo Regime: a formação do príncipe católico e algumas implicações. In: Ambires, Juarez Donizete (org.). Escritos pertinentes. São Paulo: Editora Porto de Ideias, 2012, pp. 41 a 56). O fato instituirá novo modelo de educação entre os aristocratas. Aos infantes, mais do que nunca, cabem as regras da cortesania. Isto acontecerá ao longo dos séculos da Era Moderna. Será ainda mudança de atitude muito fomentada por Luís XIV. O soberano francês traz consigo lembrança de sublevação aristocrática que pretendeu limitar-lhe o poder. Na história francesa, o episódio recebeu o nome de Fronda e ocorreu entre 1648 e 1653. Devido ao fato, o rei atrai para a vida de corte o melhor da nobreza e da aristocracia do seu país. Com a atitude, cria a dependência financeira entre o cortesão e o erário real. Deste modo, afasta a aristocracia do seu passado guerreiro e da mencionada carreira das armas.

 

Já no modelo burguês de educação, o centro das preocupações é a criança. Para ela é que a força do pai mantenedor e o carinho da mãe desvelada convergem. A grande tarefa social deste núcleo é dar à infância a proteção incondicional. Nada é maior que este compromisso. E os procedimentos se justificam devido ao fato de a criança, no projeto burguês, prioritariamente simbolizar o futuro. Não se permite, então, que algo negativo aconteça ao filho. Só a possibilidade do fato já ameaça a segurança de um estilo de vida que não existe desde sempre, mas quer se perpetuar a partir de sua melhor organização. Ele, por isto, busca se fortalecer e luta por sua permanência. A história que ele representa o solicita, pede-lhe a atitude conivente.

 

 

Por isto, a moradia burguesa é no seu padrão médio menor (bem menor) que a aristocrática. O fato, entretanto, permite melhor controle das ações em seu interior. Por conseguinte, promove maior ordenação dos filhos e sua formação. Permite ainda a extensão do asseio sobre tudo e todos e alimentação mais cuidada. A casa destes moldes oferece também a privacidade, palavra-chave no universo cultural burguês. Nesta arquitetura, há corredores que permitem a colocação de portas que delimitam recintos e os separam entre si (Bryson, Bill. Em casa. Uma breve história da vida doméstica. Tradução de Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2011). Há quartos para os filhos (na modernidade, o quarto torna-se o símbolo de estruturação da subjetividade humana), separados por gênero. Há o quarto do casal e a sala de estar que reúne a todos. Nesta casa, há ainda lugar para os animais domésticos que muito ajudam no desenvolvimento dos afetos.

 

O cão e o gato são, particularmente, os animais domésticos que chegam à categoria de bichos de estimação. No modelo burguês, deixam o quintal e adentram a casa. No interior das moradias, conhecem o colo dos donos e o seu afago, interagem com as crianças, tornam-se amigos e companhia. Historicamente, passam a rivalizar com os animais que os aristocratas apreciavam. Tornam-se, por isto, o contraponto a cavalos de equitação, galgos de caça, aves de rapina treinadas para o ataque e os torneios (Thomas, Keith. O homem e o mundo natural. Tradução de João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 2001). No processo da ascensão burguesa, representam a difusão de uma sensibilidade mais compassiva. A mesma sensibilidade se comove com o sofrimento, fala em solidariedade e humaniza outros seres.

 

A leitura na idade adulta

 

No caso, o que leva a tanto é o interesse em negar, como já se indicou, o modelo familiar rival – o aristocrático. Em paralelo, processa-se também a convalidação de novos estereótipos sociais. A partir de agora, o pai, com o seu trabalho, garante o sustento da célula familiar. A família aristocrática é estendida, agrega gente de fora das relações biológicas; já com a burguesa dá-se o inverso. A mãe, no seio da casa, é a figura que evita os atritos, que dispensa atenção a todos e organiza o emocional do pequeno coletivo. À criança, na sua vez, cabe-lhe assimilar este modelo, ir à escola e, em sua vida adulta, imitar os procedimentos paternos. Em paralelo, cabe-lhe ainda a aura da angelitude. O sentimento de vida do episódio associa os fatos. Em idealização, crianças e anjos se confundem, tal como, nos seus gestos mais simples, ingenuidade e pureza.

 

Nesta linha de correlações românticas, na criança do século XIX cumpre-se um preceito evangélico: sendo a pureza e a ingenuidade, ela é modelo para o homem adulto. E quem quiser atingir o reino dos céus, em vida tem de ser como uma delas (Mateus 19,14). Na contrapartida literária, “o menino é o pai do homem”, segundo o verso de Wordsworth, poeta inglês. Por isto, na criança está o futuro, como todo um projeto de vida que pede cuidados. Em sintonia com o mesmo fato, as biografias, editadas após a instituição destes valores, começam pela infância as vidas que contêm. O procedimento não era marca do gênero, mas passou a ser. Com isto, inverte-se uma proposição e a infância torna-se tão ou mais importante que a vida adulta.

 

É pena que nem sempre a realidade esteja em plena sintonia com as afirmações culturais que abarca. Tem-se, por isto e em paralelo, a criança pobre que, no mesmo século XIX, é duramente explorada no trabalho. À época, o projeto burguês não se estende a todos e, em certos setores da sociedade, as condições de existência estão longe do ideal. Aos poucos, contudo, vai crescendo a adesão ao projeto burguês e chega-se, em nossos dias, à concordância de que lugar de criança é na escola e sob proteção. Todavia, sem o culto à infância engendrado pelos românticos, o social, cremos, não teria passado por tão grande modificação em seus valores. As crenças românticas em relação à infância passam a habitar nosso imaginário, ficam conosco.

 

Entre os românticos fica estabelecida a confiança na ideia de que a infância é o melhor período de nossas vidas. Nós, seus herdeiros, acreditamos no fato e à infância voltaríamos, se nos fosse possível. Para o que carregamos em nosso recôndito, ela é o paraíso perdido. Por isto, temos saudades suas, seguindo Casimiro de Abreu (Casimiro José Marques de Abreu – 1839 a 1860). No poema “Meus oito anos” (o oitavo do livro As primaveras que é de 1859), o fato se explicita. Nele, o poeta dá espaço a um eu-lírico que, imaginando, volta ao seu passado e idealiza sua infância. O retorno é ainda assumido refúgio. Acena, ao fundo da poesia, um presente adverso que estimula a viagem no tempo e convida à evasão. As dificuldades que ora se enfrentam são toleráveis somente no retorno emocional às origens que, miticamente, são perfeitas, tal como o paraíso é perfeito.

 

Saiba como trabalhar a leitura na infância

 

É preciso ainda que se diga que, no poema de Casimiro, a infância se faz pela saudade. Para que isto ocorra, o leitor vê-se em meio a um bailado. O ritmo traz um quê de rodopio. Em nossa leitura, há música na progressão dos versos. Talvez se pudesse falar em valsa dissimulada na construção do raciocínio. Devido ao fato, antes de tudo infância é música. Depois, sucessão de imagens que estão na retina dos olhos interiores. Assim, a infância que acontece no poema, em concomitância é o sol, o céu forrado de estrelas, as ondas beijando a areia, a terra e seus aromas. Antes, fora a inocência, a ausência do perigo, já que o mar evocado se apresenta como “lago sereno”. Paralelamente, a mesma infância é o universo familiar, no qual a mãe e a irmã estão em cena, distribuindo afagos e amor.

 

E esta aura que cerca a infância passa a ser tão forte que, na interioridade do movimento romântico, ela se encontra com outro mito. A atenção que a escola literária dá ao índio, por exemplo, é muito semelhante à que dispensa à criança. No romantismo, o índio e a criança são seres em identidade. Tal como o menino, o selvagem se associa ao paraíso e ao ato da criação. Em sincronia, a cor do aborígene é a do barro inaugural. Ele e a criança se explicam na mesma frequência e significado. São vistos ainda como as representações dos seres não corrompidos pela civilização. Por isto, são modelos nos quais nos refletimos à procura de nós mesmos. Jean-Jacques Rousseau (1712 a 1778) acreditava no fato e nele se inspirou para a hipótese do mito do bom selvagem, curiosamente análise indireta do mundo que lhe era contemporâneo.

 

O movimento romântico faz circular estes fatos, populariza-os. Ele, contudo, não é o responsável pela introdução, em nossa prosa, de personagens infantis. Ainda no Brasil, José Martiniano de Alencar (1829 a 1877), para exemplo, deixa-nos interessantes perfis femininos, mas nenhuma de suas heroínas está envolvida com a maternidade ou com crianças. Maternidade e infância são, com certeza, temas correlatos, porém esta junção não ocorre nas narrativas do escritor cearense. O mérito das personagens infantis é mais um feito machadiano. O bruxo do Cosme Velho leva-os para nossa literatura e cria-os encantadores, complexos, intrigantes, matreiros, maldosos, perspicazes. Em Joaquim Maria Machado de Assis (1839 a 1908), as crianças são seres vivos e atuantes no tecido social que as envolve. O assunto, entretanto, pede estudos acurados e a observação fica como convite para outros pesquisadores.

 

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*Juarez Donizete Ambires é professor de Língua e Literatura Portuguesas no Centro Universitário Fundação Santo André. Contatos: juarez.ambires@bol.com.br; http://lattes.cnpq.br/5231846291164013

Adaptado do texto “Infância e um pouco de adolescência na visão sócio-literária do século XIX”