Doenças literárias?

Consumismo desenfreado e esvaziamento de sentidos na presente vida comunitária podem ter levado ao padecimento de um mal que consiste no simples fato de existir, refletindo-se isso na literatura contemporânea

Por Roberto Sarmento Lima* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Personagens neuróticas, esquizofrênicas, paranoicas, alopradas e maluquetes sempre existiram nas narrativas literárias. Dom Quixote, a mais célebre de todas (só não sei classificar exatamente a sua anomalia, que nome científico dar a ela), vem do século XVII espanhol; e, depois dele, vieram outros, mais outros; e a série desses tipos – alguns bobinhos, outros mais agressivos – não parou mais de crescer. Haja doido! Bento Santiago, por exemplo, ora era Bentinho, o filho de dona Glória, ora era Dom Casmurro, em que se tornou, ou sempre fora assim, latentemente, enquanto, entre um e outro, se estendia um vasto mar de imprecisões e silêncios mentais que podem fazer supor que ele também era um doente, lelé da cuca, como se diz. O adultério de Capitu, inclusive, podia ser obra pura e exclusiva da cabeça do ciumento contumaz, beirando o patológico, se não o era de todo.

 

E hoje? Terá aumentado essa galeria de détraqués? Com o crescimento caótico das cidades e com o desenvolvimento às vezes perverso (é o que me parece) da tecnologia e da indústria & comércio – gerando nas pobres vítimas consumidoras uma necessidade irrefreável de comprar, adquirir, mesmo que não se tenha dinheiro para isso ou não se precise de tudo que se encontra exposto à venda –, chegamos à conclusão de que está certo o dito popular: de médico e louco todo mundo tem um pouco. Concordo. Aliás, impossível não ser uma das duas coisas, senão as duas juntas e somadas. Sem estes elementos – o desatino provocado pelo cotidiano tedioso ou a fé cega nas leis do mercado capitalista –, como, então, falar de humanidade se são justamente esses aspectos da vida social e econômica que nos atam ao real e, portanto, por incrível que possa isso parecer, são os que mais nos tornam humanos? Ser humano, atualmente, é isto: cobiça desvairada, falta de discernimento e incapacidade de decidir entre o que convém e o que não convém eticamente. Quem foge desse quadro está quase chegando aos páramos celestes.

 

Dom Quixote de La Mancha

O ideológico dos outros

Quase mergulhando na angelologia, concluí a leitura do artigo “Sobre a Doença de Existir”, que saiu no número 95 da revista Filosofia: ciência & vida (São Paulo, Araguaia, junho de 2014, págs. 54-63), assinado por Matêus Ramos Cardoso. Enfoca o autor o mundo contemporâneo em que os sujeitos são chamados cada vez mais a produzir e mostrar sua capacidade laboral, seja qual for o setor de trabalho, integrando-se sem reflexão alguma às mutações tecnológicas, que, aceleradas ao máximo, fazem um produto recém-lançado ser de repente considerado fora de moda. Como se vê, quantidade, hoje, é sinônimo de qualidade, que parece não importar mais tanto como um dia importou. Como dar conta dessa velocidade das coisas e ao mesmo tempo ter tempo de viver, amar, dormir, sonhar, ler, rir e chorar? As coisas parecem devorar-nos, antes mesmo que sejam compreendidas e utilizadas, pois logo, logo parecerão superadas e obsoletas. E o coitado da esquina, podendo ou não alimentar essa roda insensata do consumo, não quer ficar de fora dessa modernidade, quer logo substituir o seu último smartphone por um modelo ainda mais avançado, antes mesmo também de dominá-lo inteiramente. Resultado: as coisas é que nos dominam. E parece que esse é um traço do capitalismo, já analisado por Marx no século XIX, cada vez mais exacerbado e invasivo, perturbando a todos com a sua agilidade e falta de razão. Desse modo, só não fica louco quem não quer.

 

O Casmurro Bentinho

 

Segundo a hipótese levantada por Cardoso, essa vida apressada e, por conta disso, irrefletida oferece combustível às doenças neurológicas; e basta eu existir em contexto como esse – ora, como não existir em contexto como esse? – para ser um forte candidato a contrair o mal. Foi o que o autor do artigo classificou de “doença de existir”. Os sintomas mais visíveis são o estresse e a depressão, podendo-se chegar à demência completa. Briga-se por tudo: no trânsito, na fila da farmácia ou só porque o indivíduo achou (só achou) que o colega de trabalho lhe torceu a cara e o nariz. Daí para os impropérios não demora muito e, quem sabe, um soco e, no limite, um tiro. A tragédia anda a cavalo, ou de supersônico. Para evitá-la ou não vê-la, consome-se. Consumir pode tanto significar um alívio para lá de efêmero capaz de suavizar vida tão conturbada e sem sentido quanto pode servir para preencher uma carência e lembrar que, no final de tudo, somos reais e parte deste mundo de Deus. Antes, as religiões faziam isso; hoje, é mais útil ir ao shopping center mais próximo, antes de bater à porta do psicólogo.

 

Michel Foucault desenvolveu seu trabalho com base na arqueologia do saber filosófico, na experiência literária e na análise do discurso.

 

A leitura do artigo me suscitou dois tópicos para reflexão: (1) essa “doença de existir” é somente um mal que acomete as mentes que, não resistindo, se entregam fácil às imposições e imposturas da vida contemporânea ou é um traço inalienável da nossa época, tenhamos ou não consciência do mal, desse modo, inevitável? (2) Quem, do alto das suas tamancas, analisa tal doença estaria imune a ela, apenas porque a vê melhor e sabe como não se deixar atrair pela seduções da atualidade? Há, ainda, uma terceira questão, falando mais de perto a quem é da área da crítica literária: a narrativa de pelo menos quatro décadas para cá, refletindo essa caoticidade, estaria igualmente afetada pela “doença de existir” e, assim, seria uma escrita igualmente doente? Haveria, pois, doenças literárias?

 

Em geral quem analisa o fato, seja o historiador, seja o filósofo, seja o sociólogo, seja ainda o crítico literário, o faz em nome de uma ciência, pretensamente posta acima das circunstâncias, e acha, por isso, que está a salvo do problema que aborda, até porque julga conhecer bem as causas do fenômeno e, prevenido, mete-se a avaliar o momento, sem se deixar contaminar. No caso do artigo “Sobre a Doença de Existir” – a preposição sobre indica “assunto” ou “posição superior” de quem paira acima dos meros mortais? –, o autor estaria simplesmente acusando um estado de coisas, sem, no entanto, se envolver com ele, para não deixar enfraquecer a autoridade do discurso que busca legitimar? Então, em que contexto social vivem esses especialistas, eu no meio deles? Não são, por definição, ideológicos os discursos? É só lembrar o que teoriza Michel Foucault, em A Ordem do Discurso. Ou só é ideológico o discurso do outro, o meu nunca? E não estamos todos mergulhados na ideologia e, mal ou bem, na malha dos valores que a sociedade contemporânea tece? Estaríamos livres, como pensadores, da “doença de existir”? Ou teríamos mais meios de, senão combatê-la, ao menos saber enfrentá-la? E tal compreensão seria suficiente para livrar-nos do mal, amém?

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 59

Adaptado do texto “Doença literária?”

*Roberto Sarmento Lima é doutor em Letras e professor da Universidade Federal de Alagoas (sarmentorob@uol.com.br).