Ensinando literatura

Vivemos hoje em uma época de grandes progressos tecnológicos e modernização, mas também nos deparamos com uma grande “desumanização” das pessoas, o que reflete na falta de valores

Por Aline Fernanda Camargo Sampaio* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A literatura, como arte da palavra, deve estar presente na vida cotidiana das pessoas, propiciando a organização das emoções e refletindo sobre as manifestações ficcionais que expressam os valores, a cultura e a identidade do contexto a que pertence.

 

Diante de tal realidade, a utilização de textos literários, não somente em aulas de Língua Portuguesa, torna-se relevante e primordial, pois pode ser um recurso para reencantar as aulas e o espaço escolar, já que a literatura, imprescindivelmente, remete ao discurso poético, por meio do qual, lembra-nos Azevedo (2004), abre-se mão da linguagem poética, objetiva, impessoal e sistemática dos textos didático-informativos que remetem o leitor à mesma e única interpretação, em favor de um texto mais subjetivo, que permite que diferentes leitores cheguem a diferentes interpretações. E também a ficção que permite se abdicar de uma visão objetiva do mundo e adentrar no mundo da subjetividade, da singularidade, da fantasia.

 

 

 

Também é preciso lembrar que ler não é um ato solitário. Ler implica trocar sentidos. E os sentidos são resultados do compartilhamento da visão de mundo do homem. Quando se lê, abre-se uma porta do mundo ao outro. A leitura só se torna significativa quando se abre ao outro, à possibilidade de aceitar a ideia do outro, o que é um gesto solidário.

 

Sabemos que inúmeros problemas têm contribuído para que a escola atual não esteja conseguindo vencer o desafio de promover o letramento da parcela da população que consegue chegar a ela. Dentre os vários fatores que colaboram para essa fragilidade, há uma incompreensão do significado do ato de ler, reduzido à tarefa de simples reconhecimento de um único sentido para o texto.

 

 

 

 

Consequentemente, a literatura seria um instrumento do processo de humanização, uma vez que construir sentidos significaria construir respostas pessoais para a edificação de um mundo humano, considerando nessa tarefa as ideias, os sonhos, os sentimentos e a imaginação do sujeito leitor em diálogo com outros indivíduos.

 

Nesse processo, a questão dos materiais de leitura é crucial, pois se trata em linhas gerais, da qualidade dos textos de que o aluno dispõe para constituir-se leitor. Isso significa que os leitores devem estar expostos a todo tipo de texto, inclusive de clássicos literários, que deveriam ser trabalhados em todas as disciplinas, pois contribuem não só para a formação do leitor, em sentido restrito, mas também para sua formação como ser humano e cidadão.

 

 

 

 

É preciso considerar que nossos alunos são leitores da mídia, de meios de comunicação disponíveis a uma pluralidade de pessoas, com histórias diversas e pertencentes a contextos sócio-históricos específicos, não podendo ser considerados como uma massa inerte e indiferenciada. Thompson afirma que “essas pessoas veem as mensagens dos meios com graus diferentes de concentração, interpretam-nas ativamente e dão-lhes sentido subjetivo, relacionando-as a outros aspectos de suas vidas” (THOMPSON, 1995, p. 287).

 

Portanto, a literatura, se bem explorada e relacionada às demais disciplinas, além de língua portuguesa, pode ser um bom recurso para atrair a atenção dos alunos, para reencantá-los e, ao mesmo tempo, auxiliar na formação do seu espírito crítico e reflexivo, elemento que integra grande parte das preocupações dos educadores.

 

*Aline Fernanda Camargo Sampaio é Mestra em Educação e Linguagem pela USP, Especialista em Docência no Ensino Superior, Graduada e Licenciada em Letras/Português pela USP, Pesquisadora do Grupo DiCLiME-USP (Diversidade Cultural, Linguagem, Mídia e Educação) e Professora Universitária.

Adaptado do texto “A literatura como forma de reencantar os alunos”

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