Formando crianças leitoras

“Uma criança que tem idade para que alguém converse com ela, já tem idade para que alguém leia para ela.” - Jim Trealease

Por Sandra Bozza* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O que é Literatura? Afinal, porque é importante ler? O que ocorre quando não se lê?

Esses são questionamentos importantes e que precisam ser refletidos amplamente por aqueles que se preocupam em garantir aos seus filhos e netos o melhor nível possível de desenvolvimento intelectual, mental, e emocional.

Literatura é arte, portanto, forma de ver e de representar o mundo. Seu papel é alargar horizontes, permitir sonhos e dar a sensação de que tudo é possível, desde que se deseje realmente algo.

A arte não existe para ensinar, reproduzir ou para reprimir. Pelo contrário: a arte, em todas as suas manifestações, possibilita a constatação de diferentes maneiras de viver e pode também servir para criar ou transformar. Por isso se afirma que a função da literatura não é ensinar a obedecer ou reproduzir o que já existe.

Sua principal contribuição, além de prazer, talvez seja o de romper, subverter, propor, questionar, apresentar novos rumos e inusitados desfechos para as mais variadas situações. Assim, envolver-se com o texto literário é extrapolar os limites da narração, da história, da trama, da ficção. É conhecer e apropriar-se de horizonte diverso do nosso e, ao mesmo tempo, vislumbrar a possibilidade de desatar nós que na realidade não nos seria possível. É trabalhar, através de recursos essencialmente simbólicos, com mecanismos não exigidos no cotidiano viver.

 

 

Vivemos do trabalho e dos afazeres diários, mas sobrevivemos da magia, da esperança e da confiança que temos no nosso futuro e no futuro da humanidade. Necessitamos da literatura para não morrermos de cansaço, de tédio, de desilusão e de desgosto. Precisamos da literatura para suportar, de forma inteligente, a vida que nem sempre nos conforta nem nos recompensa.

Essa é a importância de se legar às gerações mais jovens de nossas famílias a competência leitora, o gosto pelo escrito, bem como um acervo de qualidade de histórias que o mundo inteiro já leu e continuará lendo até o fim dos tempos.

Suas futuras escolhas literárias serão determinadas pelas sementes de magia e emoção mais interessantes que foram plantadas na sua primeira infância por aqueles que a amam, que são responsáveis por seu desenvolvimento como um todo e se preocupam, de fato, com a criação de um mundo mais saudável e justo.

 

Emília Ferreiro é uma psicóloga e pedagoga argentina | Foto: Reprodução Internet

 

Se desejamos fazer o melhor pela educação de nossos filhos, é imprescindível levar-se em consideração o discurso de Emília Ferreiro no que se refere à leitura de histórias para crianças:

 

“Sabemos que os livros, contrariamente a outros objetos, podem estar nas mãos das crianças muito antes de serem leitoras autônomas. Ter “seus próprios livros”, sua pequena biblioteca antes dos 3 anos, é algo bem diferente de ter seus próprios brinquedos. Porque esses primeiros livros são a possibilidade certa de ter acesso ao prazer da leitura, antes de saber ler.

Estar rodeado de carinho, no colo de um adulto acolhedor, enquanto se escuta uma história que surge misteriosamente das letras.

Escutar de novo a mesma história, essa que o adulto e a criança sabem quase de memória, e assistir a fascinação da repetição: a escrita fixa as palavras de tal maneira que não se desorganizam nem se confundem.”

 

Por acreditar nisso tudo, ao invés de discursar sobre a necessidade de se ler, decidi pela contribuição. Segue um contributo para o acervo literário familiar.

 

As mil e uma noites e o poder das histórias (reconto de uma história árabe)

 

Sherazade e o sultão Shariar, por Ferdinand Keller | Foto: Reprodução Internet

 

Há muitos e muitos anos, em uma época muito distante da nossa, havia um rei, Shariar, que sofreu tremendo desgosto. Por saber que havia sido traído por sua esposa, decidiu que se casaria cada noite com uma mulher e mandaria matá-la na manhã seguinte!

Não havia mais quem quisesse casar com o tal rei. Tinham de buscar noivas em reinos distantes e estranhos, pois as que conheciam a determinação do rei, sabiam de seu destino após a primeira noite!

E assim aconteceu, causando tristeza e medo em todo o reino, durante três longos anos. Foram mais de mil noites!
Porém, como nada é para sempre, uma esperança surgiu com o nome de Sherazade. Ela, astuta e bem instruída, conhecedora das artes e das letras, teve a ideia de acabar com aquela barbárie!

– Meu pai, disse ela ao Primeiro-Ministro do Rei, eu sei como impedir que isso continue. Ajude-me a casar com o rei e ele nunca mais determinará a morte de nenhuma outra jovem, daqui ou de outro reino qualquer.

O pai, desesperado, se negou terminantemente a auxiliá-la:

– Por mais que eu saiba que isso não pode continuar, não posso arriscar em consentir em sacrificar minha filha mais velha.

Mas ela não se contentou e achou outros caminhos para despertar a atenção do rei. Um dia tocava, divinamente, um instrumento raro, no outro comentava sobre uma famosa obra de arte e em outros fazia questão de preparar e servir o prato favorito daquele homem, que continuava se casando cada noite com uma mulher diferente.

Sem perceber, o rei foi prestando uma atenção especial em Sherazade e a pediu em casamento.

Na noite de núpcias, na porta do quarto real, ouviu-se uma choradeira do lado de fora.

– Oh, Majestade, deve ser minha irmãzinha, Duniazade, explicou a noiva. Ela está chorando porque está acostumada a que eu lhe conte uma história, como nossa mãe fazia todas as noites, quando éramos pequenas. Já que amanhã estarei morta, peço-lhe, por favor, que a deixe entrar para que eu a entretenha pela última vez! E, antes mesmo de abrir a porta, começou, com sua melhor voz:

 

“Era uma vez um mágico famoso e muito malvado,

Capaz de tudo fazer, quando era provocado 

De sua cartola preta, com sua bengala comprida,

Podia tirar sol e estrelas, a lua, a morte e a vida…” 

 

Furioso, Shariar tentou impedir que a história continuasse, mas, de vez em quando, também prestava atenção em alguns trechos:

 

“Certo dia, no deserto, com a caravana a andar 

Cruzou o caminho de todos, um imenso urso polar …” 

 

Logo ele resmungava, tossia e voltava a se entreter e a se deliciar com a voz macia e alegre de Sherazade:

 

“Nesse instante uma luz, todo o céu iluminou

E o homem com a bengala, nunca mais ali pisou!” 

 

– O homem com a bengala era o mágico? – quis saber o rei, que não conseguira prestar atenção na história inteira.

– Sim, meu senhor, era o mágico que… E nesse instante, interrompeu o que explicava para levar sua irmã, que acabara por adormecer, para seus aposentos, pois ela não poderia passar a noite nos aposentos reais. Quando voltou, fingiu-se de muito cansada e caiu na cama em sono profundo. O rei, que era muito curioso, ainda tentou acordá-la para que ela contasse as partes da história que ele havia perdido. Como ela não acordava e o rei queria saber a história toda, decidiu não enviá-la para morte naquela manhã e saiu para cumprir suas tarefas reais.

Agora rainha, Sherazade sabia que teria que dar boas explicações para todo o reino e, naquele dia, não saiu de seus aposentos reais. Passou as horas organizando a mais linda das histórias para contar à noite, se o rei ainda a quisesse escutar.

Chegada a noite, rei e rainha se encontraram em silêncio e nem bem o Soberano adentrou o quarto, ouviu uma suave melodia, que embalava uma história triste, de uma fada que perdera suas asas porque não usava seus poderes para o Bem.

Enquanto seus vassalos trocavam suas roupas de dormir, na sala ao lado, separada apenas por cortinas vermelhas e finas, a rainha tocava levemente as cordas de uma harpa e narrava, narrava, narrava…

Disfarçando, o rei prestava tanta atenção, que nem percebeu que os empregados que o vestiram haviam saído. Ele estava de novo a sós com sua mais nova esposa e começou a se sentir calmo ouvindo aquela voz suave, que tinha o poder de lhe trazer à memória as mais lindas cenas, visualizando em sua mente as aventuras descritas por aquela poderosa voz.

No momento mais interessante da história, a rainha, repentinamente, calou-se.

– Continue! – ordenou Shariar.

– Mas o dia está amanhecendo, Majestade! Já ouço o carrasco afiar a espada!

– Ele que espere! – declarou o rei.

Shariar deitou-se e dormiu profundamente, só despertando ao anoitecer. Ordenou, então, à esposa que concluísse a história. Assim ela o fez:

 

“E assim termina essa história, que a todos pode mostrar,
Que quando um dom nos é dado, é para os outros ajudar!”

 

Porém, o sultão não se deu por satisfeito e pediu, desta vez com delicadeza:

– Conte-me outra, por favor!

Sherazade com sua voz melodiosa começou a narrar histórias de aventuras de reis, de viagens fantásticas de heróis e de mistérios. Contava uma história após a outra, deixando seu marido maravilhado.

Sem que percebesse, o rei começou a viver cada dia esperando pelo momento de ouvir as histórias encantadoras narradas pelo poder da voz de sua esposa. E ela contava, vivamente, histórias de amor, enigmas, dramas e aventuras, sempre deixando de contar a última parte, para que o rei não a mandasse matar.

O rei transformara-se em um homem bom e feliz, que voltava correndo para sua esposa! Não só por causa das histórias, mas porque aprendeu a admirá-la e a sua forma de ser o deixava sempre feliz.

Certa manhã ela terminou uma história ao surgir do sol e falou:

– Agora não tenho mais nada para lhe contar. Você percebeu que estamos casados há exatamente mil e uma noites?
Só então Shariar constatou que não possuía mais desgosto em seu coração. A amargura desaparecera.

– Estão batendo na porta! Deve ser o carrasco. Finalmente você pode me mandar para a morte!

Olhando para Sherazade, sentiu o amor lhe inundar o coração como um raio de luz. Descobriu que jamais poderia matá-la, pois não conseguiria mais viver sem ela e suas encantadoras histórias.

Encaminharam-se para as varandas do palácio e de lá contaram aos súditos que a partir daquele dia a alma daquele reino seria formada pela magia, paixão e encantamento de todas as histórias que ali se contassem.

*Sandra Bozza é Mestre em Ciências da Educação, Especialista em Literatura Infantil, Professora de Metodologia do Ensino da Língua Escrita

Adaptado do texto “Repertorizando a família para formar crianças leitoras”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 67