Ensino da literatura nacional

O mundo de hoje nos colocou em uma relação paradoxal com a palavra escrita. Novas tecnologias de comunicação, as mídias, as redes sociais, nos põem em um contato constante com textos

Por Rodrigo Franklin de Souza* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Talvez nunca na história ler e escrever tenham sido parte tão presente da nossa vida. Apesar disso, parece que nunca tivemos tão pouco tempo para ler devagar, para ler por prazer, especialmente aquilo que chamamos de boa literatura.

 

Diante disso é natural que perguntemos “para que serve a literatura?” Isso porque vivemos em um mundo onde as coisas precisam de alguma utilidade aparente para ter valor. Uma reação a esse pragmatismo seria dizer que a literatura não precisa de justificativa — o que seria verdade.

 

Mesmo assim, podemos afirmar que a literatura tem enorme importância para além do prazer que proporciona.
Talvez o benefício mais elementar da literatura seja a forma como ela nos conecta com nossa própria humanidade. Se algum sentimento foi vivido, se algum dilema moral foi enfrentado, se algum conflito atormentou a alma, essa experiência foi capturada em um texto literário. Na literatura encontramos elementos de nossa humanidade comum.

 

Sonhos, desejos, alegrias, perdas, paixões, virtudes e vícios em que nos vemos refletidos, desfilam nas páginas dos clássicos, como Homero e Cícero, dos grandes nomes, como Shakespeare, Cervantes, Goethe, Dostoiévski, da literatura contemporânea, de Jennifer Egan a Orhan Pamuk, de Moshin Hamid a Gcina Mhlophe, de Chimamanda Adichie a Amos Oz. Dos mais primários impulsos individuais às mais complexas situações sociais e políticas, autores tão diversos compartilham temas e palavras que nos encantam, desafiam e transformam. Antes de mais nada, a literatura nos humaniza.

 

Por outro lado, mesmo partilhando uma natureza comum, não existem humanos genéricos. A experiência humana é construída dentro de uma realidade cultural, histórica e social específica, e assim a humanidade refletida na literatura sempre levará as marcas de períodos, culturas, línguas, gêneros, e estilos pessoais distintos.

 

E por refletir a humanidade nessas limitações, a literatura também sempre foi central na formação das línguas e na construção de identidades linguísticas e culturais.

 

A grande literatura brasileira tem esse papel essencial de nos colocar de frente com o potencial de nossa língua, com a riqueza de nossa cultura, com nossas sensibilidades, com nossos lados sublimes e canhestros.

 

Perdemos em 2014 três nomes significativos de nossa literatura no espaço de apenas uma semana: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna (sem falar em Ivan Junqueira e nosso vizinho Gabriel García Marquez que partiram há tão pouco tempo). Cada um a seu jeito nos ajudou a viver e a experimentar nossa brasilidade de forma mais rica e profunda. Há o que se ganhar e aprender com a visão cosmopolita e acadêmica de João Ubaldo, com o lirismo simples, bonito e quase piegas de Rubem, com o humor, o rigor formal e o nacionalismo radical e ufanista de Ariano.

 

Vão-se os autores, felizmente, ficam suas obras. Ficam também muitos outros autores e obras que nos abrem as vistas: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Adélia Prado, Chico Buarque, Luiz Vilela, Francisco Dantas, Milton Hatoum.

 

É importante ler os nossos clássicos e os nossos contemporâneos. Mergulhar nesses textos é mergulhar em nossa língua, em nossa brasilidade. É também possibilitar que essa herança tão rica continue viva, nos moldando e sendo moldada por nós.

 

 

*Rodrigo Franklin de Sousa (PhD, University of Cambridge), é professor de pós-graduação na Universidade Presbiteriana Mackenzie, autor e conferencista. (https://www.facebook.com/rodrigofranklindesousa).

Adaptado do texto “Por que ainda ler a Literatura Brasileira?”

Foto: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56