Desperte o interesse dos alunos

Projeto inspirado nas obras de Monteiro Lobato tem o objetivo de contribuir com a formação intelectual e o fortalecimento da identidade social dos alunos

Por Simone da Silva Viana* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Há uma série de saberes culturais que devem ser conhecidos no cotidiano escolar, que instigam a olhar, escutar e agir sobre o mundo a sua volta. Nessa perspectiva, há múltiplas realidades, formas de viver e dar sentido à vida.

 

Cada indivíduo, ao nascer, vai sendo construído enquanto ser humano, inserido no meio em que vive. A cultura é plural, permitindo várias possibilidades de projetos interdisciplinares, girando em torno de grandes temas, como identidade e Pluralidade; Cultura de Massa e Consumo; Patrimônio e Herança Cultural; Cultura e Cidadania. Desse modo, a cultura configura um mundo de símbolos, que atribui significados e delimita a forma como se lê, como se sente e se vive, definindo a maneira de ser e de agir do indivíduo.

 

É preciso, enquanto professores, buscarmos esse olhar, essa identidade, esse sujeito capaz de transformar a sua realidade a partir do conhecimento obtido por essa mesma realidade. É preciso oferecer ao aluno a oportunidade de buscar suas raízes, em relembrar o passado, tornando a história viva. A partir dessa ideia de percepção do mundo, de cultura, educação e literatura, surgiu o projeto “Temos de ser nós mesmos”, que pode ser trabalhado em todas as faixas etárias; o público-alvo é diversificado, abrange todos os segmentos, inclusive a Educação Infantil.

 

O projeto pedagógico “Temos de ser nós mesmos” propõe enriquecer a imaginação dos alunos, contribuindo na formação intelectual e no fortalecimento de sua identidade social, possibilitando conhecer e reconhecer o espaço onde vivem, para que saibam a qual espaço pertencem, e se apropriem desse espaço no decorrer da sua história, promovendo a troca de significados e de vivências.

 

 

O projeto foi inspirado nas obras de Monteiro Lobato, na vida e nas obras, reconhece o legado cultural brasileiro como patrimônio nosso, utilizando-se de diversas mídias do universo infantil e adulto. Trabalhar Monteiro Lobato é vivenciar dentro da literatura um mundo rico em cultura, que possibilitará ao aluno a compreensão de quem ele é, de saber qual é sua vida e sua história. É desenvolver a imaginação, a criação, o sonho, se perceber como sujeito de sua própria história, estimulando a memória,  as vivências e a percepção visual do mundo em que vive; sensibilizando os alunos à valorização e à importância da nossa literatura e história — conhecendo a importância de Monteiro Lobato na literatura e na história do Brasil, ouvindo e recontando suas histórias e instigando a curiosidade sobre a nossa cultura e o nosso rico folclore. Finalmente, atribuindo ao aluno diversas habilidades e atitudes, como ser autêntico e ser capaz de questionar a si mesmo.

 

Monteiro Lobato na educação

 

Nas criações de Lobato, as narrativas fabulosas das lendas e mitos regionais tentam explicar a vida, são histórias imaginárias que tentam explicar o comportamento dos homens, alertando para o descompasso que pode existir entre a fala das pessoas e suas ações. Delas sempre se tira uma lição, proporcionando ao aluno o contato com a cultura e com o saber.

 

Nessa perspectiva, o ensino-aprendizagem oportuniza um espaço-tempo de reflexão crítica acerca da realidade social e, sobretudo, de referência para o processo de construção das identidades destes sujeitos e dos grupos aos quais eles pertencem, o que é determinante na construção da leitura do mundo de cada aluno.

 

 

Segundo Paulo Freire (Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996), o bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas. (1996, p. 96) Para que a abordagem pedagógica seja um sucesso, é necessária motivação,mostrando para o aluno a relevância do trabalho para o seu entendimento do presente, mostrando que o assunto é importante e atual, despertando o interesse pelo projeto como uma nova forma de ver e ensinar cultura, aprimorando sua vida social e cultural, um projeto capaz de gerar ações que traduzam, na prática, atitudes de reconhecimento à diversidade social e cultural, e o respeito entre os seres humanos dentro e fora da escola.

 
Na atualidade, é preciso oportunizar aos alunos reflexões sobre o cotidiano regional e sua interação com a cultura moderna e tradições que se encontram ameaçadas nas localidades e regiões em que estão inseridos. É preciso formar um público interessado nas suas próprias raízes, aberto o suficiente para redescobrir e valorizar onde as pessoas moram, as belezas, valores e tradições guardadas na memória de seus pais e avôs.

 

A escola no mundo contemporâneo

Pode-se, também, explorar o interesse dos alunos pelas poesias, músicas, cantigas, danças regionais. Tudo isso se transforma em estratégia metodológica para aproximar o aluno de sua cultura regional, sobre o passado e o presente no espaço vivido, demonstrando a relevância das inter-relações entre escola, cultura e educação na prática pedagógica. O processo de avaliação deve ser contínuo, por meio de observações e registros do professor que poderá documentar os progressos do desenvolvimento dos alunos, das habilidades conquistadas como linguagem, escrita, interpretação, expressão, criticidade, comunicação, criatividade, autonomia, propiciando a formação e transformação do aluno.

 

 

A cultura popular na contemporaneidade, devido ao avanço da tecnologia da informação, ganha um novo contexto no que se refere à construção da identidade brasileira. Assim, é necessário que a escola, através de projetos interdisciplinares, possa unir tecnologia com tradição, saberes e vivências, cultura, literatura e histórias, permitindo uma importante implicação para a compreensão da articulação entre cultura popular e educação escolar, sem perder de vista as particularidades do contexto vivido pelos alunos.

 

 

Além disso, o projeto dá margem a provocações e estímulos para a construção de um saber pedagógico, pautado na qualidade, resultante de toda uma construção histórica e cultural vivenciada pelos alunos. É possibilitar pensar o novo, reinventar o pensar; eternizar vivências. É dar oportunidade a novas reflexões e ao desenvolvimento da criticidade sobre diversos temas do mundo atual, como o conhecimento e o respeito à natureza, às questões sociais como guerras, fome, poder e intervenção do homem no meio em que vive.

 

Práticas pedagógicas libertadoras e a vacilação

 

 

 

Passo a passo do projeto

São sugestões, que podem ser adaptadas ao cotidiano escolar de cada região. Diversas atividades podem ser realizadas  sobre o tema, há muitas sugestões, para a Educação Infantil e Ensino  Fundamental I, por exemplo:

 

1ª atividade — Realizar de forma dinâmica e criativa a exposição dialogada, leitura e análise de obras de Monteiro Lobato que atenda ao universo infantil, projeção de imagens dos personagens, músicas, mostrar um ambiente livre em que o aluno possa contar histórias que já ouviu contar, como a lenda do saci-pererê.

 

Sítio do Pica-pau Amarelo | Foto: Globo Produções | Divulgação

 
2ª atividade — Quebra-cabeça com diversos personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo, as peças serão confeccionadas de materiais recicláveis pelos professores e alunos, embaralhadas, e de forma coletiva realizar a montagem do quebra- -cabeça; o professor neste momento contará as principais características dos personagens e os alunos terminarão a dinâmica cantando músicas dos personagens, como exemplo, da cuca, do saci, da Emília e outros.

 

Dona Benta e Tia Nastácia | Foto: Globo Produções | Divulgação

 

 3ª atividade — Dobraduras, pintura, recorte e colagem. O professor irá auxiliar os alunos na confecção de dobraduras, e logo em seguida, o professor permitirá que os alunos criem desenhos, paisagens, ilustrações sobre as histórias contadas do mundo encantado do Sítio do Pica-pau Amarelo. No segundo momento, pedirá aos alunos que criem ilustrações com as dobraduras diversas, sobre seu ambiente, sua vida, suas memórias familiares…, instigando o aluno a se conhecer, ser ele mesmo, compreender sua história. Estas ilustrações serão expostas em um varal, “O Varal de Histórias”, e todos os alunos irão visualizar os trabalhos realizados, compartilhando novas vivências.

 

 4ª atividade — Confecção de um livro coletivo, elaborado com materiais recicláveis; com o apoio do professor, os alunos irão construir a sua percepção do mundo encantado do Sítio do Pica-pau Amarelo, possibilitando também a oportunidade dos alunos elaborarem histórias contadas por eles, sobre sua vida, suas memórias e vivências. Se tratando da Educação Infantil, o livro coletivo será realizado com gravuras, ilustrações, dobraduras, imagens, que expressarão seu fazer e pensar, seus saberes e representações fundadas em dimensões materiais e simbólicas, construídas nas práticas do cotidiano e cultura de sua vida. Fazer uma exposição do livro coletivo “Meu mundo encantado do Sítio do Pica-pau Amarelo” e “Temos de ser nós mesmos”.

 

 

Para o Ensino Fundamental II e Ensino Médio, sugiro atividades, como:

•Café Literário – expondo obras de Monteiro Lobato: Urupês; Cidades mortas; Negrinha; Ideias de Jeca Tatu.

•Recitais de Poesias a partir da leitura das suas obras, com temas diversos: cultura, preconceito, trabalho infantil, tradições etc.

•Gincanas com tarefas prévias e surpresas explorando conteúdos de suas obras, de forma dinâmica.

•Apresentação teatral etc.

 

O importante é dar chance aos alunos e à comunidade escolar de adquirirem novos saberes, novas interpretações da sociedade em que vivemos, possibilitando sermos sujeitos de nossa vida!

 

Bom trabalho e êxito para todos!

 

 

*Pesquisadora, escritora e professora da Universidade Estácio de Sá

Adaptado do texto “Temos de ser nós mesmos!”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed.65