Humberto Campos: um maranhense polígrafo e polêmico

Por Maurício Silva* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Embora nem sempre lembrado pelas atuais historiografias literárias, o pré-modernismo brasileiro foi um período de singular importância no nosso cenário literário, com nomes fundamentais para a consolidação da literatura brasileira como expressão autônoma e madura no século XX: Monteiro Lobato, Lima Barreto, Graça Aranha, Augusto dos Anjos e muitos outros são apenas alguns dos nomes importantes que perfizeram aquele período, ao lado de outros que, apesar de pouco conhecidos hoje em dia, foram sucesso de público na época em que produziram suas principais obras. É o caso de um Coelho Neto, um Afrânio Peixoto, um João do Rio, mas também de um maranhense que se tornou, então, uma referência em nossas letras, principalmente por sua atuação como jornalista, mas também por sua criação como contista, crítico literário, cronista, poeta, memorialista, etc.: trata-se de Humberto de Campos (1886-1934).

 

Humberto de Campos é, sem dúvida alguma, um dos autores mais copiosos e polígrafos que a nossa literatura conheceu. Seja como jornalista, seja como escritor de ficção, não perdia a oportunidade de registrar tudo o que via, em quase 50 anos de vida. Sempre premido pela vital necessidade de sustento, produziu uma vasta obra, embora os estudos sobre ela sejam escassos, raros mesmo. Permanece, nesse sentido, como um escritor parcialmente desconhecido, lembrado apenas no restrito círculo do meio acadêmico e ainda assim superficialmente.

 

Obras psicografadas

Era de origem humilde, nascido no município de Miritiba, que desde 1934 passou a se chamar Humberto de Campos, no Maranhão. Começou a trabalhar cedo (aos seis anos) no comércio de São Luís, com a morte de seu pai, tendo aos 17 anos se mudado para o Pará, onde já começara a atuar como jornalista. Já aos 24 anos, publica seu primeiro livro – uma antologia de poemas intitulada Poeira (1910). Muda-se, dois anos depois, para o Rio de Janeiro, onde adquire fama de escritor e principalmente cronista: escrevendo sob o pseudônimo de Conselheiro XX ganha, finalmente, fama nacional.

 

Guia para leitura de A Cidade e as Serras

 

Há episódios marcantes na vida desse polígrafo, que até o fim da vida dedicou-se a escrever na mesma proporção em que lamentava ter que “vender” o cérebro para ganhar o pão. Ingressando na Academia Brasileira de Letras em 1919, atuou ainda como deputado federal por Maranhão (1920-1930), quando fora cassado pela Revolução de Vargas, em 1930. Um dos fatos mais curiosos da história de Humberto de Campos se passa, contudo, após a sua morte: tendo falecido em plena fama, muitos de seus livros e textos (inéditos ou não) foram publicados, entre eles alguns psicografados pelo célebre médium Chico Xavier, portanto de autoria suposta do escritor maranhense. Por não ter pagado direitos autorais à família, Chico Xavier foi processado judicialmente, mas não ganhou a causa. A “relação” entre os dois, médium e escritor, era, contudo, antiga: na ocasião da publicação do primeiro livro psicografado por Chico Xavier (Parnaso de Além-Túmulo, de 1932, em que o médium mineiro psicografara poemas supostamente escritos por famosos poetas brasileiros já falecidos), Humberto de Campos escrevera algumas crônicas a respeito da edição, crônicas, aliás, que ficavam entre o elogio e a ironia.

 

Após o falecimento de Humberto de Campos, Chico Xavier teria recebido sua visita espiritual, o que resultara na incrível soma de 12 livros publicados sob o “comando” do autor maranhense, agora numa produção além-túmulo, própria de um típico polígrafo mesmo depois da morte. Dez anos após seu falecimento, contudo, viúva e filhos do autor processam judicialmente Chico Xavier e a Federação Espírita Brasileira (por onde os livros foram editados), processo que se transformou numa grande e dilatada polêmica, ganhando as páginas dos jornais, mobilizando a opinião pública e tornando-se o tema do momento. Numa primeira instância, a ação foi considerada improcedente, pois, conforme afirmava o juiz do caso, não se poderia conferir ao falecido direitos civis (considerando-o um autor de fato) e não se poderia conceder à família direitos herdáveis de obras supostamente não produzidas em vida. Embora a família tenha recorrido da decisão, sem sucesso, a polêmica continuou ainda a tomar as páginas dos jornais por um bom tempo, envolvendo desde a opinião de advogados até uma entrevista da própria mãe de Humberto de Campos, aparentemente favorável à tese de que os textos psicografados eram mesmo do dileto filho.

 

Diário Secreto

Outras polêmicas envolveram o nome de Humberto de Campos: foi o caso, por exemplo, da publicação, em 1954, de seu Diário Secreto, obra que escreveu ao longo de toda a vida profissional, tendo deixada inédita até duas décadas após o seu falecimento. O “problema”, aqui, é que a publicação do livro trouxe à luz aspectos e impressões pessoais acerca de várias personalidades do período em que Humberto de Campos viveu, alguns dos quais se revelaram “impublicáveis”.

 

Embora tenha escrito – em vida! – algumas dezenas de livros, sua produção não logrou realizar-se plenamente como obra de valor estético elevado, qualquer que seja o critério que se utilize para sua apreciação. Mas é preciso lembrar que o autor exerceu influência inestimável em sua época. Sua ascendência sobre o meio carioca das três primeiras décadas do século passado não é, nesse sentido, de todo desprezível e esse já parece ser um argumento suficiente para que dele nos lembremos com mais frequência.

 

A volta do flautista de Hamelin

 

Como cronista, por exemplo, trabalhou para diversos jornais e periódicos ao longo de toda a vida, podendo-se destacar, nesse sentido, pelo menos duas fases distintas: a de cronista jornalístico propriamente dito, comentador ligeiro de fatos cotidianos, e a de cronista ficcional, com as suas peças apimentadas, espécie de pequenos contos escritos principalmente para O Imparcial, sob o pseudônimo de Conselheiro XX. Em ambas, destacou-se por empregar um estilo claro, embora helenizante, carregado de metáforas e motivos orientalistas. Tendo como argumento principal pequenos incidentes da classe média urbana, assume quase sempre um moralismo excessivo (Da Seara de Booz, 1918), transformado – a partir da década de 1930, quando se torna um político cassado pela revolução getulista – num tom amargurado e pessimista (Os Párias, 1933). Depois dessa fase, já no fim da vida, o tom pessimista cederia lugar, mais uma vez, a uma visível melancolia, própria de um autor condescendente com a vida, marcado pelo sofrimento e sobretudo desiludido com os desenganos do mundo (Reminiscências, 1957).

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55

Adaptado do texto “Humberto Campos: um maranhense polígrafo e polêmico”

*Maurício Silva é professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira nos programas de graduação e pós-graduação da Universidade Nove de Julho. Autor de “A Hélade e o Subúrbio: Confrontos Literários na Belle Époque Carioca” (São Paulo, Edusp, 2006) e de “O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (São Paulo, Contexto, 2008), entre outros títulos.