Diversidade em sala de aula

Temos ouvido bastante a expressão aceitar e respeitar as diferenças. Talvez, no afã de defender a causa, esqueçamo-nos de refletir sobre o verdadeiro sentido que tal expressão traz em si.

Por Júlio Furtado* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Lidar com as diferenças talvez seja uma expressão que sintetize nosso nível de aceitação, de respeito, e inclua também as atitudes que temos com relação às diferenças concretas com as quais temos que lidar em nosso dia a dia. Reflitamos um pouco a respeito do real sentido dessas palavras.

 

Lidar com as diferenças é atitude que envolve três dimensões: lidar com as diferenças do outro, lidar com as minhas próprias diferenças e assumir uma postura clara diante das diferenças produzidas historicamente.

 

Lidar com as diferenças do outro é o mais consagrado sentido que conhecemos. Costumamos pensar que aceitando e “permitindo” que o outro seja como é, estaremos lidando com as diferenças. Respeitar o outro vai muito além de “permitir” que o outro ocupe lugar no espaço, com base no pensamento reducionista “cada um na sua e tudo bem”. A aceitação e o respeito pelo outro envolvem a contemplação desse outro, que, por sua vez, só é possível a partir de um olhar fenomenológico para esse outro. Esse olhar caracteriza-se por ver o que ali está, sem acréscimos ou inferências. É ver a coisa em si mesma. Ao olhar alguém com cabelo tricolor, por exemplo, enxergar o colorido e, no máximo, a ousadia do fato, mas não concluir e projetar imediatamente no outro a insanidade. Ao contemplar, eu descubro, entendo e aprendo com o outro. Eu acrescento o outro em mim e amplio minhas concepções e percepções. A segunda dimensão de “lidar com as diferenças” está relacionada com a aceitação das minhas próprias diferenças. Só consigo verdadeiramente aceitar as diferenças do outro quando aceito as minhas próprias diferenças. Ninguém é igual. O que existe é uma fantasia de padronização que se expressa através da moda, das convenções sociais e da cultura. Ninguém de perto é normal. O nível da aceitação das minhas “anormalidades” define, porém, minha capacidade de lidar com as “anormalidades” alheias, além de me fazer plenamente eu mesmo. Por último, lidar com as diferenças pressupõe que assumamos uma atitude concreta com relação às diferenças produzidas historicamente. Não lidamos com as diferenças quando somos insensíveis aos excluídos. Qual a minha postura diante das minorias étnicas? Diante do movimento LGBTs ou diante da população de rua?

 

De que maneira eu me posiciono na prática com relação aos “artistas” de sinal de trânsito?

 

 

Uma questão fundamental que não pode ser desprezada é com relação ao referencial do nosso discurso. Afinal de contas, ao abordarmos as diferenças precisamos nos perguntar: diferente de quê? Se há diferenças, é porque há um padrão de igualdade previamente estabelecido cuja análise lógica não pode deixar de ser feita. Nossa lógica de pensamento ainda é fortemente influenciada pelas “verdades” dos Tempos Modernos, que, dentre outras muitas, nos fez acreditar piamente que existe o “lugar certo para o homem certo”, que para todos há um lugar ao sol que depende apenas de esforço e determinação para ser atingido. A “verdade” modernista mais relacionada às nossas reflexões diz respeito aos critérios de avaliação de um indivíduo “normal”: é aquele que é objetivo, ou seja, sabe o que quer, cumpre regras, é respeitador e esforça-se para progredir e, se assim o fizer, conquista seus objetivos. Esses são os critérios tomados pela escola para definição de “bom aluno” que insistem em permanecer em nosso imaginário de educadores. Qualquer perfil que fuja a esse padrão corre o risco de ser rotulado como diferente, estranho, desadaptado.

 

O fim dos Tempos Modernos e o nascimento do Pós-modernismo inauguraram uma época de reconstrução de valores e referenciais. Zygmunt Bauman batizou de “sociedade líquida” o conjunto de costumes e valores praticados pelos grupos sociais nesse início do século XXI. A expressão líquida refere-se à volatilidade e à efemeridade das relações e sentimentos que se estabelecem entre as pessoas. Relacionamentos líquidos, amizades líquidas, sentimentos líquidos. Parece que tudo “escorre entre os dedos” e dura muito pouco. Nesse contexto, as novas gerações desenvolveram crenças e valores imediatistas, afinal tudo dura pouco e é preciso curtir ao máximo o momento presente, pois não se sabe se haverá amanhã. Nessa sociedade líquida, existir é sinônimo de consumir, ter sucesso é igual a virar celebridade e ter velocidade é sinal de criar oportunidade. O papel da escola torna-se fundamental para que se crie uma contracultura com relação à liquidez identificada por Bauman. Estamos produzindo, de forma muito perigosa, novos critérios de normalidade. Diferente é quem não consome, quem não está nas redes sociais e quem tem um estilo calmo e contemplativo de ser.

 

Intolerância e inclusão social

 

Contudo, a pós-modernidade está dando sinais de predisposição ao desenvolvimento de atitudes que consolidem o discurso de aceitação e respeito pelas diferenças. Precisamos agilizar a dinâmica de mudança do paradigma de diversidade que cultua a exclusão, a homogeneidade, a marginalização e a ideia de estranheza pelo paradigma que cultua a inclusão, a heterogeneidade, a possibilidade de enriquecimento através do diferente e os encara como únicos, reconhecendo o direito de serem cidadãos. Estamos diante do conceito de alteridade.

 

Alteridade é a capacidade de colocar-se no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e diálogo com esse outro. A alteridade nas relações é pré-requisito para o exercício da cidadania e para se estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes. Para a Psicologia, alteridade refere-se ao conceito que o indivíduo tem segundo o qual os outros seres são distintos dele. É o contrário de ego. Para a Filosofia, alteridade remete a ser outro, colocar-se ou constituir-se como outro. Quando negamos o outro, revelamos o desejo de eliminar a alteridade presente em nós. Precisamos superar a resistência ao outro para nos autoconstituirmos. O outro que me ameaça é o mesmo que me liberta, pois somente ele guarda o segredo de quem eu sou. Somente os outros enxergam nossa “mancha cega”, que é a parte de nossa personalidade desconhecida por nós, mas conhecida pelos outros. Sem a consciência do que realmente somos e do que parecemos ser, não construímos a aceitação necessária de nossas próprias potencialidades e limitações, o que vai dificultar o reconhecimento do outro com suas peculiaridades.

 

A Educação vem tentando legitimar a prática da inclusão das diferenças em seu cotidiano através de conjuntos de ideias e princípios batizados de diferentes formas nos diferentes continentes. Na Europa, o movimento é chamado de Pedagogia do acolhimento ou Educação intercultural. Na América Anglo-saxônica, Educação multicultural, e na América Latina, o movimento é designado como Educação para a diversidade.

 

Aprender a ler e a escrever: uma possibilidade de inclusão social

 

Independentemente do nome de batismo, os movimentos referem-se à necessidade de mudança urgente da postura educacional diante das diferenças. Na escola, constatamos que o “outro” é pouco vivenciado na relação ensino-aprendizagem. Essa exclusão do outro se manifesta em especial na aprendizagem de conceitos, processo que ocorre a partir da negociação de significados que precisa ocorrer entre professor e aluno. Essa negociação somente ocorre de forma eficaz quando o professor tem um olhar carregado de alteridade para o aluno, de forma a usar a empatia na facilitação da aprendizagem de novos conceitos. Entendemos empatia como a habilidade de nos colocarmos no lugar do outro e sentirmos como o outro sente, vendo o mundo como o outro vê.

 

A escola é fruto de séculos de políticas e esforços homogeneizantes. Aprendemos a ser professores de “iguais” e a “nivelar” as diferenças. Ainda temos dificuldade de compreender que diferenças são a essência da experiência e da possibilidade. O reconhecimento e o fortalecimento das identidades estão na base da construção de uma escola “diversificada”. É preciso perceber e trabalhar os paradoxos. É preciso romper com os perfis idealizados e padronizados de aluno e de professor para que possamos consolidar verdadeiramente a escola das diferenças. É preciso desenvolver urgentemente a função ecológica do currículo. Mais do que referencial teórico, o currículo deve ser dinamizador de relações humanas. Essa dinâmica deve levar a uma auto-organização em relação à reciprocidade das pessoas entre si e entre as pessoas e o próprio ambiente. O currículo precisa ser o viabilizador das diferenças, garantindo a expressão multicultural e o confronto dos diferentes olhares. O confronto da história contada pelos colonizadores e pelos colonizados é um bom exemplo dessa concepção diversa do currículo.

 

A escrita como fato social

 

Outro viés homogeneizante da escola é a concepção epistemológica resultante do paradigma comportamental que predominou (e ainda predomina) nas salas de aula. Segundo esse modelo, aprender é acumular conhecimento. O conhecimento sai da cabeça do professor e é transferido para a cabeça do aluno através de um processo unidirecional. Professor fala e aluno ouve. A Neurociência, por meio de pesquisas realizadas nas últimas décadas, já descobriu que, embora a memória seja atributo fundamental do processo de aprendizagem, aprender não é sinônimo de memorizar. O cérebro é composto por redes neurais-conceituais dinâmicas que se entrelaçam o tempo todo através de estímulos provocados por novos conceitos que nos invadem a cada momento. Ler, assistir a filmes, conversar com pessoas diferentes são formas de alimentar a dinâmica de funcionamento do cérebro e ao mesmo tempo de “despadronizar” o processo de aprendizagem, respeitando as diversas redes neurais-conceituais que nossos alunos trazem. O paradigma dialogal precisa ser legitimado através de esforços da escola em se abrir ao diálogo necessário com o aluno no processo de construção de conceitos.

 

O discurso da diversidade já é velho conhecido da escola e de nós, professores. Precisamos, porém, perceber suas contradições e ler suas entrelinhas no sentido de construirmos ações concretas nas práticas escolares. Parafraseando o poeta Beto Guedes, o discurso da prática já sabemos de cor, mas a prática do discurso ainda nos resta aprender.

 

 

*Júlio Furtado é educador, escritor e palestrante. Autor do livro “Aprendizagem significativa – modalidades de aprendizagem e o papel do professor” (Editora Mediação, 2008). Contatos pelo site: www.juliofurtado.com.br

Adaptado do texto “O discurso e a prática do discurso”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55