Escrita contemporânea brasileira

Por Márcia Moreira Pereira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

“Minha mãe é a confusão, o barulho, a agonia de minha escrita; meu pai é o silêncio… Se é que tem”, narra Marcelino Freire a uma plateia diversificada e atenta no evento Encontros Poéticos. A fala frenética do autor reflete a produção de um dos escritores mais inquietos e mais provocativos da atual literatura brasileira. Marcelino Freire chega à “cidade grande” em 1991 – o ritmo, a diversidade e a multiplicidade de São Paulo, agora sua cidade de coração, são temas constantes de sua prosa: do centro à periferia, das pequenas às grandes ruas, do luxo ao lixo, Marcelino Freire se consagra cada vez mais no solo da literatura contemporânea brasileira.

 

Marcelino Freire

Freire nasceu em uma família numerosa em Sertânia, interior do Pernambuco, em 1947; estudou teatro, desenho gráfico e letras, mas o que realmente lhe interessa é a escrita ácida, traduzindo a agonia e as mazelas do homem urbano. Já como escritor, foi premiado pelo governo do Estado de Pernambuco (1989); em São Paulo publica, de forma independente, seus dois primeiros livros: AcRústico (1995) e EraOdito (1998). Em 2000, publica seu mais célebre livro de contos: Angu de Sangue, seguido de outros como BaléRalé (2003), Contos Negreiros (2005), Rasif – Mar que Arrebenta (2008) e Amar é crime (2010). Porém, é somente em 2006 que Marcelino Freire recebe o reconhecimento da crítica especializada: vence o mais importante prêmio literário do Brasil, o Prêmio Jabuti, com o livro Contos Negreiros. Com a aprovação da crítica e a aceitação do público leitor, sua obra se torna cada vez mais presente, assim como sua atuação na cena cultural paulistana: o autor é o principal idealizador e organizador da Balada Literária, evento que ocorre em São Paulo todo ano, com a presença de homenageados ilustres.

 

A atuação social e literária de Marcelino Freire é reflexo de suas experiências de vida, algo que o autor faz questão de frisar em suas falas e, de modo mais incisivo, em sua escrita: da inquietação de sua mãe e sua chegada a São Paulo, passando pelo diálogo caótico que reflete o ambiente desta cidade, tudo isso está presente no conjunto de sua produção ficção, sendo apresentado ao leitor por meio de uma escrita ácida e ferina.

 

Na literatura atual, autores como Marcelino Freire, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Ferréz, entre outros, provam com sua escrita que a violência, a criminalidade e a periferia estão presentes de modo recorrente no cotidiano das grandes cidades, assim como a desigualdade e a injustiça social. A cidade pós-moderna já não é mais a cidade perfeita, onde sonhos e planos se concretizam – ao contrário da cidade moderna, já agora ultrapassada, ela é distópica, hiper-real, incerta; nela, os sonhos são destruídos pela avalanche da realidade urbana.

 

Nas narrativas contemporâneas, por exemplo, encontramos uma cidade múltipla, cheia de misturas, de incertezas, de realidades adversas. Já não há mais a separação entre “palco” e “público”, ambos estão interligados por um espaço citadino avassalador. Aquilo que se espera recuperar – aquilo que já foi a cidade e seus costumes – já não faz mais sentido: a cidade contemporânea é tomada pela tristeza e nostalgia do que ela um dia foi e, consequentemente, o que resta é o sentimento nostálgico diante dessa realidade distópica. Algo presente de modo compulsivo nos contos de Marcelino Freire.

 

Em Amar é Crime, por exemplo, os temas das narrativas são bastante atuais (a exploração infantil, o casamento gay, a criminalização e violência da cidade grande). No conto “Crime”, um garoto revoltado relata à mãe como fará para matar a namorada que o traiu. Em uma narrativa notamos, além das marcas orais, a proliferação da violência, o que nos leva a perceber o quanto os “renegados” socialmente têm cada vez mais espaço na literatura contemporânea – as ruas, os becos, o abuso, a violência, entre outras questões, são temas que se manifestam de modo intenso na pena do autor. Já o conto “Da paz” (do livro Rasif – mar que arrebenta) traz um desabafo desesperado de uma mulher da periferia, provavelmente, ao ser convidada a participar de uma passeata pela paz: cansada de aparências e sofrendo as consequências da violência no seu cotidiano, a narradora se nega a participar, alegando que paz é coisa de ricos e famosos, provocando uma interferência no discurso politicamente correto da sociedade atual, em grande parte regida pela mídia e pelos valores morais do mundo globalizado. Em “Angu de sangue”, outro celebrado conto do autor, de livro homônimo, a narrativa ágil e introspectiva retrata um assalto à mão armada em um determinado centro urbano. A abordagem ocorre no mesmo instante em que a vítima está perturbada com o fim de um relacionamento amoroso, terminando em tragédia, como aponta o final do conto.

 

Segundo Karl Erik Schollhammer, em sua recente obra Ficção brasileira contemporânea, a literatura atual é caracterizada por um hiper-realismo que coloca o escritor pós-moderno diante de um dilema entre a necessidade de se relacionar com a realidade histórica e a impossibilidade de incorporá-la no presente, tal como revela a produção ficcional de Marcelino Freire. Personagens sem rumo, sem estrutura e sem identidades próprias marcam uma narrativa carente de fórmulas ou regras, onde até mesmo as estruturas ficcionais são postas em xeque, resultando em uma literatura em que classes, tipos e estruturas sociais se misturam, se chocam, tornando a escrita um retrato quase fiel de uma cidade caótica, híbrida, polifônica, grotesca… Uma cidade que se perde a cada instante.

 

Nada mau para um autor para quem, como disse o próprio Marcelino em um de seus livros, “escrever é organizar os sentimentos perdidos”!

 

*Márcia Moreira Pereira é formada em Letras, com especialização em Tradução. Mestre em Educação pela Universidade Nove de Julho, onde leciona nos cursos de graduação (Letras e Tradutor), foi professora de língua portuguesa e de literatura na rede pública de ensino; é membro da Associação dos professores de língua portuguesa e literatura (APLL), da Universidade de São Paulo. Atualmente, é aluna de doutorado em Estudos Literários na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem artigos publicados em livros e revistas diversas.

Adaptado do texto “Marcelino Freire – um escritor da metrópole caótica”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 53