HQs ganham cada vez mais espaço no gosto do público

Desde que começaram a se tornar populares no começo do século XX, os quadrinhos foram alvo de opiniões desfavoráveis por parte de estudiosos e críticos pertencentes à chamada alta cultura

Por Nobu Chinen* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Nos Estados Unidos, para serem aceitos nas grandes cadeias de comércio de livros, os quadrinhos usaram de um artifício. Will Eisner teve a ideia de denominar de graphic novel sua HQ inédita Um Contrato com Deus, de 1978, que, por ter um conteúdo mais elaborado e mais volumoso, foi impressa em forma de livro. Segundo depoimentos do próprio Eisner, era um recurso para dar uma certa sofisticação ao volume e fazer com que as livrarias o expusessem e comercializassem, uma vez que os quadrinhos eram vendidos apenas em bancas e lojas especializadas, as comic shops. Desde então, criou-se uma nova categoria e, com a conquista do direito de ter seus produtos expostos nas vitrines e prateleiras, os editores passaram a investir no novo formato, com papel de qualidade, histórias mais extensas e de trama mais bem desenvolvida e impressão caprichada.

 

Na realidade, o termo graphic novel ou a variação picture novel já era utilizado há pelo menos dez anos. Há registros de trabalhos publicados na década de 1960 com a expressão na capa, como o álbum Bloodstar, de Richard Corben. Um Contrato com Deus nem é exatamente um romance, que seria a tradução mais fiel de novel, mas um conjunto de contos. A denominação é mais adequada a obras como Maus ou Watchmen que, embora tenham sido publicadas em capítulos, compõem um conjunto íntegro de maior extensão. Por conta da boa aceitação do público, muitos títulos acabaram entrando no embalo das graphic novels. Reedições de revistas clássicas, compilações de séries nem tão antigas e trabalhos de cunho mais autoral e de excelente nível, com pequenas tiragens, dividiam as prateleiras com material de qualidade abaixo da média, mas que tinham uma bela capa dura. Tudo acabou virando graphic novel.

 

A semelhança com a literatura

Um importante espaço havia sido conquistado, mas, afinal, os quadrinhos são literatura? Devem ser considerados, avaliados e valorizados como tal? Se além do componente escrito existem elementos ilustrados, uma conclusão óbvia é que eles são até mais do que literatura.

 

Os quadrinhos seriam, portanto, algo além de, mas, também e no mínimo, literatura. Sempre se diz “ler quadrinhos” e não ver ou assistir aos quadrinhos. Expressões como literatura da imagem, literatura ilustrada ou literatura desenhada eram de uso corrente para denominar as HQs. O suporte físico e o processo de impressão, afora detalhes técnicos, são os mesmos.

 

Ao bom autor de quadrinhos é necessário possuir as mesmas competências de quem produz um texto de qualidade: saber contar uma história, ser capaz de desenvolver a profundidade psicológica dos personagens, ter o domínio do timing e do ritmo, dar densidade ou, se for o caso, leveza ao texto e, aquilo que é tão difícil definir: ter um estilo próprio. Sem contar que, em tese, toda HQ começa com um roteiro escrito. Um texto soberbo, porém, não é o bastante para sustentar a qualidade de uma HQ. Seu autor, ou alguém que o faça por ele, precisa ter talento e domínio técnico para dar ao roteiro o visual mais adequado, o que requer destreza em outras áreas do conhecimento artístico.

 

Por esse motivo, há teóricos que defendem que a semelhança entre a literatura e os quadrinhos se restringe ao fato de serem impressas em formato de revistas ou livros, pois seriam formas de linguagem distintas, dotadas de características próprias e, como tal, devem ter padrões específicos de análise. Para tais estudiosos, seria totalmente incompatível avaliar uma linguagem por meio dos parâmetros de outra, assim como não se deve analisar um filme pelos mesmos critérios usados para criticar uma música. Os quadrinhos, em sua longa história, já teriam desenvolvido uma “gramática” própria, uma maneira de se expressar que lhe é exclusiva e peculiar.

 

Leitura recomendada

Al Capp foi um autor genial nos anos 1940/1950. Suas tiras diárias provocavam a América que vivia sob o jugo da caça aos comunistas.

A lista a seguir é composta de títulos disponíveis em português e que compõem uma biblioteca básica de boa literatura em forma de quadrinhos.

1 – Balada do Mar Salgado, de Hugo Pratt – Pixel Media

Por que ler: uma narrativa de aventura elaborada por um dos mais habilidosos mestres dos quadrinhos. Primeira aparição de um personagem fascinante: Corto Maltese.

2 – Gen de Hiroshima, de Keiji Nakazawa – Conrad Editora

Por que ler: um doloroso e contundente relato de uma vítima que sobreviveu à bomba atômica. Mostra que é possível haver perdedores entre os perdedores.

3 – Lobo Solitário, de Kazue Koike e Goseki Kojima – Panini Comics

Por que ler: um mangá em estilo clássico, épico, que narra a trajetória de um ex-samurai e de seu filho, em relatos muitas vezes comoventes e em cenas excepcionais.

4 – Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons – Via Lettera Editora

Por que ler: talvez a mais densa e elaborada HQ já escrita, revisita o universo dos super-heróis sob uma perspectiva original e complexa.

5 – V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd – Panini Comics

Por que ler: outra história muito bem construída, recheada de referências e com um clima sombrio e depressivo.

 

 

Para conferir o texto na íntegra garanta a sua revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 74 aqui!

Adaptado do texto “Lugar de quadrinho é na livraria”

*Nobu Chinen é doutor em Ciências da Comunicação (ECA-USP), pesquisador, historiador e professor de Histórias em Quadrinhos. Publicitário e professor dos cursos de Comunicação das Faculdades Oswaldo Cruz (SP), doutorando em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). É membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP e da Comissão Organizadora do Troféu HQMIX.