Crônicas machadianas: uma faceta menos conhecida

Por Leo Ricino* | Adaptação web Caroline Svitras

De há muito que se busca um conceito mais objetivo para crônica. Seu sentido primitivo (para não dizer original) vem dos primórdios de nossa língua, nos séculos XIV e XV, quando surgiram as primeiras crônicas sobre os reis portugueses. Não passavam de relato cronológico dos feitos daqueles monarcas.

 

Destacou-se como cronista o grande Fernão Lopes, que, embora trabalhando em cima de parca documentação e até do ouvir falar, deu- nos algumas crônicas que serviram e servem até de base para a História de Portugal daqueles idos. Destaquemos as crônicas de D. Pedro I, que reinou de 1357 a 1367, e de D. João I, que reinou de 1385 a 1433, o mestre de Aviz e filho bastardo daquele.

 

Crônica – um gênero híbrido

 

Ainda nessa linha do conceito de crônica, o grande crítico Gustavo Corção, no brilhante artigo “Machado de Assis Cronista”, publicado em 28/9 e 5/10/1958 no Diário de Notícias do Rio de Janeiro e transcrito no volume III das obras completas de Machado de Assis da Editora José Aguillar Ltda., Rio de Janeiro, 1962, p. 323, diz na segunda parte, p. 328:

 

“Estávamos naquele ponto em que abri o dicionário para saber o que ele dizia serem as crônicas: ‘História ou narração dos fatos, segundo a ordem dos tempos’, ou ‘narração dos principais acontecimentos’.”

 

Todavia, contrariando esse conceito técnico do dicionário, o delicioso nas crônicas de Machado de Assis está naquilo que ele mesmo apregoa:

 

“Para um triste escriba de cousas miúdas, nada há pior que topar com o cadáver de um homem célebre. Não pode julgá-lo por lhe faltar investidura; para louvá-lo há de trocar de estilo, sair do comum da vida e da semana.”
(Vol. III, p. 328)

 

Ou seja, as crônicas machadianas tratam do corriqueiro, do dia a dia, dos acontecimentos que estão nas folhas diárias de sua época ou no boca a boca da sociedade carioca. Por isso, elas abrangem um leque enorme de temas, incluindo, é claro, a política. E isso já torna o autor um dos precursores das crônicas e cronistas modernos, como Stanislaw Ponte Preta, Nélson Rodrigues, Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony, Lourenço Diaféria, João Ubaldo Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Victor Giudici, Paulo Mendes Campos, Luís Fernando Veríssimo e tantos outros.

 

Para todos esses cronistas, incluindo Machado de Assis, o conceito de crônica nada tem que ver com aquele primitivo, pois os acontecimentos do dia a dia que caracterizam suas crônicas não passaram de mote, de pretexto para a criação fictícia que gira em torno deles. Como se viu, primitivamente crônica é relato histórico. Nos últimos 150 anos, crônica é ficção a partir de um fato social ou pessoal qualquer. Embora tratando de acontecimentos do cotidiano contemporâneo do autor, o que as torna eternas é o grande teor de ficção que os cronistas, brilhantemente, enxertam nelas.

 

O humor nas crônicas machadianas

Com certeza, é nas crônicas que Machado de Assis mais expõe sua personalidade de crítico sutil das ações, das crenças, das descrenças e dos acontecimentos que mexeram com a sociedade da época. Pela sutileza, ele verte seu humor e acaba arrancando um sorriso amarelo dos seus coevos e um sorriso mais escancarado dos seus pósteros. E seu humor o faz crítico mordaz também. Sutileza e mordacidade, no caso dele, parecem enquadrar-se no seu jeito diplomático de falar as verdades sem provocar ferimentos graves.

 

Nem por isso, são crônicas menos ferinas. Ao contrário, elas são um feixe com convergência direta no foco a ser atacado ou, em caso oposto, exaltado.

 

Contos de Machado de Assis

 

Talvez a frase de Antonio Candido, em Vários Escritos, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1970, p. 18, referindo-se aos escritos machadianos, defina mais agudamente a linha de Machado de Assis:

 

“ […] recobria os seus livros com a cutícula do respeito humano e das boas maneiras para poder, debaixo dele, desmascarar, investigar, experimentar, descobrir o mundo da alma, rir da sociedade, expor algumas das componentes mais esquisitas da personalidade.”

 

Duas crônicas do mestre

Na coletânea de crônicas Balas de Estalo, que abrangem o período de 1883 a 1885, encontramos duas que enfocam o mesmo tema: o surgimento do espiritismo no Brasil. Uma é a de número 62, de 05 de outubro de 1885; a outra é a de número 63, de 11 de outubro do mesmo ano.

 

Para que o leitor tenha ideia – aquele que ainda não leu essas duas preciosas crônicas –, na primeira, o narrador discorre sobre uma visita que fez inopinadamente à Federação Espírita Brasileira, para conhecer a filosofia da nova doutrina; na segunda, fala sobre sua firme intenção de tornar-se o mentor do povo de uma comarca chamada Santo Antônio de Pádua e ali fundar uma igreja espírita filial. Irônicas contingências burocráticas, bem materiais mas ficcionais, impedem a realização de seu plano. O melhor é lê-las e divertir-se.

 

Não dizer, dizendo

Machado de Assis apresenta uma forma peculiar de, negando que vai dizer, expor tudo sobre o negado. O humor é uma arma propícia a esse artifício. As crônicas em questão expressam a crítica do autor ao surgimento de mais uma linha dogmática e de verdade absoluta e definitiva: o espiritismo.

 

No caso dessa crônica 62, ele diz que não vai contar ao leitor toda a fala do palestrante, mas se limita ao argumento principal, o que significa dizer tudo que realmente interessa:

 

“Não ponho aqui o discurso, mas um só argumento. O orador combateu as religiões do passado, que têm de ser substituídas todas pelo espiritismo, e mostrou que as concepções delas não podem mais ser admitidas, por não permiti-lo a instrução do homem; tal é, por exemplo, a existência do diabo.”

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 59

Adaptado do texto “Crônicas machadianas: uma faceta menos conhecida”

*Prof. Leo Ricino é professor na Fecap – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado e instrutor na Universidade Corporativa Ernst Young.