Futebol e ditadura na Argentina

Martín Kohan, escritor argentino, resgata as relações entre futebol e política durante a ditadura em seu país, revelando facetas ocultas da mentalidade e do cotidiano nos chamados ‘tempos sombrios’.

Por Inês Skrepetz* | Foto: | Adaptação web Caroline Svitras

 

Jacques Derrida e Albert Camus foram dois grandes pensadores com algo em comum: a paixão pelo futebol. Nascidos na Argélia francesa, de origem humilde, adoravam passar o tempo em meio a peladas na rua. Derrida costumava dizer que ‘foi vencido’ pela filosofia, e por isso não se tornou jogador. Já Camus, se não levou a experiência adiante [fora um goleiro amador], guardou uma profunda recordação do esporte, como nos conta Eduardo Galeano em Futebol ao sol e à sombra: [disse Camus] “Aprendi que a bola nunca vem para a gente por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas direitas.” (CAMUS in GALEANO, 2006, p. 64). Pasolini, o famoso cineasta italiano, também gostava de fazer analogias entre os jogadores de futebol os escritores de sua época, num tom absolutamente provocativo, chegando a teorizar sobre o esporte e a vida.

 

Se o jogo esteve na infância entre os pés dos filósofos franco-argelinos, e entre as letras nos ensaios de Pasolini, ela não poderia deixar de estar entre os escritores e na literatura brasileira: desde Vinícius de Moraes, que homenageou Mané Garricha em O gênio de pernas tortas, até Drummond, que confessa seu arrebatamento diante daquela seleção dirigida por Zagalo no poema Copa do Mundo de 70. Já Nelson Rodrigues, em uma das suas máximas, no jornal O Globo do Rio de Janeiro, fazia uma afirmação provocativa: “Se Euclides da Cunha fosse vivo, teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro.”

 

E o que nos dizem nossos vizinhos argentinos? Nesse texto, queremos pensar o futebol em Martín Kohan, escritor argentino, hincha/torcedor convicto do Boca Juniors, Kohan tem uma produção relevante de ensaios sobre futebol, escritos em diversas revistas e jornais. Contudo, se essa “paixão nacional”, o futebol, o faz dividir sua rotina cotidiana entre escrita, pesquisas e ver os jogos do Boca quando acontecem, na sua literatura essa “paixão” é filtrada, como ele mesmo afirma: “é uma desintoxicação do nacionalismo”. Por isso, o futebol perpassa suas principais obras – hoje, um sucesso editorial na Argentina e na Europa. Tanto em Ciencias morales como Cuentas pendientes o futebol faz as suas aparições para ser pensado/analisado em suas perspectivas multifacetadas. Porém, é no livro Dos veces junio que o futebol recebe maior visibilidade, ao ser abordado em suas íntimas relações com a ditadura e a guerra.

 

 

Dos veces junio, que poderia ser chamada de “tres veces junio”, é a narrativa ficcional (pós-ditatorial) de Kohan, que foi lançada em 2002, duas décadas após um dos períodos mais dramáticos vividos pela Argentina: o auge da Ditadura, seguida da crise e da Guerra das Malvinas (1976-1982). A narrativa explora dois momentos de perda para os argentinos: a derrota para a Itália em 10/06/1978 de um a zero no solo argentino, criando o medo de derrota na Copa; e, novamente, a perda de dois a um para o mesmo país em 30/06/1982, na Espanha, e por essa razão Dos veces junio; um terceiro junio, que se alude aqui, é a rendição para os ingleses no fim da Guerra das Malvinas (14/06/82), que atravessa o texto literário. Todavia, a narrativa não permanece apenas nesse plano, ela penetra e desvenda questões mais sutis e complexas, que permitem acessar os subterrâneos da ditadura argentina, em paralelo a esses movimentos públicos. Futebol, ditadura e guerra nas suas mais íntimas interligações.

 

Dos veces junio é o relato de um soldado raso: “¿A partir de qué edad se puede ‘empesar’ a torturar a un niño?” [“A partir de que idade se pode ‘comesar’ a torturar uma criança?”]. Essa é a pergunta de abertura da obra, e que o soldado raso encontrara escrita num caderno de notas que estava à vista, sobre uma mesa do seu local de trabalho, “no quartel”, ao lado de um telefone, no dia 10/06. O mal-estar se estabelece quando se percebe que o soldado não se incomoda com o teor da pergunta, mas com o fato de perceber um erro de escrita, isso é, de “empesar” estar escrito com ‘s’ e não com ‘z’: empezar [algo como ‘comesar’ e não ‘começar’]. Então pega uma lapiseira e acrescenta ao ‘s’ o traço faltante para que se torne um ‘z’ em letra manuscrita, pois para ele: “Pocas cosas me contrarían tanto como las faltas de ortografía.” Ele sabia que estava sozinho naquela sala, que nenhum dos seus companheiros poderia tê-lo visto acrescentar o traço ao erro ortográfico para corrigi-lo. Mesmo assim, sentia-se vigiado por um olhar e/ou olhares invisíveis. Ao desconfiar da função autoritária do contexto – pois não há como dar conta dos complexos fenômenos desse – a narrativa de Dos veces junio não faz uma descrição dos espaços-tempos em que ocorre a trama, ela os fragmenta, porém numa leitura e pesquisa mais cuidadosa, podemos identificar que os locais que são aludidos são o quartel da marinha ESMA – Escola de Mecânica Armada, que fica a poucas quadras, menos de um quilômetro, do Estádio Monumental de Nuñez, um dos lugares onde ocorreu a Copa de 78, e ambos próximos ao Río de la Plata.

 

Nessa perspectiva, Dos veces junio é um recorte reinventado, com imagens entrecortadas, dos tempos-espaços sombrios vividos pela Argentina durante o período ditatorial. A narrativa explora os arquivos da memória, embaralha-os para dar início a uma nova jogada, porém com recortes reinventados, com ações e espaços-tempos desmontados e montados. Em outras palavras, desconstrói e constrói, dando visibilidade, apresentando um outro pensamento, que se repete e se diferencia, imaginação ética-política, sobre os tempos sombrios da Argentina. Ao afastar-se da literatura testemunhal, deixa emergir o “não dito”, longe de se tornar em miríades de simples ilusões, alucinações. Na sociedade do espetáculo da contemporaneidade, em que as imagens possuem cada vez mais valor conforme o desejo do mercado, a ficção de Kohan apresenta imagens que sacodem as relações, imagens que se contrastam, se mesclam, se chocam, produzindo outros matizes.

 

 

A narrativa de Dos veces junio é montada com alguns fragmentos que se ‘entre-cortam’. Os fragmentos que se irrompem na narrativa, principalmente no que tange a narrativa futebolística, são contagiados por um pensamento de estratégias de guerra, muito similares das estratégias presentes na obra A Arte da Guerra de Sunzi. Os fragmentos que aparecem de repente na narrativa entram para um plano de análise, que penetra como um fio condutor subterrâneo os desdobramentos da trama que, desde já, analisa as estratégias do jogo do poder (na íntima relação futebol-ditadura) e alude à vindoura Guerra das Malvinas: futebol e a arte da guerra. Como no fragmento a seguir: “Cuando el contrario presenta una defensa cerrada, conviene no ensayar ataques aéreos frontales, porque se vuelven fáciles de neutralizar y terminan por desmoralizar al bando atacante.”

 

Kohan constrói imagens deslocadas desses tempos sombrios, mostrando a multiplicidade de visões – errôneas – sobre essa época. A narrativa explora a noite do Mundial de 1978, e transita entre busca frustrada do soldado raso pelo Dr. Mesiano nas ruas de Buenos Aires, para que ele responda a pergunta técnica: “¿A partir de qué edad se puede empezar a torturar a un niño?” Dentre a maioria da multidão que assiste o Mundial, o soldado raso é o único que não está acompanhando o jogo. Percorre as ruas vazias, observa que as luzes brancas do estádio clareiam os muros do Tiro Federal, onde se formara soldado. Nas ruas vazias pairava um silêncio, que desejava ser rompido por um grito de gol. Em meio a essa tensão, ele acha um anel – alguém o perdeu, ou alguém foi ‘perdido’? Kohan deixa a dúvida pairar no ar, como marca da atmosfera desse período. Emergem imagens, assim, de um poder repressivo que construiu ficções políticas acerca do Mundial, utilizando-o para camuflar a perseguição aos ditos “transgressores”, que somaram um absurdo número de desaparecidos.

 

Se o Mundial de 78, essa força agenciadora de multidões foi capturada pelo autoritarismo para potencializar a sua ficção política, no Mundial de 82 não foi muito diferente, sendo que estavam em jogo as Ilhas Malvinas. A montagem dos espaços-tempos, das ações em Dos veces junio que, num primeiro olhar, parecem se contrastar, desnudam e desmascaram um poder autoritário que se utilizou de vários meios para se legitimar e camuflar suas crueldades. A realização do Mundial de 78 na Argentina não foi uma conquista sem “terceiras intenções”. Jorge Rafael Videla Redondo, o ditador presidente na época, fez o “impossível” para que a Copa acontecesse no solo argento, apesar da resistência de grandes intelectuais e artistas de diversos países da época. Pensadores esses que assinaram o documento redigido pelo Comitê pelo Boicote de Organização da Copa do Mundo de Futebol (COBA), que foi distribuído à imprensa e enfatizava: “A Copa do Mundo de Futebol, prevista para junho de 1978, será disputada em meio aos campos de concentração da Argentina?” Os componentes do autoritarismo não ignoravam o impacto benéfico que a mobilização do Mundial poderia trazer para o Proceso de Reorganización Nacional, e para o restabelecimento do fervor da identidade nacional.

 

 

A conturbação também provocada pelo episódio da Guerra das Malvinas, e que atravessa a obra de Kohan, perpassa o imaginário argentino do século XX. É importante deixar claro que há uma impressão multifacetada sobre as motivações e o desfecho do conflito, que somente hoje é percebido como uma espécie de “insanidade” política e militar. Contudo, o mesmo contexto de Guerra Fria do século XX permitia que o governo tivesse alguma esperança em resolver a questão de modo vitorioso. O governo argentino, sem recursos financeiros e materiais para manter o conflito para o qual não havia se preparado, assinou a rendição em 14 de junho de 1982, abandonando suas pretensões sobre as Malvinas. Ao resgatar a frase de Clausewitz “A guerra não é mais que a continuação da política por outros meios” e modificá-la, lança-se a questão: Na Copa do Mundo de 1986, no jogo entre Argentina e Inglaterra, com o placar final de 2 a 1, o futebol, seria, então, uma continuação da guerra por outros meios? Para Diego Maradona, “la mano de Dios”, após essa célebre partida no México: “Era mais do que ganhar uma partida, era mais do que tirar a Inglaterra do Mundial. Nós, de alguma maneira, considerávamos culpados os jogadores ingleses por tudo que ocorrera, por tudo que o povo argentino havia sofrido na Guerra das Malvinas. Sei que parece uma loucura, um disparate, mas era, de fato, o que sentíamos. Era mais forte que nós: estávamos defendendo nossa bandeira, os rapazes mortos, os sobreviventes… Por isso, creio, meu gol teve tanta transcendência”.

 

A leitura das obras de Kohan conseguiu captar e transformar a história argentina numa narrativa que escapa aos estereótipos ou leituras simples. Seus livros superam o conceito de heróis ou vilões, e são marcados por personagens ambíguos, retirados diretamente da realidade. Kohan, apaixonado pelo futebol, mas um arguto observador social, conseguiu expressar isso de forma absolutamente instigante – e, porém, incômoda, perturbadora, sarcástica e brutal – em seus livros. Sua visão nos dá outra dimensão sobre as percepções argentinas da relação política – futebol – sociedade, tornando-se uma valiosa fonte para entender a mentalidade dos hermanos…

 

 

*Inês Skrepetz é doutoranda da UFSC (Universidade Federal de São Carlos).

Adaptado do texto “Os jogos políticos dos tempos sombrios: futebol e ditadura na obra de Martín Kohan”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 61