Incentive as crianças a ler

O hábito da leitura deve ser estimulado até mesmo antes de a criança aprender a ler. E quando essa criança vai para a escola, esta passa a ter responsabilidade por continuar estimulando esse novo leitor.

Por Maurício Silva* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Hoje em dia, cada vez mais, torna-se imperativa uma política educacional que se fundamente, prioritariamente, no estimulo à leitura, em especial na leitura de literatura, principalmente por ser ela um gênero discursivo que, de modo mais abrangente, trata não apenas da infinita variabilidade linguística, mas também da representação estética de um imensurável universo cognitivo.

 

Particularmente no âmbito do Ensino Fundamental, uma política de incentivo e promoção da leitura deve, antes de tudo, levar em consideração os mediadores que, atuando juntamente com outras instâncias institucionais, deverão agir como principal canal de veiculação, para os alunos, do texto escrito. Daí a necessidade mais imediata de se formar agentes capacitados justamente a desempenhar esse papel de mediador entre o texto e seu leitor, realizando o que se pode chamar de letramento literário, que tem na leitura seu mais eficaz ponto de partida.

 

A leitura, considerada no seu sentido lato, contribui substancialmente para o desenvolvimento da cidadania, resultando num amplo processo de inclusão social e afirmação identitária. Daí a necessidade de sua promoção de forma orgânica e sistemática, por meio da qual se confere ao cidadão maior competência profissional e inserção social. A rigor, o que um projeto intensivo de letramento literário propõe é a articulação de competências e habilidades individuais, com o propósito de equacionar, de modo positivo, as várias distorções presentes na sociedade brasileira. Dessa forma, incentivar a leitura, por meio da formação de mediadores capacitados, representa não apenas uma maneira de democratizar o saber, mas também de utilizar esse conhecimento em benefício da sociedade como um todo.

 

Aprender a ler e a escrever: uma possibilidade de inclusão social

 

É nesse sentido abrangente de uma prática voltada para a reconfiguração de uma sociedade tradicionalmente excludente, como tem sido a brasileira, que a leitura adquire plena importância no contexto social contemporâneo, atuando de forma efetiva na eliminação dos percalços que entravam a aplicação de uma política educacional inclusiva.

 

Uma pedagogia voltada para o incentivo e a promoção da leitura deve, desse modo, preocupar-se também com a construção de um imaginário assentado no amplo universo composto por instituições e práticas relacionadas à leitura, universo esse que leve em conta desde o papel desempenhado pela escola e pelos professores, como também por outros promotores do livro, como as editoras, os escritores, os veículos de comunicação etc. Cria-se, assim, uma rede de elementos interagentes, capazes de alargar o alcance da leitura e fazer dela o elemento central nesse processo de renovação da educação, a partir da prática de desenvolvimento do letramento literário. E a sala de aula, num sentido abrangente, sem ser o único, é o espaço por excelência onde se começa a exercitar essa prática.

 

 

Desenvolver a competência discursiva do aluno; criar condições de aprendizagem e de socialização a partir do contato direto com a literatura e seus diversos promotores; oferecer ao leitor uma gama variada de possibilidades de interação com os agentes institucionais de ensino; desenvolver a capacidade plena de comunicação escrita, estimulando o conhecimento de culturas variadas, a partir do contato com o mundo imaginário da literatura; valorizar a recente produção literária infantojuvenil, resgatando a consciência integradora das manifestações interculturais; enfim, considerar a literatura como área articuladora de aspectos diversos do conhecimento, promovendo a interdisciplinaridade, são alguns dos propósitos que uma política de promoção da leitura consciente e socialmente responsável deve buscar atingir.

 

Isso não se faz sem um planejamento amplo, que envolve, como sugerimos, vários agentes de produção, promoção e veiculação da literatura. Incentivar o hábito de leitura e promover o texto literário como centro integrador de conhecimentos diversos, adquiridos no contato direto com o livro e seu autor, torna-se, assim, uma maneira de reconfigurar a prática da leitura, a partir do conceito nuclear, aqui aludido, de letramento literário: utilizando como ponto de partida a produção literária infantojuvenil, o letramento literário atua como instrumento de desenvolvimento da leitura na escola, possibilitando a interação entre autor, texto e leitor e, ainda, atuando no sentido de viabilizar a inserção da literatura infantojuvenil no processo de alfabetização da criança. Desse modo, o letramento literário acaba por ampliar as possibilidades do emprego da escrita no processo de alfabetização da criança, desenvolvendo sua capacidade crítica diante da sociedade na qual ela se insere e mostrando-se, igualmente, propício ao desenvolvimento psicofísico e linguístico da criança. Partindo dos pressupostos pedagógicos expostos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), uma ação político-educacional voltada para o letramento literário busca também refletir acerca da atuação do educador no processo de formação do aluno, destacando o papel que as obras de literatura infantojuvenil desempenham junto aos vários aspectos formativos da criança e do jovem (emotivo, psíquico, biológico, social etc.).

 

Desse modo, obtém-se, de forma mais eficaz, como resultado imediato dessa política, maior intimidade com o texto literário, primeiro passo para que se possa desenvolver no leitor em formação o tão debatido gosto pela leitura; por extensão, alcança-se também, como resultado desse processo, a habilidade na manipulação de um instrumental adequado à análise e à interpretação da obra literária, desenvolvendo no leitor uma competência crítica.

 

*Maurício Silva é doutor em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo e professor dos cursos de Letras e Educação na Universidade Nove de Julho.

Adaptado do texto “Incentivar a leitura: uma prática cada vez mais necessária”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 64