Dica de livro: Ligações Perigosas

Les Liaisons Dangereuses, traduzido para o português como As Ligações Perigosas ou As Relações Perigosas, é um romance publicado em 1782 pelo escritor francês Choderlos de Laclos. Seu formato é epistolar: os protagonistas da trama trocam cartas entre si, das quais é possível apreender os planejamentos e acontecimentos principais.

Por Nicole Ayres* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Considerado um clássico da literatura, Ligações Perigosas já rendeu adaptações para o cinema, sendo a versão mais notável a de 1988, Dangerous Liaisons, vencedora de três Oscars, com Glenn Close e John Malkovich, baseada na peça de Christopher Hampton. O filme é ambientado na mesma época do livro. Há uma adaptação do enredo para os dias atuais na trilogia teen Cruel Intentions, ou Segundas Intenções, de 1999. Recentemente, a minissérie brasileira em 10 capítulos Ligações Perigosas, estrelada por Patrícia Pillar e Selton Mello, ambientou a história para os anos 1920.

 

O que há de tão universal nessa trama, nesses personagens para render adaptações em diferentes idiomas e épocas? Não é difícil perceber: os relacionamentos humanos. Amor, paixão, desejo, vingança e poder são elementos que jamais saem de moda. Mudam as sociedades, mas não muda a complexa essência humana. Por isso, os manipuladores protagonistas de Ligações Perigosas e suas vítimas continuam verossímeis, interessantes para o público.

 

A base da trama é: a Marquesa de Merteuil deseja se vingar do Conde de Gercourt e, para isso, planeja corromper sua sobrinha, Cécile Volanges, com quem ele planeja se casar; ela pede ajuda de seu amigo Visconde de Valmont; este, porém, está ocupado com outros objetivos — seduzir uma mulher devota e fiel, Madame de Tourvel, que faz companhia à tia do visconde, Madame de Rosemonde, em sua casa de campo. A marquesa encontra, então, outro pretendente a desgraçar Cécile: o Cavaleiro Danceny, jovem que logo se apaixona pela moça e vice-versa. Uma reviravolta acontece quando o visconde descobre que Madame de Volanges, mãe de Cécile, andou prevenindo Madame de Tourvel sobre sua fama duvidosa, atrapalhando seu processo de conquista. Ele decide se vingar da mulher e concorda em seduzir a jovem. Novas reviravoltas se dão, o visconde deseja voltar a ser amante da marquesa, porém, ela recusa, percebendo que ele está de fato apaixonado pela mulher casada, os dois declaram guerra e tudo se encaminha para um desfecho trágico.

 

Pierre Choderlos de Laclos (1741-1803) foi um general e escritor francês do século XVIII, que se tornou famoso por sua obra “As Ligações Perigosas”, de 1782, marco do romance libertino. | Foto: Wikipedia

Se o livro permite analisar diretamente os comentários de cada personagem e o estilo de escrita das cartas, feitas para agradar ao destinatário e não a si mesmo, como bem observa a marquesa quando repreende a infantilidade da sobrinha, o filme permite uma abordagem mais dinâmica e condensada, enquanto a minissérie se aprofunda em determinadas questões, com frases de efeito impactantes, como a famosa “Eu não guardo rancor; eu me vingo”. São duas excelentes adaptações, que fazem jus ao talento de Laclos.

 

 

O jogo de manipulação social mantido pelo casal central é levado às últimas consequências: eles não têm limites, em especial a marquesa. Se suas ações são cruéis e desprezíveis, elas também revelam a hipocrisia da época: casamentos de fachada, amantes mantidos às escondidas, contrapostos a uma falsa rigidez moral, que tornava os jovens vulneráveis e os mais velhos cínicos. Nenhuma das vítimas resiste, todas sucumbem, até os próprios manipuladores. Quando o amor vira guerra, não há vencedores, apenas destruição.

 

As ligações em questão são perigosas para todos os envolvidos, e imprevisíveis. A marquesa e o visconde possuem a falsa sensação de controle sobre os atos alheios. Autores de uma trama novelesca, não percebem que também são personagens trágicos. O visconde, um sedutor incorrigível, se depara com um obstáculo até então desconhecido: o amor. Mas não consegue se desvincular dos laços que o prendem à pérfida marquesa, que faz questão de apontar seus sentimentos pela devota como uma fraqueza. Quando exige ao menos o direito de possuí-la, após atender a todos os seus pedidos, ela se nega. Cansado, movido pela culpa de ter desgraçado a mulher que ama, ele se entrega, mas derruba também sua antiga parceira de manipulações.

 

A marquesa, em nenhum momento, cede, é o excesso de orgulho que causa sua ruína. Um acontecimento suprimido do filme e readaptado na minissérie é outra sedução da marquesa e demonstração de sua perspicácia. Há um rapaz que quer conquistá-la e obter uma prova. Valmont a previne, porém, ela alega que já possui um plano para conseguir passar uma noite com ele, pois ele lhe é desejável, sem que esteja exposta ao julgamento social. Assim o faz: eles passam uma noite juntos, mas ela arma a situação de modo que ele seja apontado como o culpado por tentar seduzi-la e fique malvisto. Na minissérie, um advogado tenta mover um processo contra Isabel, que entra em contato com seu filho “invertido” (termo da época para os gays e transexuais), agora um artista, de modo que ele, com medo do escândalo, cede à chantagem e ainda é condenado por uma falsa agressão.

 

 

Esse traquejo social da marquesa é explicado em uma de suas cartas: desde jovem, ela adquiriu o hábito de observar o comportamento em sociedade para tentar imitá-lo, ao menos na aparência, enquanto, na intimidade, fazia o que queria, sem ser descoberta. Para ter um mínimo de liberdade, a mulher deveria aprender a ser dissimulada. O problema é que a marquesa, querendo “vingar seu sexo”, passa do ponto e endurece demais. Ela supervaloriza seus talentos, não sabe o momento de ceder. Não poupa a sobrinha, a prima, o jovem cavaleiro, nem mesmo o parceiro e confidente visconde, portanto, também não é poupada.

 

Os sentimentos estão “além do nosso controle”, conforme dito por Valmont em cena clássica do filme. Madame de Tourvel (na minissérie, Mariana) resiste o quanto pode aos encantos do visconde, que tenta convencê-la de sua conversão de caráter. Suposta vítima de ligações de reputação negativa, de quem teria copiado o comportamento, agora ele tenta se deixar contaminar pelas boas intenções da mulher. Ela acredita que o está modificando, e talvez de fato esteja, mas não o suficiente para vencer certas barreiras que os permitiriam ficar juntos. Desiludida, vê na morte sua única saída, em busca de redenção ou libertação. Possivelmente a personagem mais verdadeira de toda trama, tão intensa em sua fé quanto em sua entrega amorosa.

 

Cecília e Danceny (na minissérie, Felipe) poderiam ser a esperança do triunfo de um amor jovem e puro sobre toda a rede de intrigas. No entanto, inexperientes e facilmente corruptíveis, ambos cedem à sedução de seus tutores, mostrando que o relacionamento não passou de fogo de palha, não sobrevive a provações. Madame de Volanges se preocupa com a filha, mas não possui intimidade o suficiente para ser sua confidente, função ocupada pela marquesa, com as piores intenções. No livro, ela é mais serena, entretanto adquiriu uma representação mais austera e amargurada nas adaptações. Chega-se a insinuar que ela teria inveja da marquesa, na minissérie, por sua beleza e liberdade, e no filme Valmont conta que já teria sido seu amante, isto é, toda postura severa não passa de fachada.

 

 

Madame de Rosemonde (na minissérie, Dona Consuelo) é a mais sensata de todos. Pela experiência adquirida com a idade, percebe o que acontece ao seu redor, é compreensiva e conselheira. Gosta muito do sobrinho, apesar de conhecer suas falhas de caráter, e só pode lamentar por toda tragédia em que ele e outras pessoas de sua estima se envolvem.

 

Só percebemos tarde demais o perigo de algumas ligações, é a conclusão do livro, que também se encaixa bem para as adaptações. Como nos prevenir da influência de relações duvidosas e, sobretudo, como evitar que nossos próprios sentimentos traiam nossa vontade? É por não conseguirmos resolver esses conflitos sociais e internos que Ligações Perigosas permanece atual.

 

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*Nicole Ayres é mestranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada na UERJ.