Dom Quixote de La Mancha

A construção das personagens do clássico foi genuinamente idealizada por Cervantes, tratando-se de Quixote, sem dúvida ele é a personagem principal, pois é ele quem dá nome à obra, além de seu desempenho singular no enredo, o qual é outra característica que nos confirma isso

Por Alessandra Gomes da Silva* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quixote não apresenta as características dos heróis que já ouvimos falar das novelas de cavalarias e clássicas epopeias; podemos descrever seus traços físicos e comportamentais da seguinte maneira: alto, magricela, enxuto de rosto, cinquenta anos de idade, fidalgo, amante da madrugada e da leitura de romances de cavalaria, amigo da caça, dono de um cavalo seco que está mais para um pangaré sem forças; é um homem sábio, de imaginação fértil, para outros, é um louco, de espírito aventureiro, idealista e desmedido em suas ações e emoções. Quanto à construção de Sancho Pança, como ele está presente em todo o enredo e nas narrativas, ele pode ser considerado um personagem menor do romance e podemos descrevê-lo da seguinte forma: baixa estatura, gordo, lavrador, anda sobre um asno; é um homem calmo e do bem, de espírito prático, pacificador, racional, que busca compensações — ele é o oposto de Quixote. Com tais construções das personagens de Quixote e Sancho vai inserindo-se a significação de ambos na obra cervantina, são personagens inesquecíveis, imortalizados por leitores de todas as épocas. Dom Quixote foi publicado em uma época que estavam ocorrendo grandes transformações, quando romances de cavalaria vinham liderando o lugar de destaque na literatura popular. Num curto espaço de tempo começavam a decair, adotando as inovações do seu tempo; Cervantes em sua obra satirizou o estilo literário das novelas com seus heróis cavaleiros andantes.

 

E assim, criou na sua famosa obra uma paródia das novelas medievais da época, com seus ilustres heróis cavaleiros. Ambas as personagens principais apresentam questões e reflexos do ser humano em suas loucuras, lucidez, ideais, amores, personalidade, senso realista e crítico.

 

Um romance cheio de alusões a outras obras, críticas à sociedade da época e sua literatura cavaleiresca, uma obra-prima com personagens com múltiplas significações: justiça, idealismos enlouquecidos, elevadas virtudes, sensibilidade, aventura, liberdade de espírito e emoções, razão, humor e sátira, seus personagens principais estão perfeitamente ligados. Um dos conceitos que Todorov dá para literatura é: “a literatura não é teoria, é paixão”. A literatura vai além das teorias, pois ela nos permite enxergar além do que os nossos olhos podem ver, viajar sem sair do lugar, exercitar a nossa alma, nos permite entender o mundo melhor, ela aumenta a nossa esperança, faz o tempo passar depressa, nos diverte, compartilha ideias, sonhos, conhecimentos , um misto de sentimentos, ela comove, perturba, transforma, ela nos permite ser humanamente melhor. Isto é, a literatura é uma das artes que melhor recria a realidade, ela é carregada de plurisignificados, mostra o homem com seus anseios, sonhos, aspirações, com todos os sentimentos temporais e existenciais, ela é um ser vivo em meio à sociedade permeando por todas as esferas do cotidiano, não importa a época; a literatura não pode ser definida por conceitos engessados, ela ultrapassa fronteiras: “A literatura abre ao infinito essas possibilidades de interação com os outros, e por isso nos enriquece infinitamente”. Ou seja, em uma obra literária todos os seus elementos tornam-se um objeto de consenso, a mente do leitor que vai criar os significados. “A imaginação é a rainha do verdadeiro.” A partir daí, pode-se concluir que os autores criam uma realidade imaginária e utilizam-se dos fatos do cotidiano, da sua experiência de vida, e unem ao universo fictício-real. Assim, cabe ao leitor interpretar o mundo e a si mesmo como propõem a literatura. “A função da literatura é criar, partindo do material bruto da existência real”, segundo Todorov. Portanto, podemos tropeçar com a literatura nas ruas, conhecer os personagens de um livro, do poema, da poesia, no banco de uma praça, no trabalho. A literatura tem o poder de resgatar quem está no fundo do poço, quem se encontra numa profunda depressão, ela devolve o sorriso nos lábios, podemos nos reconhecer em um personagem que pode estar passando pelo mesmo problema, ter as mesmas qualidades e defeitos, até mesmo pode possuir as mesmas loucuras e idealismos. A literatura agrega em nós o interesse por nós mesmos e pelo o outro, além do desejo intenso de viver.

 

Uma vez que uma personagem assume múltiplas interpretações, em cada leitor que o lê produz uma leitura observadora, sem identificações, afeições, sem deixar-se seduzir pelas semelhanças. Pode-se, entretanto, adotar um ponto de vista próprio, seja de si mesmo ou do mundo, ampliando os horizontes, os seus conhecimentos, pois a literatura tem o seu sentido amplo: “A literatura refere-se a tudo”. Podemos observar no momento em que Quixote insiste com Sancho Pança de que os moinhos de vento são gigantes, o seu escudeiro de senso realista tenta desfazer essa ilusão de seu amo, pois ele vê apenas moinhos de vento e nada mais. Quixote o questiona e insiste em sua visão ilusória e sai para batalhar com os gigantes, embora derrotado com o golpe da realidade e da vida cotidiana, aqueles moinhos de vento têm algo comum e corriqueiro nos campos daquele lugar; a preocupação de Sancho ao ver Quixote sendo arremessado ao longe é real. A dor física que Dom Quixote sentirá em seu corpo por causa da queda será real, mesmo ele negando-se a sentir, pois cavaleiros andantes, segundo ele, não são dados a se lastimarem de feridas, ainda que por elas lhes saiam as tripas.

 

Assim, torna-se notório o embate da ilusão com a realidade que de certa forma atinge o ser humano, lutando contra os moinhos de vento e os acontecimentos da vida real.

 

Dom Quixote

O Romance

Desde o século XVI em diante, surgiram adaptações para o teatro, composições musicais, versões para óperas, balés. No século XX, surgiram versões para o teatro, televisão, cinema, desenho animado; o primoroso romance insere-se também nos pincéis e telas de pintores como: Goya, Hogarth, Picasso, Daumuier, Gustave Doré. Existem restaurantes e marcas de charutos cubanos com o nome de Sancho Pança, tiras com as personagens vinculadas nos meios de comunicação, estátuas nas praças da Espanha; o nome da obra está presente na literatura de cordel, enredo de escola de samba Mocidade Independente de padre Miguel no ano de 2012.

 

Decorridos quatro séculos e essa genuína obra literária de tamanha repercussão, continua perene e encantando novos leitores e inspirando-os, perturbando a sanidade, loucura, emoção, razão, comportamento de todo ser humano. “El engenhoso” Miguel de Cervantes escreveu o romance Dom Quixote De La Mancha entre 1605-1615, sua mais famosa obra, que nos conta a história da personagem que deu o título ao clássico, Dom Alonso Quixano, universalmente conhecido como Dom Quixote De La Mancha. Para uns: um cavaleiro da figura triste, sonhador, louco, tonto, idealista, aventureiro, engenhoso e por aí se seguem as definições que cada um tem desse cavaleiro andante. Um fidalgo magro de cinquenta anos de idade que morava numa vila da cidade de La Mancha, um utópico que passava as madrugadas saboreando obras cavaleirescas. Lia tanto que já sabia tudo sobre cavaleiros, seus rituais de cavalaria, desfazendo-se da sua razão de tanto ler e viajar nas histórias dos cavaleiros andantes de seus livros intitulou-se de Dom Quixote De La Mancha, o cavaleiro andante, resolveu sair pelo mundo afora se aventurando. Vestiu-se a caráter como um cavaleiro, mesmo sendo a armadura mais velha que a sua própria idade, montou em seu cavalo chamado Rocinante, e como cavaleiro não podia faltar um amor por quem ele possa lutar com toda a sua coragem, eis que ele idealiza o nome da sua amada: Dulcineia Del Toboso, sua primorosa dama. Por ela, ele passa por embaraçosas aventuras. Ao seu lado, como fiel escudeiro, está Sancho Pança, homem de estatura baixa, gordo, lavrador, anda sobre um asno, tem temperamento calmo, do bem, espírito pacificador, racional e de senso prático e que busca compensações; ele é o oposto do seu amo, Dom Quixote.

 

O romance vai do trágico ao cômico. Os demais episódios da obra cervantina tendem só a confirmar essas duas escalas. Como se pode perceber, Cervantes escolheu os nomes dos seus principais personagens de uma forma muito peculiar, onde seus significados associam-se perfeitamente a Dom Quixote e Sancho Pança. Desse modo, as escolhas apontam os primeiros indícios da significação e representações das personagens na obra cervantina […] “Notamos as particularidades da vida manifestando-se nas obras”. Segundo Muniz Sodré: “Hoje, como no passado, o leitor projeta-se nas aventuras heroicas, dando vazão ao seu desejo. e de poder como herói, escapar às leis do cotidiano repetitivo e monótono”. Diante disto podemos fazer a seguinte indagação: Quixote é louco ou sábio?

 

Parafraseando as palavras de Auerbach, “uma loucura como a de Dom Quixote só pode surgir num homem puro, nobre e amável”. Quixote, ao intitular-se como cavaleiro andante em sua vida monótona, vida de fidalgo não muito afortunado, conhecido na vizinhança, quis desfazer-se da sua realidade e do mundo que o cercava para refugiar-se no mundo fantasioso dos seus livros. Ele se lança no jogo dos dois mundos, da realidade e da fantasia. Ele transforma o mundo rotineiro, Quixote é um homem sábio, detentor de vários conhecimentos e em especial o romance cavaleiresco; ele é gentil, bondoso, cortês, dentro dele existem sentimentos e valores que nos dias atuais quem os têm são rotulados de doido. A loucura de Dom Quixote irradia tudo que vai encontrando pelo seu caminho, transformando os fatos desastrosos em uma alegre e divertida confusão.

 

Os momentos descritos são de importância na valorização da obra literária fictícia, neste plano das personagens, seus estados, situações líricas levarão o leitor a soltar o freio de mão da sua imaginação e viver as aventuras dos seus heróis ali representados e assim fez Dom Quixote. A personagem de Cervantes em sua sábia loucura consegue persuadir o pobre Sancho Pança. Na vulnerabilidade do ser humano e em seus acessos de ambição, Sancho fica inebriado com a ideia de ser governador de uma ilha, com isso, deixa filhos e sua esposa para seguir Dom Quixote pelo mundo e tornar-se governador e ter uma vida melhor. Nesse ponto, o autor mostra o lado materialista de Sancho e que a sua caminhada com o cavaleiro andante tem seus interesses pessoais; como já citamos anteriormente, ambas as personagens principais são diferentes um do outro e revelam em seus comportamentos as facetas do ser humano. Como podemos observar, Sancho não é um lavrador bonzinho e sem ambições. Revela-se aqui a concretização do ser humano individual, que busca suas compensações, mesmo que haja renúncias, como fez Pança.

 

Cervantes quis em sua obra mostrar duas figuras que se apresentam em múltiplos contrastes e mesmo assim ambos completam um ao outro, mesmo as disparidades sendo tão marcantes nas personagens: gordo, magro, alto, baixo, astuto, tolo, fidalgo, camponês, essas são algumas variantes entre Quixote e Sancho que Cervantes criou maravilhosamente bem. Cervantes conseguiu com o seu cavaleiro Dom Quixote e seu escudeiro Sancho Pança questionar o mundo a sua volta e tentar decifrar tudo o que nos cerca, mesmo que, às vezes, as lutas sejam sem respostas. Por meio de aventuras, perigos, Quixote e Sancho com atos humanos racionalmente ou irracionalmente sábios vão buscando tais respostas. Na obra de Cervantes, por meio do enredo, vai se construindo valores em Dom Quixote de La Mancha; percebemos as multifacetadas características do ser humano que são inseridas na obra, até mesmo particularidades do seu autor Miguel de Cervantes, pois em várias passagens do livro não sabemos se as falas são as de Quixote, de Sancho ou do narrador. Isso revela que parte das ações, valores e outras questões levantadas são universais aos homens e, por isso, a sugestão de que as falas não são particularizadas.

 

Quanto à linguagem, Cervantes uniu o clássico erudito e o popular, percebemos isso nos diálogos entre Sancho e Quixote. Por atos extremamente humanos e considerados, por muitos, irracionais, Quixote e Sancho Pança, representam na obra de Cervantes o ser humano em seus sentimentos, atitudes, medos, anseios, o comum cotidiano, e tantas outras características que são perceptíveis ao leitor que se identifica com eles, se tornando mais um personagem vivo, quixotesco, na história do cavaleiro andante com o seu escudeiro e amigo.

 

 

*Alessandra Gomes da Silva é estudante de Literatura, com predileção por obras clássicas.

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56