Guia para leitura de A Cidade e as Serras

O romance póstumo de Eça de Queiroz ficou conhecido como sua reconciliação com Portugal

Por Caroline Svitras | Foto: Reprodução Internet

Uma das leituras exigidas pela Fuvest esse ano é A Cidade e as Serras, do português Eça de Queiroz. Para ajudar o vestibulando a revisar o conteúdo de Literatura para as provas do Enem e vestibulares, preparamos este resumo, que contou com as respostas do professor Diego Marsalla Toscano. Confira:

 

Qual o contexto histórico da obra?

Desenvolvido a partir do conto “Civilização”, escrito em 1892, “A cidade e as serras” é o último romance de Eça de Queiroz, publicado postumamente em 1901, um ano após a sua morte. A obra não estava inteiramente acabada, pois faltava a revisão final, feita por um grande amigo do autor, Ramalho Ortigão, escritor e editor português.

É considerado um dos mais importantes romances da estética realista lusitana, embora seja compreendido como uma obra pós-realista, dentro da produção de Eça de Queiroz. O texto ficou conhecido como uma espécie de “reconciliação pessoal” com Portugal, tão duramente criticado em romances anteriores, “O crime do padre Amaro” e “O primo Basílio”.

A cidade e as serras” dialoga com o final do século XIX e início do XX e realça algumas características fundamentais desse momento europeu: o desenvolvimento intenso da tecnologia, o processo desorganizado/desordenado da cidade de Paris relacionado à atividade fabril e o desenvolvimento acelerado da tecnologia e a sua respectiva introdução na vida pública e privada no meio urbano, o que será reunido conceitualmente na obra pelo ideário da Civilização.

 

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Qual o movimento ao qual pertence a obra? Quais suas principais características?

Entendendo-a como um romance pós-realista, fase em que Eça de Queiroz propõe uma reflexão filosófica e esperançosa diante dos valores humanos e espirituais, a obra ainda apresenta a preocupação crítica do Realismo ao denunciar, por exemplo, as imoralidades encontradas dentro da burguesia, o pessimismo presente na vida urbana, o uso excessivo e desenfreado da tecnologia no dia a dia burguês, a influência (e o olhar crítico) diante das teorias científico-filosóficas expostas no final do século XIX e o atraso econômico da economia agrária lusitana.

Ampliando as noções que consolidaram a estética realista, empregadas por Eça de Queiroz nesse romance, percebe-se a preocupação com a verossimilhança entre a realidade interna da obra diante do universo extratextual, Paris, no final do século XIX; a técnica da descrição minuciosa incorporada à narração, dando-lhe certa lentidão; objetivismo e universalismo no tratamento dos temas literários; o emprego de uma linguagem culta e direta; e a expressão dos sentimentos, sobretudo o amor, subordinados aos interesses sociais.

 

Prepare-se para o vestibular

 

O que é importante que o estudante saiba sobre o escrito?

A obra está organizada, já no título, na distinção espacial entre a cidade de Paris e as serras de Tormes, Portugal, e convida o leitor a acompanhar uma viagem, tanto exterior, quanto interior, do protagonista Jacinto Galião: abarca a pátria portuguesa e reveste-se de uma significação particular, pois um novo Portugal e um novo português percebem-se no interior lusitano. De um lado, a estreiteza do “202”, um espaço civilizado e único, que representa a falta de horizonte para o protagonista, que se opõe à amplidão da Quinta de Tormes, um espaço natural e plural, símbolo de uma superioridade benéfica ao protagonista.

Um tema muito relevante para a compreensão da obra está nas três distintas proposições, apresentadas como “modelos” de vida sumariamente felizes, por Jacinto Galião. De início, ainda em Paris, o protagonista defende uma tese na qual hipervaloriza a Civilização – e todas as suas conquistas e inovações tecnológicas. Após a sua chegada em Tormes, Jacinto experimenta as delícias oriundas da simplicidade da vida no campo, descartando a tese, o que o faz propor uma antítese, que justamente hipervaloriza a Natureza.

 

Compreendendo Vidas Secas

 

Entretanto, ambas, tese e antítese, são estilos de vida extremistas e, de acordo com a percepção do próprio protagonista, têm um ponto em comum: quando adotados, deixam-no cego a ponto de ele não perceber as falhas em cada um, o que o faz compreender, no final da narrativa, a necessidade da conjunção dessas duas formas, coordenadas por um equilíbrio entre Campo e Cidade. Assim, Jacinto faz dessa terceira forma de vida uma síntese, alcançando, então, a verdadeira Felicidade em sua jornada.

Um dos elementos centrais na obra é a desconstrução da visão idealizada da Civilização. Para tanto, protagonista e leitor são persuadidos pelo discurso do narrador-testemunha, José Fernandes, que critica ferozmente Paris ao apontar as suas deformações e concluir que a Cidade: “(…) Então chasqueei risonhamente o meu Príncipe. Aí estava, pois, a Cidade, augusta criação da Humanidade. Ei-la aí, belo Jacinto! Sobre a crosta cinzenta da Terra – uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No entanto ainda momentos antes a deixáramos prodigiosamente viva, cheia dum povo forte, com todos os seus poderosos órgãos funcionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiência, na triunfal plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça (…). Tão facilmente vitorioso redobrei de facúndia. Certamente, meu Príncipe, uma Ilusão! E a mais amarga, porque o Homem pensa Ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! (…)”.

Há referências importantes a personagens da História de Portugal que são associados a Jacinto durante a sua vivência na Quinta de Tormes. O primeiro é Dom Sebastião, eterno rei lusitano do século XVI, aguardado por seu povo para livrá-lo da decadência e reestabelecer o Bem para todos, tendo em vistas as suas ações assistencialistas: “(…) A todos afirmava que aquele bom senhor era El-rei d. Sebastião, que voltara! (…) Jacinto era agora como um rei fundador dum reino, e grande edificador. Por todo o seu domínio de Tormes andavam obras, para o renovamento das casas dos vendeiros (…)”.

Dessa forma, a imagem de Jacinto é ressaltada, embora o caráter paternalista seja um elemento discutível por muitos dada a sua falsa legitimidade por não resolver a dificuldade estrutural da desigualdade social em Tormes. Para dialogar com as discussões políticas intensas que apareceram durante a segunda metade do século XIX, Eça de Queiroz projeta na voz de seu protagonismo, como forma de ele dissociar-se da imagem paternalista, a falsa ideia de ele assumir-se como socialista diante de seu projeto de reformar as terras em Tormes.

A segunda referência é ainda mais crítica ao protagonista. A ele é associado o miguelismo, tendência política que desejava a recuperação da Monarquia Absolutista, defendida por D. Miguel contra o seu irmão, D. Pedro IV, durante as décadas de 30 e 40, em Portugal. Tal acusação contra Jacinto é firmada por conta de sua ascendência familiar: a proximidade de seu avô a D. Miguel: “(…) Era o miguelismo, por Deus! O bom d. Teotônio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista – e, na sua inesperada vinda ao seu solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo duma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de restauração (…)”.

 

*Diego Marsalla Toscano, Professor de Língua Portuguesa do Colégio Marista Arquidiocesano, de São Paulo.