Inclusão auxilia autistas no processo de aprendizagem

Da Redação | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Aparecendo nos primeiros anos de vida, proveniente de causas ainda não totalmente conhecidas, o autismo tem se tornado um desafio para educadores e especialistas, demandando um atendimento multiprofissional e uma estreita ligação entre escola e família. Nesta entrevista o especialista no assunto, Professor Eugênio Cunha, esclarece dúvidas e discorre sobre o autismo.

 

O que é o autismo?

O autismo é um transtorno de causas ainda não totalmente conhecidas, mas com grande influência genética, que compreende dificuldades na comunicação, na interação social e um padrão comportamental restrito e repetitivo. O grau de comprometimento é bem variável: leve, moderado ou grave, com sintomas bem diferentes, mesmo em pessoas que tenham o mesmo nível de comprometimento.

 

Quais são os principais sintomas?

Dificuldades de compreender símbolos de linguagem e códigos sociais, dificuldades de interagir com as pessoas, estereotipias e, em alguns casos, a deficiência intelectual. Há alguns sinais que podem ser percebidos desde cedo: isolamento social, ausência de contato visual, resistência à mudança de rotina, manuseio não apropriado de objetos, transtorno de processamento sensorial e movimento circulares no corpo.

 

Manifesta-se entre quais idades?

É mais comum identificarmos o autismo por volta dos 3 anos de idade, principalmente quando a criança está na escola e qualquer diferença comportamental ou dificuldade de socialização é mais bem percebida. Mas é comum identificar sinais de autismo precocemente, quando, por exemplo, o bebê não faz contato com os olhos, não sorri, chora muito, não balbucia palavras e não aponta.

 

Como educar o aluno com autismo?

A educação nas escolas inclusivas, independentemente do grau de severidade do autismo, deve ser vivenciada na sala de recursos e na sala do ensino comum com todos os alunos, favorecendo a socialização, porque incluir é aprender junto. É preciso estabelecer um plano de ensino em conjunto com a família. Muitas vezes, a elaboração de uma rotina em casa, articulada com uma rotina na escola é um caminho para ajudar o autista a autorregular-se e a inserir-se no espaço escolar. As práticas de ensino devem ter predicados da ludicidade. Independentemente da idade, do nível de ensino ou do grau de comprometimento, o espaço escolar deve favorecer o prazer de aprender. Na verdade, quando há prazer no processo de aprendizagem há ludicidade. Não importa a atividade que realizamos. O lúdico significa fazer por gosto, dar gosto ao que se faz também por rotina. Nele, se encontra um componente essencial na educação: o afeto.

 

Como seria um currículo que atendesse as necessidades do desenvolvimento do autista?

Primeiramente, é preciso destacar que o autista aprende de forma singular, então, o que pode funcionar com um aluno, pode não funcionar com outro. Porém, o importante é atentar para as necessidades do estudante, utilizando suas habilidades para suprir suas carências. A partir daí, o professor pode elaborar um currículo funcional ou adaptado. No currículo funcional, priorizam-se habilidades sociais, tais como higiene pessoal, comunicação, autonomia diária. É um currículo funcional, pois busca dar funcionalidade à vida social. No currículo adaptado, priorizam-se os conteúdos mais importantes da matriz escolar que serão ensinados aos demais alunos. A utilização de um currículo não elimina o outro. Podemos trabalhar os dois currículos juntos, mas sempre será necessário adaptar a forma de ensinar e, na maioria das vezes, será preciso a presença de um mediador.

 

Muitas escolas não orientam ou não orientam adequadamente o professor para lidar com a situação. Como adquirem, então, as informações necessárias?

Há muita carência na formação dos profissionais. As escolas ainda não estão preparadas para ensinar alunos com autismo. O que vemos são algumas escolas interessadas que capacitam seus profissionais, bem como professores interessados que se capacitam, estudando ou fazendo cursos. Felizmente, já é possível encontrar com maior frequência livros que abordam o ensino da pessoa com o transtorno.

 

Quais atividades podem ser aplicadas na sala de aula?

Vai depender do grau do autismo. Se o aluno estuda numa escola regular, ele terá que fazer, na medida do possível, as mesmas atividades que seus colegas de turma fazem. De um modo geral, se a escola tem uma filosofia inclusiva, ela poderá adaptar muitas atividades a partir do educando incluído para que todos os alunos façam juntos. Há sempre boa receptividade em atividades com livros, tecnologias digitais, artes e matemática.

 

Quais a expectativas que os professores podem ter em relação ao desenvolvimento do aluno autista?

O aluno autista aprende, pois a aprendizagem é característica do ser humano. Mas é necessário estabelecer vínculos com situações concretas da escola. Vínculos, principalmente, com a condição discente. Educar o aprendente com autismo é constituir uma relação dialógica que pressupõe um jeito diferente de aprender e, como consequência, um jeito diferente de ensinar.

 

Algo que queira acrescentar?

Para haver inclusão de fato, é preciso fazer cumprir a Lei 12764/12, Lei Berenice Piana, que garante ao autista atendimento multiprofissional, nutrição adequada, acompanhante especializado, dentre outras coisas. É preciso que se criem espaços públicos e gratuitos de apoio às escolas regulares e à família, como a Clínica-Escola do Autista, em Itaboraí. É preciso que os governos formem e capacitem seus professores. É preciso que se desenvolvam materiais pedagógicos e, acima de tudo, é preciso que todos acreditem na condição aprendente do autista.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 63

Adaptado do texto “Como tratar o autismo nas relações entre escola, educadores, alunos e famílias de alunos”