Incentivando a leitura por meio dos quadrinhos

Por Luzdalva S. Magi*| Adaptação web Caroline Svitras

 

Em um país no qual não se cultiva o hábito da leitura e cada dia que passa a distância entre livros e pessoas aumenta vertiginosamente, a minha área de trabalho se torna difícil, penosa, sem perspectivas. Por isso, é de suma importância criar formas de incentivo, driblar a preguiça e o tédio, instigar a imaginação e descobrir competências que ainda não vieram à tona. Ler uma obra literária é partilhar o momento histórico da sua criação, é penetrar na idealização do escritor e em sua intimidade criativa, é trazer para a realidade o que foi concebido perfeitamente no plano das ideias, é romper com a barreira do tempo entrecruzando costumes e conceitos,portanto, não é uma empreitada fácil.

 

Sou formada em Letras e professora da Rede Pública, Rede privada e Rede Municipal. Ensino Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Técnicas de Redação e Literatura. As disciplinas que leciono dependem da ferramenta básica que é a leitura e da habilidade de interpretação de textos. Sou casada com um professor de História e Filosofia que ama Literatura e por ser um fã apaixonado de quadrinhos, um dia trouxe para casa a coleção chamada Clássicos da Literatura (Editora Abril), protagonizada pelas personagens da Disney. A nova aquisição do acervo de meu esposo me fez ter uma grande ideia, trabalhar os Clássicos de uma forma lúdica, agradável e diferente. Foi assim que nasceu o projeto de leitura e interpretação textual “Quem conta o que lê só faz aprender”.

 

 

Clássicos da Literatura em HQs

A princípio, meu projeto abrangia apenas o Ensino Fundamental II, 6°, 7°, 8°, 9° ano lendo quadrinhos nas aulas de Literatura, mas não era qualquer quadrinho, eram histórias como “O Corsário Negro” de Emilio Salgari, “Romeu e Julieta”, “Sonho de uma Noite de Verão” de Shakespeare, “Dom  Quixote de La Mancha” de Cervantes, “Comissário Maigret” de Georges Simenon, “As Viagens de Marco Polo” e muitos outros, todos interpretados por Donald, Tio Patinhas, Mickey e a turma da Disney. As aulas de Literatura são direcionadas à leitura, e as aulas de Técnicas de Redação são utilizadas para que os alunos redijam suas experiências como leitores e recontem a obra do seu ponto de vista. Textos maravilhosos surgem, cenas são recontadas com uma clareza de detalhes impressionante. Eles aprendem a enxergar o homem e sua época, a diferença de costumes e linguagens. De repente, eu me vi cercada de pequenos críticos literários que em suas redações e resenhas interpretam mesmo a mensagem que leem. Isso me enche de orgulho.

 

Macbeth, de Shakespeare

 

No início da aula de Literatura, os quadrinhos são dispostos na mesa e cada um escolhe aquele que quer ler ou trocar com o colega. Quinze minutos antes de terminar a aula cada aluno marca a página na qual parou e escreve no caderno da disciplina um pequeno resumo do que foi lido para manter um registro e ter seu ponto positivo e o visto da professora. Depois de terminada a leitura dos exemplares escolhidos no mês, grupos são formados e iniciam um seminário sobre o que foi lido. No seminário, eles apresentam a obra, o autor, a relevância do tema, o contexto histórico. Em seguida o grupo abre oportunidade para que a classe faça perguntas. O trabalho possui duas etapas, a primeira que é a fase da leitura e da compreensão do texto, a segunda que é o desenvolvimento do trabalho escrito e a apresentação em forma de seminário. É possível trabalhar tanto dividindo o projeto em bimestres quanto em trimestres. Depois da experiência com HQs os alunos se mostram muito mais hábeis com a leitura de livros não ilustrados.

 

 

Mangás

Dado o primeiro passo com o Ensino Fundamental II, veio o desejo de expandir a experiência levando para o Ensino Médio a proposta de leitura. Novamente os quadrinhos permearam meu caminho, nesse caso, a diversidade era suportável  devido à maturidade do nível a ser trabalhado. No Ensino Médio, a proposta teve como ponto de partida os mangás, uma modalidade japonesa de quadrinhos, ligada ao universo anime, cuja preferência é muito grande entre os jovens. Alguns títulos como “Gen – Pés Descalços” de Keiji Nakazawa, “Lobo Solitário” de Kazuo Koike e Goseki Kojima foram lidos e transformados em resenha crítica nas aulas de Técnicas de Redação.

 

 

Depois de iniciar com algo palatável para o gosto juvenil veio o momento de juntar o útil e ao agradável, trabalhando em conjunto a interpretação e a produção textual com foco no vestibular e, para isso, foi utilizada a coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos, da Editora Escala Educacional. Títulos como “Uns Braços” de Machado de Assis e A Nova Califórnia” de Lima Barreto foram lidos, discutidos, resenhados e apresentados em forma de seminário. Para mesclar linguagens e explorar traços estilísticos, depois da magnífica coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos parti para os clássicos estrangeiros. Utilizei para leitura a coleção Classics Illustrated, da editora Abril Jovem, com títulos como “A Queda da Casa de Usher” de Edgar Allan Poe, “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë, “Grandes Esperanças” de Charles Dickens, “Tom Sawyer” de Mark Twain. Nos trabalhos de produção de textos os alunos comparam traços estilísticos dos escritores lidos, observam contexto histórico, costumes e peculiaridades linguísticas, apresentam seminários e promovem debates sobre diferenças de estilos.

 

No começo do projeto eu quis apenas incentivar o ato de ler, mas esse aspecto diferente de aula foi proporcionando uma amplitude no saber e no fazer que me surpreendeu de uma forma positiva e gratificante. Os objetivos que tracei em termos pedagógicos foram atingidos de forma plena tanto no Ensino Fundamental II quanto no Ensino Médio. Meus alunos aprenderam a manejar a ferramenta da leitura e com isso produzir textos melhores e mais coesos. Percebi que a opinião, o debate e a fundamentação aconteceram de forma natural durante as aulas o que denota maturidade na decodificação dos signos, aprimoramento no uso dos elementos linguísticos e maior poder de questionamento e de elaboração de juízo de valores. Ver pessoas tão jovens trocando o senso comum pelo senso crítico e desenvolvendo ideias com propriedade me faz acreditar que educar é possível.

 

Emily Brontë

 

Durante muito tempo houve preconceito com relação as HQs como ferramenta de aprendizagem, pais proibiam filhos de lerem quadrinhos com receio de que a criança adquirisse vícios de linguagem, ou apenas por considerar uma literatura menor. Atualmente, a utilização de histórias em quadrinhos em sala de aula é um fato. Temos cursos acadêmicos que tratam a respeito do discurso nas HQs (USP/ ECA, curso de editoração de quadrinhos), autores de livros que tratam dos quadrinhos como ferramenta em sala de aula e se dirigem tanto aos professores quanto aos alunos (livro “Quadrinhos na Educação” Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos).

 

Os tempos mudaram, com a globalização, a influência da internet e a rapidez da informação, metodologias de ensino devem ser pensadas, preconceitos devem ser reavaliados tendo como objetivo o avanço da educação. Ensinar um indivíduo é também aprender com ele e, para isso, devem-se experimentar novas possibilidades, novas metodologias e, sobretudo novas ferramentas. Professor que não se reinventa perde o bonde da história.

 

 

*Luzdalva S. Magi é professora de Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Língua Francesa e suas Literaturas, Técnicas de Redação e Análise do Discurso é também Crítica Literária formada em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA). Trabalha na Rede Particular e Municipal da cidade de Santo André, no ABC.

Adaptação do texto “O universo dos quadrinho reinventando os clássicos”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 51