Filosofia, Cultura e Literatura – Uma entrevista com Waldir Pedro

As faculdades de Filosofia formam poucos profissionais e muitos não se formam com a intenção de trabalhar em sala de aula. Professores de outras disciplinas estão ministrando as aulas de Filosofia no Ensino Médio.

PorAna Lucia Bomfim* | Foto: Arquivo pessoal | Adaptação web Caroline Svitras

Em seu livro “Dinâmicas para aulas de Filosofia”, você defende uma forma leve e literária para o aprendizado da Filosofia. Por outro lado, a Filosofia carrega o estigma de ser uma matéria exclusivamente teórica. Como conciliar a complexidade da disciplina com a necessidade de tornar esse conhecimento prático?

O livro foi pensado para alunos do Ensino Médio, embora esteja recebendo muitos retornos de outros segmentos, inclusive da Educação de Adultos. Quando comecei a trabalhar nos textos, meu objetivo era sensibilizar os jovens para a importância da Filosofia.

 

Estamos falando de uma matéria que dificilmente reprova e, para o senso comum, tem o estigma de não servir para nada. Então, como despertar o gosto para que o jovem se sinta atraído pelo pensamento filosófico?

O professor de qualquer disciplina tem de ter a noção de quando passar para a próxima etapa. Se você ensina violão, por exemplo, sabe quando o seu aluno pode passar para outro ritmo e a hora de aprofundar o estudo.

O professor de Filosofia por ficar muito na pesquisa, às vezes tem dificuldade de passar o conhecimento filosófico, achando que está descendo o nível da pesquisa. Precisamos entender que o aluno do Ensino Médio não pediu aulas de Filosofia. Nós lutamos para introduzir no currículo essa disciplina e, agora, temos a obrigação de dizer a eles por que as aulas de Filosofia têm importância. O primeiro passo é deixá-los encantados com as possibilidades que o pensamento crítico traz para suas vidas.

Quando o aluno estiver encantado, fica mais fácil o mestre ir conduzindo aos textos ditos mais densos, mas isso deve se dar passo a passo, e o professor deve analisar o momento certo.

 

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Dado o deficit educacional e cultural que assistimos sistematicamente durante os anos, como seria a forma ideal de inserir a Filosofia na vida dos alunos, já que afirma que ela voltou de forma tímida após a ditadura?

Esse deficit educacional faz com que o professor de Filosofia trabalhe mais a interdisciplinaridade para o êxito de suas aulas. A começar por trabalhar com o professor de Português para despertar no jovem o gosto pela leitura. Junto a isso, o professor de Filosofia tem a obrigação de fazer com os alunos a crítica ao próprio sistema de ensino e mostrar a eles a quem interessa um nível tão baixo da educação e que eles são os principais prejudicados por essa situação.

Quando digo que ela voltou de forma tímida, não é uma crítica aos atuais professores, apenas para pensarmos juntos os motivos que lutamos tanto para a volta da Filosofia aos bancos escolares. Com certeza, não foi para passar a teoria, mas para dar ao ensino brasileiro um espaço para o pensar. O que proponho, com isso, não seria ensinar Filosofia, mas dar um espaço para filosofar. Fazer o aluno parar e ter um momento interno para reflexão.

 

Como você vê o ensino da Filosofia nas escolas atualmente?

As faculdades de Filosofia formam poucos profissionais e muitos não se formam com a intenção de trabalhar em sala de aula. Professores de outras disciplinas estão ministrando as aulas de Filosofia no Ensino Médio. Quando isso acontece, a tendência é trabalhar mais a história da Filosofia e alguns conceitos do que propriamente dar elementos aos estudantes para formação do espírito crítico. Por enquanto, não consigo ler nenhuma matéria nos jornais de escola afastando professores de Filosofia ou tentando tirar a disciplina do currículo. Deve ser porque ela ainda não está incomodando ninguém. A Filosofia tem de transgredir, precisa tocar a ferida em tudo que acontece na nossa sociedade. A reflexão dos pensadores se materializa quando participamos do nosso momento histórico. O professor de Filosofia deve fomentar esse lado transgressor do jovem. Temas atuais como o chamado “kit gay”, mensalão, corrupção, coisa pública, papel do jovem, drogas são temas que podem acompanhar facilmente com o pensamento filosófico. O jornal pode ser o melhor livro didático em sala de aula.

 

A sua proposta sobre o uso da Filosofia prática nem sempre coincide com a visão acadêmica de grandes universidades. A formação dos filósofos e professores, aqueles que vão ministrar a disciplina, a seu ver, é condizente com o que propõe para o ensino da Filosofia?

Não proponho uma Filosofia prática, mas sim práticas para filosofar. Em meu novo livro “Dinâmicas para aulas de Filosofia”, faço algumas sugestões de atividades para que o professor comece a entrar no tema. Quando estamos no dia a dia da sala de aula, a prática exige que nos afastemos um pouco do modo acadêmico de pensar as aulas, pois meu público é outro. Não estou ministrando aulas para pessoas que estão interessadas no assunto e tem a disposição de entrar nesse mundo das ideias. Meu público é outro. A visão acadêmica fica bem dentro da academia. Quando se está diante de uma sala de aula com 40 jovens à sua frente, a melhor referência é o apresentador Chacrinha que nos ensina que, para transmitir algo, precisamos primeiro saber como se comunicar.

 

Você analisa as diferenças entre o que é ser erudito, intelectual e sábio. Poderia destacá-las?

Não precisa de muita definição para brincarmos com esses conceitos, basta olharmos ao nosso redor que tudo fica muito evidenciado. Grandes ditadores estão sempre acompanhados por pessoas eruditas, tem o poder judiciário em suas mãos. Muitos assassinatos na humanidade foram respaldados por grandes intelectuais. A inteligência não é garantia nenhuma para um caminho seguro. Grandes partidos políticos fazem atrocidades e têm ao seu redor um leque vastíssimo de intelectuais. A sapiência é um dom maior. O mestre sabe apurar as informações e transformá-las em vivência, tem o dom da sensatez.

 

Você diz também que a Filosofia pode servir de guia para a transformação interior e sugere que o “conhece-te a ti mesmo”, proferido a Sócrates, é uma síntese da existência da Filosofia. De que forma esse conhecimento pode, efetivamente, ajudar na busca por uma vida menos angustiada?

Vou citar um exemplo usado por alguns existencialistas. No deserto, para espantar os lobos, os homens batem panelas. Na vida, para afastar o encontro pessoal, costumamos bater panelas também. O filósofo Julián Marías nos falava que o homem vive à procura do que fazer. Esse que fazer dá o sentido a vida, que concretiza a nossa existência à medida que vamos nos fazendo. Quando não trabalhamos bem nosso interior, somos um alvo fácil às artimanhas do mundo exterior.

Note as angústias das pessoas que se embrenharam no mundo das celebridades sem um mínimo de conteúdo ou as pessoas que montam sua vida em cima de um belo corpo ou na beleza fútil. Quando a fama passa ou o tempo leva algo conseguido de modo fácil, muitas celebridades não não têm estrutura para suportar. Trabalhar o interior não elimina muitas das angústias do homem moderno, mas ajuda a perceber que, para se chegar a um local, não existe apenas um ou dois caminhos, mas uma infinidade de possibilidades.

 

Qual a importância de se ensinar Filosofia para crianças? Há uma necessidade de tornar a matéria mais simples para que os alunos aprendam naturalmente? Como a Filosofia pode interferir mais na formação da criança?

Existe um projeto de Filosofia com crianças. Creio que podemos aproveitar as diversas fases da pessoa e tirar das características de cada idade como melhor fazermos a reflexão filosófica. A criança tem o que a Filosofia mais precisa: o espírito da curiosidade, saber os porquês da vida. Assim, mais que ensinar Filosofia para criança é prolongar esse espírito crítico que vai se apagando com o tempo. Já com os jovens, podemos agregar o mesmo espírito transgressor que existe na juventude e que é uma característica também da Filosofia.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 66

Adaptado do texto “Filosofia, Cultura e Literatura – Uma entrevista com Waldir Pedro”