Escrevendo sobre quadrinhos

Por Nobu Chinen | Adaptação web Caroline Svitras

 

Ler histórias em quadrinhos é uma atividade prazerosa e, em muitos casos, instrutiva. Para algumas pessoas escrever sobre quadrinhos é algo ainda mais gratificante, pois permite discorrer sobre uma linguagem rica com tópicos muito interessantes com infinitas possibilidades de exploração.

 

Muito antes de se tornar um romancista de sucesso com vários best-sellers em seu currículo, Umberto Eco já era um comunicólogo respeitado e alguns capítulos de seu livro Apocalípticos e Integrados, de 1964, sua obra teórica mais conhecida, versavam sobre quadrinhos. Um desses textos, o estudo da primeira página do personagem Steve Canyon, do americano Milton Caniff, é, até hoje, referência em análise semiológica. Autor de romances consagrados como O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, Eco foi articulista da revista italiana Linus, uma das primeiras a tratar os quadrinhos como forma de arte e trazer em suas páginas republicações de séries clássicas, além de artigos analíticos sobre séries e autores.

 

Eco faz parte da geração de intelectuais europeus, principalmente italianos e franceses, que, a partir dos anos 1960, passaram a fazer estudos “sérios” sobre os quadrinhos com análises aprofundadas e baseadas em referenciais teóricos da linguística, semiótica, história da arte, literatura e outros ramos do conhecimento. Nomes como Pierre Couperie, Oreste Del Buono, Maurice Horn, Pierre Fresnault-Deruelle, Luís Gasca, entre outros, e que mais tarde se tornariam conhecidos como autores de obras seminais sobre o tema. Até então, existiam livros que se atinham mais ao aspecto de registro histórico com citação de datas e autores e um ou outro comentário sobre o processo de criação ou dos quadrinhos como linguagem.

 

Com esse perfil, o mais antigo livro totalmente dedicado aos quadrinhos é The Comics, do cartunista Coulton Waugh, lançado em 1947, que abrangia somente a produção americana voltada aos jornais, ou seja, as séries publicadas em forma de tiras diárias ou páginas dominicais. Tal postura já denotava um certo desprezo pelos quadrinhos de revistas, que àquela altura já haviam alcançado uma grande popularidade, mas eram considerados um produto inferior. Antes disso, o crítico de arte americano Gilbert Seldes havia incluído em seu livro The Seven Lively Arts, de 1924, um artigo elogioso à série Krazy Kat, de George Herriman. Para a época, essa citação fora bastante ousada, pois ainda era bem clara a distinção em arte e produtos de comunicação para consumo de massa ou entre high e low art.

 

Essa fronteira, que alguns insistem em manter fortemente estabelecida, é cada vez mais tênue e, nos dias atuais, praticamente inexistente. Com a descoberta dos quadrinhos como linguagem e manifestação cultural, pesquisadores do mundo inteiro passaram a se dedicar a escrever sobre o assunto. A produção era tão numerosa que já em 1971, o alemão Wolfgang Kempes elaborou um catálogo denominado International Bibliography of Comics Literature que além de livros, incluía artigos de revistas e jornais. Entre os trabalhos brasileiros, os mais citados são os artigos escritos pelo jornalista Sérgio Augusto que, entre 1966 e 1967, manteve uma seção regular sobre quadrinhos no Jornal do Brasil. No catálogo de Kempes não há menção a nenhum livro de autor brasileiro, mas uma citação curiosa: o sociólogo Gilberto Freyre, que escreveu sobre quadrinhos em algumas de suas colunas para a revista O Cruzeiro.

 

Abrindo caminhos

No Brasil, os primeiros livros a abordar os quadrinhos tinham o objetivo de atacá-los. O livreto As Histórias-em-quadrinhos e Seus Malefícios, de Carlos Studart Filho, foi lançado em 1968. Outra obra, Delinquência Juvenil, de Sérgio Muniz Souza, que também fala mal dos quadrinhos, é ainda anterior e data de 1959.

 

Somente em 1970, com a publicação de Shazam, organizado por Álvaro de Moya, é que esse quadro começou a mudar. No mesmo ano, foi lançado o livro Bum! A Explosão Criativa dos Quadrinhos, do professor Moacy Cirne, dando início a sua vasta produção voltada aos quadrinhos, que inclui Para Ler os Quadrinhos e História e Crítica dos Quadrinhos Brasileiros. Cirne é o autor com maior número de obras que abordam os quadrinhos, com nove títulos, sem contar a frequente participação da Revista de Cultura Vozes, em vários números avulsos e nas três edições temáticas sobre quadrinhos.

 

Moya também escreveria outros livros como História das Histórias em Quadrinhos, de 1986, e Vupt Vapt, de 2003, este último, uma coletânea dos artigos publicados mensalmente na revista Abigraf. Uma única vez, esses dois autores estiveram reunidos em um só livro: Literatura em Quadrinhos no Brasil, de 2002, que contou ainda com a colaboração de Otacílio D’Assunção Barros e Naumin Aizen.

 

O professor José Marques de Melo foi o coordenador da primeira pesquisa feita sobre publicações de quadrinhos no Brasil e os resultados compõem um amplo capítulo do livro Comunicação Social. Teoria e Pesquisa, de 1970.

 

Mais tarde, em 1975, o professor Antonio Luiz Cagnin lançou o livro Os Quadrinhos, fruto de sua tese, trazendo uma completa análise semiológica, num estudo que até hoje se mantém insuperado. Naquele mesmo ano, a professora Zilda Augusto Anselmo publicou o livro Histórias em Quadrinhos, uma pesquisa de recepção feita entre alunos do ensino fundamental com o intuito de definir um perfil de leitor de quadrinhos.

 

A professora Sonia Bibe Luyten, que mais tarde se tornaria conhecida como uma das primeiras pessoas a estudar os mangás no Ocidente, também lançou em 1985 dois livros sobre quadrinhos: Histórias em Quadrinhos: Leitura Crítica e O Que É História em Quadrinhos.

 

Novos rumos

A partir da trilha aberta por esses pioneiros, diversos outros autores passaram a escrever sobre quadrinhos no Brasil.

 

Sucessor do professor Cagnin e da professora Sonia Luyten na condução da disciplina de Editoração de Histórias em Quadrinhos, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, o professor Waldomiro Vergueiro é responsável pela organização de vários livros em parceira com outros estudiosos. Como Ler os Quadrinhos na Sala de Aula, co-organizado por Angela Rama, é de 2004. Muito Além dos Quadrinhos e Quadrinhos na Educação, ambos de 2009, foram co-organizados por Paulo Ramos. A propósito, em tempos recentes, esse autor tem apresentado uma produção intensa iniciada com Leitura dos Quadrinhos, de 2009; seguido de Bienvenido, Um Passeio Pelos Quadrinhos Argentinos, de 2010, e outros dois títulos.

 

Fora do âmbito acadêmico, um nome que merece destaque é o do jornalista Gonçalo Junior, escritor prolífico e autor de alguns dos mais importantes livros sobre quadrinhos, entre os quais Guerra dos Gibis, de 2004; Maria Erótica e o Clamor do Sexo, de 2011; e A Morte do Grilo, de 2012. Os três são fundamentais para a compreensão do mercado brasileiro de quadrinhos, em contextos históricos diferentes. Gonçalo Junior também organizou e redigiu o livro Biblioteca dos Gibis, de 2006, coletânea de resenhas sobre o que já havia publicado sobre quadrinhos no Brasil, até então.

 

Ainda que a bibliografia brasileira sobre o assunto seja tímida em relação a países como Estados Unidos, França e Espanha, de uns tempos para cá, o ritmo de lançamentos de livros sobre quadrinhos tem sido animador, com títulos que vão desde a análise de super-heróis e religião a obras que orientam no uso dos quadrinhos para o ensino de ciências. Existe até uma pequena editora, a Marca de Fantasia, de João Pessoa, que mantém em seu catálogo, cerca de 20 títulos de livros teóricos sobre quadrinhos.

 

Da década de 1970 até os dias de hoje, houve uma inegável evolução na produção e edição de livros sobre quadrinhos no Brasil, com lançamentos significativamente mais numerosos do que nas décadas passadas. Isso é reflexo do crescente interesse que o assunto tem despertado no público e, obviamente, entre os estudiosos que a cada dia descobrem novas abordagens, novos pontos de vista e novas perspectivas para exploração do rico e fascinante universo das histórias em quadrinhos.

 

Fotos: Revista Conhecimento prático – Literatura Ed. 51