Hábitos de leitura no Brasil

Por Sérgio Simka* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Controvérsias à parte, é inegável que atualmente Mário Sérgio Cortella (1954) faça parte do panteão dos grandes formadores de opinião do Brasil. Suas intervenções na Rádio CBN, são não só verdadeiras aulas de Filosofia, como também de ética, de cidadania e de educação em seu sentido lato. Seu maior trunfo – ter resgatado a importância da Filosofia como base da arte do bem viver e do conviver e torná-la acessível a todos. Sem dúvida, é devido à influência de Cortella que hoje vários jovens debruçam-se sobre os ensinamentos de Sócrates, Platão, Aristóteles – os pais da Filosofia ocidental -, e de tantos outros filósofos.

 

Natural de Londrina, o filósofo e escritor, com mestrado e doutorado em Educação pela PUC-SP, teve o privilégio de ter como orientador de sua tese de doutorado – defendida em 1997 e que originou o livro A Escola e o Conhecimento (Cortez, 2008) -, nosso Patrono da Educação, o pernambucano Paulo Freire, com quem conviveu por 17 anos, desde que o autor da Pedagogia do Oprimido voltou do exílio, em novembro de 1979, até maio de 1997, quando morreu.

 

Com sua verve contundente, Cortella costuma dizer que, quanto à educação pública, o Brasil saiu da UTI nas últimas décadas, passou para a enfermaria, mas ainda não teve alta.

 

O filósofo e educador é um mestre do incitar, levando-nos a abandonar nossa “zona de conforto” intelectual. Arguto desafiador, suas provocações filosóficas nos deixam inquietos e, sobretudo, colocam em xeque nossa própria existência.

 

Leia o que ele nos transmite no livro Qual é a Tua Obra? (Vozes): “O desejo por espiritualidade é um sinal de descontentamento muito grande com o rumo que muitas situações estão tomando e, por isso, é uma grande queixa. E a espiritualidade vem à tona quando você precisa refletir sobre si mesmo; aliás, a espiritualidade é precedida pela angústia.”

 

Ou este petardo, do mesmo livro: “Por que um bombeiro, que não ganha muito e trabalha de uma maneira contínua em algo que a maioria de nós não gostaria de fazer, volta para casa cansado, mas  de cabeça erguida? Por causa do sentido que ele vê no que faz. Por causa da obra honesta, a serviço do outro, independentemente do status desse outro, da origem social, da etnia, da escolaridade etc.”

 

Essa sua consideração acima não nos faz realmente “pôr as barbas de molho” e parar para pensar? Portanto é com imenso prazer que partilho com vocês a entrevista que o Professor e Doutor Mário Sérgio Cortella me concedeu em maio de 2013, a qual foi publicada em primeira mão no Portal Mauá e Região (http://portalmauaeregiao.com.br), um informativo online do qual sou colunista.

 

SS: VOCÊ ESCREVEU DEZENAS DE LIVROS. QUAL O LIVRO QUE LHE DEU MAIS SATISFAÇÃO? (TANTO PELO FATO DE TER ESCRITO COMO PELA RECEPÇÃO DO PÚBLICO)

MSC: O livro A Escola e o Conhecimento, por ser resultante de minha tese de doutorado, orientada por Paulo Freire, e a ele dedicado, é o que mais me encanta como autor; o livro, porém, com melhor recepção, lançado faz quatro anos e já na vigésima edição (com mais de 200.000 exemplares vendidos) é o Qual é a tua Obra? (Inquietações Propositivas sobre Gestão, Liderança e Ética).

 

SS: COMO TEVE A INSPIRAÇÃO PARA ESCREVÊ- LOS? ALIÁS, ACREDITA EM INSPIRAÇÃO? 

MSC: Se entendemos inspiração como sendo um “sopro” momentâneo e casual que nos atinge, não acredito nela; porém, se a entendemos como sendo fruto da atenção persistente e intencional nas várias situações que nos provocam no cotidiano e que nos desafiam a traduzir em palavras e reflexões, aí nela creio. Cada um dos meus livros resultou de inquietações diversas, seja endogenamente, seja por alguma solicitação externa; tenho o hábito de anotar ideias para textos ou livros quando sou atiçado por alguma circunstância e, parte delas, depois ganha corpo literário.

 

SS: PARA VOCÊ, O QUE SIGNIFICA SER ESCRITOR?

MSC: Sou, antes de tudo, professor, por escolha e prazer na partilha; por isso, meu “corpo docente” encontra várias maneiras de se comunicar, sendo que uma delas é exatamente a escrita de livros e artigos. Ser escritor é acolher a capacidade de transbordar para além de minha reclusão mental e estabelecer pontes comunicacionais.

 

SS: COMO ANALISA A QUESTÃO DA LEITURA NO PAÍS? 

MSC: A partir dos anos 1970 houve uma diminuição da leitura, especialmente pelo uso intenso de tecnologias de contato que priorizavam a voz e a audição; porém, desde os anos 2000 estamos retomando o crescimento de leitores, pois as redes sociais se dão especialmente pela escrita e leitura (FaceBook, Twitter etc.), e quem precisa e quer escrever, acaba por ler mais, para poder fazê-lo melhor e com mais conteúdo. Essa é a razão pela qual a plataforma “livro” teve crescimento de consumo entre crianças e jovens no último triênio, sem concorrer banalmente com plataformas “digitais”.

 

SS: UMA MENSAGEM AOS QUE DESEJAM SE LANÇAR NO MUNDO EDITORIAL.

MSC: Começar no universo da própria comunidade, escrevendo e divulgando entre amigos e conhecidos para que se capture o nível de relevância; se houver boa ressonância, procurar inserir em blog na Web e verificar o interesse e retorno. Após, havendo sucesso, procurar editora, sugerindo que visitem o blog para primeira avaliação. O restante é fruto da persistência e dos contatos.

 

SS: VOCÊ RECEBEU INFLUÊNCIA DE ALGUÉM PARA SE DEDICAR A ESCREVER?

MSC: Como professor, comecei a carreira universitária aos 21 anos, dando aulas em algumas instituições; no mundo acadêmico a escrita de textos, pesquisas, artigos e livros é exigência intrínseca, o que me colocou nesse caminho também como tarefa; o prazer, no entanto, veio e vem da minha imensa fruição como leitor, sem que haja alguém exclusivo que me tenha influenciado no estilo, mas, isso sim, como é o caso de Paulo Freire, nas ideias.

 

 

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E por que não fecharmos nossa entrevista com Cortella, com as declarações de figuras influentes nas mais diversas áreas?

 

“Trazer uma figura da importância do Professor Cortella a Santo André para debater educação, cultura e outros assuntos, além de ser um enorme prazer, é fundamental para que possamos qualificar as pessoas, trazer informações e desenvolver o conhecimento. Ele foi muito feliz nos temas abordados e enriqueceu muito, todos os participantes, que lotaram o clube Primeiro de Maio. Foi muito bom e importantíssimo para nossa cidade ter o professor Cortella conosco nesta noite.” (Raimundo Taraskevicius Salles, secretário de Cultura e Turismo de Santo André-SP, sobre a palestra que Cortella ministrou no município em setembro de 2013).

 

“O Professor Mário Sérgio Cortella tem um invejável histórico na área da Educação. Foi orientando em seu doutorado do elogiadíssimo Paulo Freire, na PUC de São Paulo. Dotado de voz teatral, encanta ouvintes com sua entonação bastante marcada. Ao lado da erudição, tem aquilo que muitas vezes limita os intelectuais, a magia da sedução de seu discurso.

 

Não raro aborda temas em que coloca a Filosofia ao lado do cotidiano: o amor, o trânsito, a falta de senso crítico das pessoas, por exemplo. Em outras palavras, consegue empatia com o público como o fazia (ainda faz, mas menos agora) o professor Pasquale com as suas inquietantes e irresistíveis aulas de Português.

 

Na rádio, em entradas diárias, em entrevistas, na internet, enfim, o professor Cortella faz sucesso. Traz a academia um pouquinho mais próxima das pessoas. É possível que traga também um certo incômodo a professores pouco afeitos à exposição pública. Em tempos de informação “midiatizada”, as críticas soam ultrapassadas.

 

“É isso!”, como diria o professor Pasquale.” (Roseli Gimenes, coordenadora do curso de Letras da UNIP)

 

“Creio que a maior contribuição do professor Mario Sergio Cortella à sociedade foi tirar a Filosofia dos livros acadêmicos e inseri-la no cotidiano, para ser discutida à luz do sol. Suas aulas, palestras ou considerações mostram que os conceitos filosóficos não são abstrações chatas, mas ensinamentos importantes que contribuem para que se leve a vida com mais responsabilidade e menos preocupações.” (Sérgio Vieira, diretor de Redação do jornal Diário do Grande ABC)

 

“A Filosofia é aquela que permite a reflexão sobre a vida, sobre o mundo, sobre o homem, sempre na esperança de oferecer métodos de percepção das coisas que existem. Vivemos em um mundo repleto de mistérios, a própria existência é um enigma para nós e para sair desse processo angustiante temos a oportunidade de pensar sobre tudo que nos rodeia, o papel do filósofo é construir um espaço para o entendimento, para a observação e análise de desta experiência existencial, o professor Mario Sergio Cortella faz isso, nos permite o mergulho no mundo das ideias, dos conceitos e nos coloca frente a muitos pensamentos. Assim abrimos nossos horizontes e quebramos as correntes da ignorância.” (Marco Antonio Palermo Moretto, filósofo, pós-doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP, autor do livro Ser professor reflexivo não é um bicho-de-sete-cabeças)

 

Bibliografia de Mário Sérgio Cortella

Entre as diversas obras publicadas por Cortella, merecem destaque: a Escola e o Conhecimento (Cortez), Nos Labirintos da Moral, com Yves de La Taille (Papirus), Não Espere Pelo Epitáfio: Provocações Filosóficas (Vozes), Não Nascemos Prontos! (Vozes), Sobre a Esperança: Diálogo, com Frei Betto (Papirus), O que é a Pergunta?, com Silmara Casadei (Cortez), Liderança em Foco, com Eugênio Mussak (Papirus), Filosofia e Ensino Médio: certas razões, alguns senões, uma proposta (Vozes), Viver em Paz para Morrer em Paz: Paixão, Sentido e Felicidade (Versar/Saraiva), Política: Para Não Ser Idiota, com Renato Janine Ribeiro (Papirus), Vida e Carreira: um equilíbrio possível?, com Pedro Mandelli (Papirus), Educação e Esperança: sete reflexões breves para recusar o biocídio (PoliSaber), Escola e Preconceito: Docência, Discência e Decência, com Janete Leão Ferraz (Ática), Não Se Desespere! (Vozes) e Qual é a tua Obra? Inquietações Propositivas sobre Gestão, Liderança e Ética (Vozes).

 

*Sérgio Simka, mestre e doutorando em Língua Portuguesa pela PUC-SP, é escritor, fundador e coordenador do Núcleo de Escritores das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Criou e coordena para a Editora Ciência Moderna a série Não é um bicho-de-sete-cabeças, livros voltados a uma nova maneira de enxergar temas contemporâneos.

Adaptado do texto “Mário Sérgio Cortella”

Foto: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 52